Brasileiros na Ucrânia: ‘Se virem’ – O governo Bolsonaro, nu e cru

O presidente Jair Bolsonaro e, ao fundo, brasileiros em hotel na Ucrânia. Créditos: Reprodução/ Instagram David Nere


PROGRESSISTAS POR UM BRASIL SOBERANO

Embaixada brasileira em Kiev orienta que cada um se vire por conta própria. Não há nenhum plano de saída

A orientação “se virem” não é muito diplomática”, publicou o Estadão (O Estado de S. Paulo), às 3h05, madrugada deste domingo (27/02), sobre brasileiros que foram pedir ajuda a um ‘diplomata X‘, que o jornal não nomeou. “A orientação “se virem” contém, eis a dura realidade, uma profunda verdade. Diante do padrão de comportamento bolsonarista, trata-se de um conselho realista. Se depender de Jair Bolsonaro, não haverá Estado planejando e cuidando das pessoas. Se depender do bolsonarismo, cada um estará sozinho e desprotegido, abandonado às suas próprias forças”, prosseguem os redatores do texto.

“Foi assim com as enchentes na Bahia em janeiro. Foi – e continua sendo – assim durante a pandemia“, relembrou após exibir afirmações mentirosas do presidente na plataforma Twitter, apontando-as como inverdades e esclarecendo os fatos como eles estão acontecendo, que são diferentes das falas postadas pelo atual ocupante do Palácio do Planalto na plataforma.

Eis o bolsonarismo em sua essência: Jair Bolsonaro não governa – descumpre as obrigações do cargo –, mas alardeia, nas redes sociais, informação falsa“, diz o texto dos redatores. “No dia em que a Rússia iniciou seus ataques contra a Ucrânia, o presidente Bolsonaro disse“, no Twitter:

Estou totalmente empenhado no esforço de proteger e auxiliar os brasileiros que estão na Ucrânia. Nossa Embaixada em Kiev permanece aberta e pronta a auxiliar os cerca de 500 cidadãos brasileiros que vivem na Ucrânia e todos os demais que estejam por lá temporariamente”
Twitter 24/2 15h51
Jair Bolsonaro
Presidente do Brasil

No entanto, a afirmação de Bolsonaro era falsa“, diz o Estadão. “Quem entrou em contato, na quinta-feira [24/2], com a embaixada do Brasil em Kiev recebeu informações bem diferentes. Era desaconselhado a ir até a representação diplomática e informado de que não havia como assegurar uma saída do país em segurança, o que foi confirmado pelo Itamaraty, em Brasília. Ou seja, não havia nenhum plano para proteger ou retirar os brasileiros da Ucrânia“, diz o jornal.

“SE VIREM”
Diplomata não nomeado pelo Estadão
Embaixada brasileira em Kiev, segundo o Estadão

Além de inusitada, a mensagem é rigorosamente desesperadora“, dis o Estadão. “O órgão do Estado brasileiro que deveria prover proteção a seus cidadãos reconhece seu despreparo diante da situação que, longe de ser uma surpresa, era há algum tempo uma possibilidade não desprezível“, prossegue o jornal. “Basta ver que outros países já vinham retirando seus nacionais da Ucrânia, entre outras medidas“, escrevem os redatores.

Não é apenas irresponsabilidade, o que já seria grave. O bolsonarismo debocha do País e dos brasileiros. Há evidentemente despreparo e ignorância, mas é também descaso, indiferença. Nada é levado a sério“, diz o texto.

Em sua visita a Moscou, Jair Bolsonaro chegou a dizer que, “coincidência ou não, parte das tropas (russas) deixaram a fronteira”, após o seu encontro com Vladimir Putin. A situação era de tensão, com risco de guerra, mas o presidente Bolsonaro preferiu fazer graça, difundindo informação falsa. E nada fez para proteger os brasileiros na Ucrânia“, diz o Estadão.

A Presidência da República tem responsabilidades. Omissões do chefe do Executivo federal podem causar problemas graves, muitas vezes colocando brasileiros em risco de morte. Jair Bolsonaro segue, no entanto, alheio a tudo isso, achando-se autorizado a leviandades”.

Na visita a Moscou, disse que “Putin é uma pessoa que busca a paz”. Descaso com a verdade, descaso c om as pessoas”, insiste o jornal, que pontua com um pedido: “Que, apesar de Bolsonaro, o Estado brasileiro possa, com urgência, oferecer proteção e um plano de saída aos brasileiros na Ucrânia“.

O que diz Bolsonaro:

Neste sábado (26/2), às 16h55, o presidente do Brasil produziu uma thread informando: “Até o momento, já conseguimos levar cerca de 50 brasileiros para países vizinhos, incluindo jornalistas, estudantes, empresários e atletas. Também coloquei meus ministros, assessores e a diplomacia brasileira a serviço da evacuação de brasileiros por vias terrestres“.

Ninguém será deixado para trásparte da imprensa insiste em gerar ruído e em desinformar os brasileiros em troca de cliques”
Twitter 26/2 16h55
Jair Bolsonaro
Presidente do Brasil

Ordenei também que duas aeronaves Embraer KC-390 Millenium, as maiores já produzidas no hemisfério Sul, fossem disponibilizadas para uma eventual missão de repatriação dos brasileiros que ainda estão em território ucraniano“.

