Brasília (DF) 08 de setembro de 2026
O candidato a deputado distrital pelo PSB no Distrito Federal, Bernardo Moreira, e o deputado estadual Leonel Radde (PT-RS) publicaram nesta terça-feira (08/set) vídeos em que atribuem ao ministro do STF André Mendonça o afastamento de dirigentes da Polícia Federal para proteger investigados ligados a Flávio Bolsonaro e ao empresário Daniel Vorcaro.
As declarações tratam o episódio como risco à independência das apurações e ao processo eleitoral.
O que Bernardo Moreira afirmou no vídeo?
Bernardo Moreira, candidato do PSB à Câmara Legislativa do DF, classificou o episódio como “bomba master, urgente”. Segundo ele, André Mendonça afastou “exatamente o chefe da Polícia Federal que prendeu o seu amigo Daniel Vorcaro” e que investigava Flávio Bolsonaro no caso do Banco Master.
O candidato afirmou: “Esse bosta do Mendonça afastou exatamente o chefe da Polícia Federal que prendeu o seu amigo Daniel Vorcaro, que tava investigando o seu amigo Flávio Bolsonaro por conta do envolvimento no caso do Banco Master.”
Moreira citou ainda Cláudio Castro e Ciro Nogueira como outros nomes que, em sua avaliação, estariam sob pressão das mesmas investigações. Disse que o ministro “sabe que se o Flávio Bolsonaro não ganhar essa eleição, vão todos eles presos”.
No mesmo vídeo, o candidato ligou o diretor afastado ao caso Marielle e afirmou que o instituto de André Mendonça teria recebido “mais de 10 milhões” em recursos públicos. Relatou ainda que Flávio Bolsonaro teria usado uma mansão ligada a Vorcaro e a Willer Tomaz para festa de aniversário da filha.
Moreira também mencionou reunião marcada pelo ministro com delator sobre repasses a fundo de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e um depoimento de Daniel Vorcaro “sem a presença da Polícia Federal”, sob sigilo. Encerrou pedindo mobilização com o bordão “Fora André Mendonça”.
O que Leonel Radde disse?
O deputado Leonel Radde abriu o vídeo com o alerta: “Atenção, o crime organizado está tentando dominar o nosso país.” Segundo o parlamentar, o superintendente da Polícia Federal foi afastado por André Mendonça, a quem chamou de “advogado do Flávio Rachadinha”.
Radde afirmou que o afastamento “fortalece o crime organizado e, principalmente, as relações com o Vorcaro”. Disse que Flávio Bolsonaro chamou o empresário de “irmãozão”, teria recebido “mais de 72 milhões de reais” e que o ministro não teria determinado busca e apreensão contra esse núcleo.
O deputado declarou: “Temos um ministro corrupto, no meu entendimento, que está simplesmente blindando o Vorcaro, blindando o Nikolas Ferreira […] blindando, principalmente, o Flávio Bolsonaro.”
Radde sustentou que a medida busca interferir no processo eleitoral e depois “colocar uma tampa de bueiro”. Chamou o magistrado de advogado de “um corrupto envolvido em rachadinha” e convocou mobilização para “derrotar o fascismo”.
IMPORTANTE: As afirmações reproduzidas nesta matéria são declarações dos dois políticos em vídeos próprios. O texto não confirma, nem investiga, as acusações de corrupção, proteção a investigados ou vínculo com organizações criminosas. São imputações formuladas por Bernardo Moreira e Leonel Radde.
Por que os dois ligam a decisão à eleição?
Nos dois vídeos, o afastamento de dirigentes da PF aparece como peça de uma disputa maior: a sobrevivência política de aliados de Flávio Bolsonaro e o andamento de inquéritos do Banco Master e de fraudes no INSS. Moreira fala em “questão de sobrevivência”; Radde, em tentativa de “interferir no processo eleitoral”.
