Lideranças africanas e brasileiras selam pacto por futuro de prosperidade, mirando suficiência energética e alimentar com apoio financeiro e transferência de conhecimento em Maputo
Brasília, 24 de novembro 2025
O Fórum Empresarial Moçambique Brasil, realizado em Maputo, marcou a retomada de uma relação histórica de 50 anos entre as duas nações, celebrando o 19º encontro empresarial de missões presidenciais nos últimos três anos.
A presença simultânea dos chefes de estado, o presidente Luís Inácio Lula da Silva e o presidente Daniel Francisco Chapo, foi destacada como uma demonstração inequívoca de compromisso político ao mais alto nível com o desenvolvimento econômico e o setor privado.
A delegação brasileira, organizada pela Apex Brasil, Ministério das Relações Exteriores do Brasil, e outros órgãos, incluiu gigantes como Embraer, Veg, Petrobras, Novonor Andrade Gutierrez, Eurofarma, SEBRAI, Fiocruz, BNDS, e as associações de proteína e exportadores de carne.
A Retomada do Financiamento e a Confiança nos Mercados
Um dos pontos mais sensíveis e cruciais abordados foi a eminente possibilidade de retomada de financiamento de operações para Moçambique, especialmente pelo BNDS, o que deve ser um marco nas relações bilaterais. O presidente Lula enfatizou que o BNDS está totalmente recuperado e vigoroso, e que o banco precisa voltar a oferecer opções de crédito para que o Brasil possa exportar bens e serviços.
A diretora de negócios da Apex Brasil, Ana Repesa, celebrou a assinatura de um memorando de entendimento com a Agência de Promoção de Investimentos e Exportações de Moçambique (API), e mencionou a recuperação da credibilidade do Brasil após um período de isolamento internacional.
O presidente Chapo relatou a dura realidade de seu país, que teve sua economia “dilacerada pela destruição de bens públicos e privados” após manifestações violentas e que enfrentava o desafio de estar na “lista cinzenta” dos mercados financeiros internacionais. A luta para retirar o país dessa lista visa recuperar a confiança dos investidores. Chapo compartilhou uma história pessoal inspiradora, lembrando-se da resposta de um pastor editor brasileiro em seu primeiro emprego: “Ó Daniel meu filho te vira aí cara”, que o motivou a “não reclamar e a não murmurar, a olhar para frente e a trabalhar” para reerguer a economia.
Energia e Gás: O Centro das Atenções
O setor de energia foi definido como o centro das atenções. Moçambique reúne condições únicas para se tornar um hub energético e logístico devido aos seus recursos naturais abundantes, potencial energético e localização estratégica.
O país é um dos 10 maiores países produtores de gás no mundo, com a perspectiva de subir para o top 5. O potencial de gás, estimado em cerca de 180 TCF (trilhões de pés cúbicos), cria oportunidades enormes, especialmente em fertilizantes e gás doméstico. Projetos como a exploração na bacia do Rovuma e a Coral Sul e Coral Norte estão avaliados em cerca de US$ 15bilhões cada, com a Exxon planejando um investimento adicional de cerca de US$ 20 bilhões, totalizando aproximadamente US$ 50 bilhões em investimentos nos próximos anos.
Lula destacou a sinergia: Moçambique tem gás, mas o Brasil (através da Petrobras) tem a expertise para explorá-lo. A diretora de exploração e produção da Petrobras, Silvia Santos, esteve presente no evento. Chapo enfatizou que a solução para o déficit de energia dos países vizinhos (África do Sul, Zimbáwe, Zâmbia, Maláui e Esuatini) está em Moçambique, que possui hidrelétricas (como a HCB), gás, carvão, sol e vento.
Autossuficiência em Saúde e Alimentos
A cooperação se estende crucialmente para as áreas de saúde e agronegócio, visando a autossuficiência moçambicana.
