📷 O cartunista brasileiro Carlos Latuff é destaque na edição de quinta-feira (2/jul) no jornal iraniano Theran Times / Foto: Hadi Hirbodvash / MEHR NEWS AGENCY via THERAN TIMES
| Brasília (DF)
01 de julho de 2026
O cartunista brasileiro Carlos Latuff concedeu uma entrevista ao Tehran Times, publicada nesta quarta-feira (1º/jul) – início da madrugada de 2 de julho no horário de Teerã, na qual reflete sobre sua mais recente ilustração do Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, após o assassinato do religioso em ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel.
Com mais de três décadas documentando o Oriente Médio através do traço político, Latuff se tornou um dos cartunistas mais reproduzidos e compartilhados que cobrem as políticas dos EUA e de Israel na região.
Na entrevista, ele detalha o momento em que recebeu a notícia, por que escolheu centralizar sua resposta na figura do Supremo Líder e como décadas desenhando o Irã moldaram sua visão sobre a cobertura da mídia ocidental.
A reação ao assassinato de Khamenei
Latuff, que teve uma de suas charges postadas no destaque da matéria iraniana, conta que soube da notícia enquanto verificava as redes sociais.
Imediatamente, duas coisas vieram à sua mente: “Primeiro, os EUA e Israel começaram esta guerra. Segundo, este ato bárbaro não intimidaria o povo iraniano — muito pelo contrário. Ao assassinar o Aiatolá Khamenei, eles o tornaram ainda mais forte. Eles o transformaram em um mártir!”

O cartunista, que tem o hábito de acompanhar as notícias no rádio de ondas curtas, criou a ilustração de Khamenei para representar uma de suas sessões de escuta.
Quando questionado sobre por que escolheu centralizar o cartum especificamente no Supremo Líder, em vez do ataque mais amplo, Latuff explicou: “Eu escolhi a imagem do Aiatolá Khamenei precisamente porque ele é um líder — não meramente um político eleito para um mandato de quatro anos, mas um representante legítimo de todo um povo.”
O papel histórico dos cartuns
Sobre a repercussão de sua obra, Latuff observa que alguns cartuns não apenas têm um impacto maior, mas se tornam documentos históricos.
“Quando abordo a questão do Irã, sinto que esses cartuns desempenham um papel histórico; eles servem como registros para a história — especificamente, contando a história de uma perspectiva diferente daquela contada pelo Ocidente”, afirmou.
A visão sobre Trump, Netanyahu e a guerra
O cartunista também analisou a geopolítica por trás dos ataques. Para ele, Donald Trump apostou na ascensão da extrema-direita global, na apatia dos líderes ocidentais e no poderio militar dos EUA para impor sua vontade.
“Essa estratégia funcionou no mundo ocidental, mas falhou contra potências como Rússia e China — e agora Irã —, dado que nenhum dos objetivos de Trump em relação à nação persa foi alcançado”, disse.
Sobre Benjamin Netanyahu, Latuff foi incisivo: “Para Netanyahu, paz significa prisão. Enquanto ele mantiver esse estado permanente de guerra, permanece livre dos tribunais, onde enfrenta inúmeras acusações de corrupção. Portanto, está em seu interesse continuar alimentando a guerra para permanecer livre e impune.”
O cartunista também destacou o que chamou de “contraste” nas sanções: “Enquanto a Rússia enfrenta todo tipo de sanção por causa da Ucrânia, Israel não enfrenta nenhuma por suas próprias ações.”
A crítica à mídia ocidental
Latuff foi duro ao criticar a cobertura internacional sobre o Irã. “Não há a menor dúvida sobre isso. A impressão que tenho ao receber notícias sobre o Irã é que a mídia ocidental dominante atua como uma espécie de braço de relações públicas de Washington e Tel Aviv. Quando se trata do Irã, o que acontece não é jornalismo, mas sim propaganda com o objetivo de demonização.”
Futebol e política na Copa do Mundo de 2026
O cartunista também voltou sua atenção para a Copa do Mundo de 2026, um tema aparentemente distante da guerra. Para Latuff, no entanto, não há como separar política e futebol.
“Como alguém poderia imaginar que uma figura como Trump não usaria a Copa do Mundo como ferramenta política? Naturalmente, a seleção iraniana se tornaria um alvo disso. Esta Copa do Mundo se tornou um palco para os piores tipos de práticas, graças à aliança de Trump com o presidente da FIFA, Infantino, que é totalmente subserviente às ordens de Trump.”
“Um mártir nunca morre”
Ao ser questionado sobre qual imagem criaria para o período do funeral de Khamenei, Latuff respondeu com uma frase que sintetiza sua visão: “Um mártir nunca morre. Alguém que dá a vida por uma causa — por seu país — viverá para sempre nos corações de seu povo e os inspirará na luta contra seus inimigos.”
Quem é Carlos Latuff
Carlos Henrique Latuff é um cartunista, chargista e ilustrador brasileiro nascido em 1968, no Rio de Janeiro.
Reconhecido internacionalmente por seu traço político e engajado, Latuff se tornou conhecido por suas charges com forte crítica social, especialmente voltadas às políticas dos Estados Unidos e de Israel no Oriente Médio, além de abordar temas como o conflito israelense-palestino, a guerra no Iraque e, mais recentemente, a tensão entre EUA e Irã.
Seu trabalho já foi publicado em diversos veículos alternativos e plataformas digitais ao redor do mundo, sendo amplamente compartilhado nas redes sociais.
Latuff é um dos poucos cartunistas brasileiros com reconhecimento global no campo da sátira política, frequentemente sendo convidado a expor seu trabalho em mostras e festivais internacionais.
Sua militância gráfica o coloca em uma posição de destaque entre os artistas que utilizam a charge como ferramenta de denúncia e resistência.
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