A análise registra que os dois discursos convergem na denúncia de seletividade: quem investiga seria afastado; quem teria recebido recursos ou mantido proximidade com Vorcaro permaneceria, segundo eles, imune. Essa leitura é dos oradores, não um juízo judicial reproduzido aqui.
O que acontece agora?
Os vídeos circulam nas redes dos dois autores e pedem compartilhamento e pressão pública contra o ministro. Não há, nas falas transcritas, anúncio de ação judicial formal por parte de Moreira ou Radde. O desdobramento institucional das decisões do STF sobre a cúpula da PF segue em aberto.
O que os dois disseram e o que a imprensa corrobora
Nesta terça-feira (8/set), o ministro André Mendonça, relator do caso Banco Master no STF, determinou o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. Mendonça justificou a medida pela suposta ilicitude de relatórios de inteligência produzidos pela PF e utilizados por Alexandre de Moraes, conforme a Agência Brasil.
Integrantes da cúpula da PF consideraram a decisão política e que houve reação interna na corporação, segundo a Folha de S.Paulo. A frase de Moreira de que Mendonça afastou dirigentes da PF é factual, mas o problema começa quando se afirma por que ele teria feito isso.
É correto dizer que Mendonça afastou Andrei porque ele investigava Flávio Bolsonaro?
As justificativas apresentadas por Mendonça para o afastamento estão relacionadas aos relatórios da PF utilizados por Moraes contra ele e à atuação de Andrei Rodrigues, e não a uma decisão declarada para interromper uma investigação sobre Flávio Bolsonaro. A Agência Brasil registrou expressamente essa fundamentação.
A Reuters também descreveu o afastamento como consequência da disputa envolvendo os relatórios da PF e o conflito entre Mendonça e Moraes. Dizer que “Mendonça afastou o chefe da PF que investigava Flávio Bolsonaro” é uma interpretação política, não um fato estabelecido.
Você pode atribuir a afirmação a Bernardo Moreira, mas não apresentá-la como fato jornalístico.
Existe, entretanto, uma ligação documentada entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro
A imprensa já publicou informações sobre relações financeiras e políticas entre o entorno de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
A Folha de S.Paulo informou que áudios obtidos pelo The Intercept Brasil mostram Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Vorcaro para despesas relacionadas ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
A reportagem mencionou aproximadamente R$ 61 milhões que teriam chegado ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, por meio de uma empresa intermediária.
Mais recentemente, a PGR fechou acordo de colaboração com Antônio Carlos Freixo Júnior, ligado a Vorcaro. Segundo a Folha de S.Paulo, o colaborador entregou documentos sobre transferências para o fundo americano ligado ao entorno de Eduardo Bolsonaro.
A Folha de S.Paulo também noticiou que a PF suspeita que recursos ligados a Vorcaro tenham financiado despesas de Eduardo Bolsonaro nos EUA.
Então existe material jornalístico sério para sustentar que as relações Vorcaro–família Bolsonaro estão sob investigação. Mas isso é diferente de dizer que Mendonça afastou a PF para proteger Flávio.
Investigações e reportagens apontaram repasses de dezenas de milhões de reais ligados a Vorcaro e ao entorno da família Bolsonaro
- cerca de R$ 61 milhões estão associados aos repasses para o fundo Havengate, segundo a Folha de S.Paulo
- uma investigação envolvendo R$ 69 milhões transferidos ao fundo, segundo relato de colaborador publicado pelo UOL Notícias
- pedidos de valores muito maiores feitos por Flávio a Vorcaro também foram noticiados, mas isso não significa que todo o valor tenha sido efetivamente recebido.
A afirmação sobre o depoimento de Vorcaro sem a PF é verdadeira
Aqui Bernardo Moreira e Leonel Radde estão falando de algo que realmente aconteceu. O gabinete de Mendonça confirmou que Daniel Vorcaro foi ouvido por um juiz auxiliar do ministro, sem a presença da Polícia Federal. O Ministério Público participou da oitiva, segundo a Agência Brasil, CNN Brasil, Correio Braziliense, Deutsche Welle e UOL Notícias.