Mesmo diante de um cenário difícil, reforçamos: ninguém será deixado para trás. Peço aos brasileiros em territórios conflagrados que mantenham-se firmes, sigam as diretrizes e nos reportem qualquer incidente. Sei das dificuldades, mas não pouparemos esforços para resolvê-las“.

O Itamaraty enviou uma missão para a fronteira da Romênia com a Ucrânia e tem coordenado a operação de evacuação de brasileiros por meio do contato direto com o chefe da estação central de trens de Kiev, com as autoridades migratórias e com as autoridades locais de Chernivtsi”.

Infelizmente, mesmo em um momento sensível, em que estão em jogo vidas humanas, princípios inegociáveis das relações internacionais, e recursos importantes para a vida dos brasileiros, parte da imprensa insiste em gerar ruído e em desinformar os brasileiros em troca de cliques”.

Nem um conflito armado, indesejado por todos nós, é capaz de despertar nessas pessoas o devido senso de responsabilidade e o compromisso com a verdade necessários para que nosso povo atravesse esse momento difícil com serenidade e consciência da situação real de nosso país”.

A posição do Brasil em defesa da soberania, da auto-determinação e da integridade territorial dos Estados sempre foi clara e está sendo comunicada através dos canais adequados para isso, como o Conselho de Segurança da ONU, e por meio de pronunciamentos oficiais”.

Volto a afirmar que eu e meu governo estamos focados em garantir a segurança do nosso país, proteger os interesse do nosso povo, auxiliar os cidadãos brasileiros que se encontram nas regiões conflagradas e contribuir para uma resolução pacífica do conflito”.

O que dizem brasileiros

Conforme noticiou a Revista Fórum, por medo de bombardeios na capital ucraniana, brasileiros não embarcaram em trem que os levaria à fronteira com a Romênia, rejeitando, assim, o plano de Bolsonaro.

O Jogador David Neres, do Shaktar Donetsk, diz que faltam alimentos, leite e fraldas.

O grupo é de cerca de 20 pessoas. Eles são jogadores de futebol brasileiros, familiares e empresários, que rejeitaram, com críticas, o plano de fuga da embaixada brasileira na Ucrânia.

Os diplomatas proporam que um trem os levasse até a cidade Chernivtsi, no oeste do país, na fronteira com a Romênia.

“Como que nós iríamos embarcar num trem – e a embaixada deixou claro que esse trem não garantiria que todos os cidadãos brasileiros pudessem realmente embarcar -, andar dois quilômetros, tendo vários tiros, bombas, a 800 metros de nós, várias crianças, pessoas com idade? Então, a única opção que tivemos foi ficar aqui e estamos aguardando realmente algo efetivo, com funcionários, profissionais, que realmente nos garantam a integridade física para que possamos sair da Ucrânia”
Grupo de jogadores na Ucrânia

Eles ainda compararam a ação desastrosa do governo Jair Bolsonaro (PL) com o que está sendo realizado pelo governo de Portugal.

“Nós acreditamos no governo brasileiro, sabemos que tem preocupação conosco. Mas, sem querer fazer um comparativo, a Embaixada Portuguesa efetivamente ofereceu veículos para um plano de fuga dos seus cidadãos e, enquanto isso, nós estamos aqui, sem algo claro, por nossa conta e risco”
Grupo de jogadores na Ucrânia

O trem com dezenas de brasileiros organizado pela embaixada brasileira partiu por volta das 22h desta sexta-feira (25) de Kiev. No anúncio do “plano”, a embaixada, no entanto, informou que “os cidadãos que optarem por essa viagem o farão por conta e risco próprio”.

“A embaixada terá condições mínimas de prestar ajuda durante o trajeto até a fronteira com a Romênia, embora esteja sendo negociada a possibilidade de que o Conselho Regional de Chernivtsi ofereça transporte até a fronteira”, disse o documento oficial do governo brasileiro, segundo a Fórum.

O vídeo foi divulgado no perfil do jogador David Neres, que atualmente joga pelo Shaktar Donetsk. Nas imagens, o atleta brasileiro reclamou da falta de alimentos e produtos básicos de higiene, além de fraldas para as crianças.

“Mais uma vez a gente tá aqui reunido e desta vez indignado porque estamos chegando a um nível de cansaço, estamos todos agoniados e a falta de alimentos, de fraldas, de leite tem aumentado e a gente não tem uma solução. Está muito difícil aqui para a gente”.
David Neres
Ponta do Shaktar Donetsk

Um outro brasileiro ainda ressaltou a falta de segurança do plano proposto pelo governo brasileiro para saírem do hotel, onde estão dormindo no chão.

“A única solução que deram foi essa saída de trem, de metrô, mas estamos em uma área em que infelizmente está acontecendo uma guerra e até chegar ao metrô teríamos que andar um quilômetro com crianças, idosos. Não teríamos transporte e nem um tipo de suporte da embaixada para chegar ao local com segurança”
Grupo de jogadores na Ucrânia

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