Com Bolsonaro, foi a gota d’água: “O Brasil se tornou o país do ‘futuro do pretérito’; cada um queria voltar pra época em que foi mais feliz”, escreve Gregório Duvivier (Porta dos Fundos)

01/01/2020 1 Por Redação Urbs Magna
Com Bolsonaro, foi a gota d’água: “O Brasil se tornou o país do ‘futuro do pretérito’; cada um queria voltar pra época em que foi mais feliz”, escreve Gregório Duvivier (Porta dos Fundos)

Gregório Duvivier, um dos criadores do Portal ‘Porta dos Fundos’, rompe 2020 com uma espécie de retrospectiva, não apenas de 2019 mas, de todos os anos vividos por cada brasileiro atormentado por este desgovernado Brasil, desde que teve início a trama para o golpe 2016, quando a direita arrancou do poder aqueles que verdadeiramente se preocuparam com o futuro de cada um de nós


Sob o títuloQuantos anos a gente voltou só no ano passado? ‘, publicado na Folha de São Paulo desta quarta-feira (01), primeiro dia de 2020, Divivier nos presenteia com um belo texto. E com de alto teor político: 100%.

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Para o criador do ‘Porta dos Fundos’, no ano que se passou o país viveu o auge de sua agonia acumulada por retrocessos ininterruptos ocorridos em nosso país, desde que a elite, a direita, a Justiça e as mídias brasileiras uniram-se para uma verdadeira destruição de nossos valores, após o Golpe 2016.

Leia:

As últimas eleições foram marcadas pelo saudosismo. “O Brasil feliz de novo”, dizia o slogan do PT, mas poderia ser todos os outros partidos. Todos concordavam: 1) que o Brasil não estava feliz, e 2) que a chave pra felicidade estava no retorno a algum passado. Só restava debater qual seria o ano de destino da nossa máquina do tempo.

Haddad queria voltar pros anos Lula, Bolsonaro queria voltar pros anos Geisel, Alckmin queria voltar pros anos FHC, Meirelles queria voltar pros anos Temer, Álvaro Dias queria voltar pro sarcófago. Acredito que cada um queria voltar pra época em que, pessoalmente, foi mais feliz. Marina, pra ser justo, tinha um projeto pro futuro, mas ninguém entendeu qual era. Ciro, na verdade, também tinha planos: planejava viajar pra Paris assim que terminasse aquilo tudo.

Tantas vezes no passado visto como o país do futuro, o Brasil acabou se tornando o país do futuro do pretérito. A renda que deveria ter sido distribuída, a terra que seria repartida, a vida inteira que poderia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse.

Hoje só nos é permitido sonhar com o passado —aquele tempo em que ainda era possível sonhar com o futuro. Confesso que tenho saudade da época em que acreditava que o melhor estava por vir.

O futuro, ao que parece, foi cancelado —junto com Monteiro Lobato e a calça saruel. Já não se faz mais futuro como antigamente. Faz um tempo que os anos têm corrido para trás.

Não foi do dia pra noite. Você deve ter percebido que os anos começaram a passar mais rápido. A Simone começou a cantar em setembro. Resultado: 2012 durou só uns 8 meses. 2013, em contrapartida, durou um só —precisamente o mês de junho. 2014 durou o tempo de uma partida de futebol —a Alemanha fez sete gols e pronto, acabou o ano, a vida, o país.

Foi a partir de 2015 que tudo começou a passar tão rápido que a duração dos anos foi negativa. Terminávamos os anos antes do começo. No final de 2015 estávamos em 2010, e com o impeachment de 2016 voltamos pra 2002. O MDB no poder em 2017 nos levou de volta a 1985. E a eleição de Bolsonaro em 2018 jogou a gente pra 1964.

Agora, no final de 2019, chegamos aos anos 1930. Grupos integralistas promovem atentados pra barrar a ameaça comunista. O slogan do governo, “Brasil acima de tudo”, é a tradução perfeita de “Deutschland Über Alles”. Assim como naquela década, o mundo está se dividindo em dois, e a gente tá pendendo pro lado errado.

2020 começa hoje. Vamos inventar um futuro e, se tudo der certo, esse ano só termina no ano que vem.

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