No setor de saúde, Moçambique produz menos de 2% dos fármacos que consome. O Brasil é visto como um parceiro natural para apoiar a construção da autoeconomia, com oportunidades para investimento, transferência de tecnologia e reforço regulatório. A Fiocruz já presta serviços e pode contribuir muito mais.
No agronegócio, Moçambique possui terra, água e clima, enquanto o Brasil detém “ciência, tecnologia e produtividade agrícola de referência mundial”. A Embrapa é considerada pelo presidente Lula como “uma das coisas responsáveis pela revolução agrícola brasileira”. O objetivo é modernizar a agricultura, acelerar o agroprocessamento e integrar famílias moçambicanas nas cadeias produtivas.
O Ministério do Desenvolvimento Agrário brasileiro foi incluído na delegação porque o Brasil “sabe trabalhar com pequena, com média e com grande agricultura”. Em 2026, o Ministério da Educação e a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) oferecerão até 80 vagas para cursos de formação de formadores em ciências agrárias e até 400 vagas para cursos técnicos em agropecuária a colaboradores de Moçambique.
O Legado Histórico e o Futuro Competitivo
Lula fez questão de abordar a “dívida histórica que não é mensurada em dinheiro” que o Brasil deve ao povo africano por 350 anos de escravidão. Essa dívida deve ser paga com amizade, solidariedade e transferência de tecnologia. Ele lamentou que empresas brasileiras de engenharia, que estiveram em quase todos os países africanos e que ganharam competitividade globalmente, foram “quase todas destruídas” e a Petrobras deixou o continente africano, se trancando no Brasil.
Agora, o objetivo é recuperar essa competitividade, com empresas como Odebrecht, Camargo Correa e OAS sendo convidadas a regressar para construir infraestruturas. O presidente ressaltou que, se as nações quiserem ser grandes, devem aproveitar as riquezas minerais e biocombustíveis sem repetir o erro do século XX, que era deixar os países de sempre “cavar em buraco do nosso país, levar o nosso minério e a gente ficar com a fome e com a pobreza”.
Para atrair e manter o investimento real, o presidente Lula definiu cinco pilares que os governantes devem oferecer: estabilidade política, estabilidade econômica, estabilidade fiscal, estabilidade social e previsibilidade.
Apesar do otimismo e do enorme potencial, o comércio bilateral atual é modesto. Enquanto há alguns anos o comércio com Moçambique foi de quase R$ 200 milhões. Em 2024 ele atingiu apenas cerca de US$ 40 milhões (ou R$ 40 milhões), sendo que as exportações brasileiras representam mais de 93% desse valor.
No entanto, o Brasil elegeu a diversificação de parcerias como a melhor reação para enfrentar medidas unilaterais, abrindo 486 novos mercados para produtos brasileiros em dois anos e meio. A ratificação do acordo de cooperação e facilitação de investimentos de 2015 será um passo importante para avançar a sinergia entre o Mercosul e a Zona de Livre Comércio Continental Africana.
A esperança para a nova etapa de cooperação foi resumida com uma citação do autor Mia Couto, retomada por Ana Repesa: “Enquanto a gente sonhar essa estrada permanecerá viva”. O esforço conjunto visa garantir que os caminhos “sirvam para nos fazerem parentes do futuro”.
Analogia
A relação de investimento e cooperação técnica que o Brasil busca retomar com Moçambique pode ser vista como um co-investimento em um terreno vasto e fértil, mas que precisa de infraestrutura e irrigação.
Moçambique fornece o “terreno” (recursos naturais, gás, terras agricultáveis). O Brasil fornece as “sementes de alta produtividade” (Embrapa), os “tratores e engenharia” (Petrobras, construtoras) e, crucialmente, o “financiamento para a irrigação” (BNDS).
O objetivo não é apenas que o Brasil compre a colheita, mas que ambos os países se tornem autossuficientes e consigam exportar essa prosperidade para os vizinhos.

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