Mas não foi simplesmente uma audiência “secreta” feita escondida da Justiça
Segundo o gabinete de Mendonça, tratou-se de ato processual regular, solicitado pela defesa, com participação do Ministério Público. A ausência da PF foi justificada pelo relato de Vorcaro sobre supostas intimidações praticadas por policiais, conforme consta em matéria da Agência Brasil.
O depoimento de Vorcaro gerou, sim, uma crise institucional
Isso também é factual. Segundo reportagens, Vorcaro alegou que poderia falar sobre sua relação com Andrei Rodrigues e que essa relação teria sido um dos motivos pelos quais sua delação não avançou, conforme a CNN Brasil.
A PGR e investigadores, entretanto, demonstraram desconfiança em relação ao depoimento e à forma como ele foi obtido. A imprensa registrou que a situação provocou tensão entre a defesa, a PGR e a PF, segundo a Folha de S.Paulo.
Isso dá sustentação para a afirmação de que a oitiva sem PF tornou-se um dos elementos da crise entre Mendonça e a corporação.
A mansão usada por Flávio para o aniversário da filha também foi noticiada
O TVT News publicou hoje que Flávio Bolsonaro comemorou em fevereiro o aniversário da filha em uma mansão em Angra dos Reis administrada pela Prime You, empresa que teve Daniel Vorcaro como sócio e que ainda administra parte do patrimônio dele.
Portanto, essa parte pode entrar na matéria com atribuição à reportagem que revelou a informação.
Ciro Nogueira também aparece nas investigações
A Polícia Federal encontrou mensagens no celular de Vorcaro que, segundo a imprensa, apontavam para pagamentos mensais relacionados ao entorno de Ciro Nogueira, chegando a R$ 500 mil. O senador foi apontado como alvo da investigação, segundo a Rádio Itatiaia.
Mas novamente há uma diferença fundamental: ser citado ou investigado não significa ter cometido crime.
Mendonça “protege” Flávio, Vorcaro e outros?
Essa é opinião/acusação dos políticos, não fato comprovado. A imprensa está justamente mostrando uma situação muito mais complicada:
- Mendonça acusa setores da PF de produzir material irregular contra ele;
- Moraes questiona a atuação de Mendonça;
- a PF está investigando o caso Master;
- Vorcaro fez acusações contra integrantes da PF;
- há investigações envolvendo pessoas próximas a diferentes grupos políticos;
- e o conflito ocorre às vésperas da eleição presidencial.
A Reuters observou que a crise ocorre em um contexto eleitoral extremamente sensível, com Flávio Bolsonaro como candidato e Lula buscando a reeleição.
Isso permite discutir politicamente o impacto eleitoral, mas não permite afirmar como fato que Mendonça tomou a decisão para garantir a vitória de Flávio.
Mendonça não está simplesmente “blindando Vorcaro”.
Em março, foi Mendonça quem autorizou a transferência de Vorcaro para o sistema penitenciário federal, a pedido da própria Polícia Federal, conforme a Agência Brasil. Depois, autorizou a transferência para a carceragem da PF em Brasília. Em julho, também autorizou a PF a rastrear bens e recursos de Vorcaro no exterior.
Isso enfraquece uma formulação absoluta de que “Mendonça está protegendo Vorcaro.”
Os fatos mostram uma situação mais contraditória: o próprio Mendonça tomou medidas judiciais contra Vorcaro enquanto agora enfrenta um conflito com a PF relacionado à investigação do banqueiro.
Outro detalhe que muda bastante a narrativa
A decisão de afastar Andrei Rodrigues não foi simplesmente uma decisão isolada que ninguém no STF aceitou.
A Segunda Turma formou maioria para manter o afastamento, embora o julgamento tenha sido interrompido por pedido de vista de Gilmar Mendes. Portanto, dizer que “Mendonça sozinho afastou o chefe da PF” é tecnicamente correto quanto à autoria da decisão, mas incompleto quanto à situação processual posterior.
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