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The Economist prevê condenação de Bolsonaro após a “história maluca” de sua tentativa de golpe

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    A revista
    A revista britânica The Economist publicou uma matéria sobre a tentativa de golpe de Bolsonaro |28.8.2025| Montagem de imagens reprodução


    Às vésperas do julgamento, revista britânica classifica a ideia como absurda”, apesar de chegar “perigosamente perto de dar certo“, e lembra ao mundo o isolamento no Palácio do Planalto por 40 dias após perder a eleição de 2022, para tramar a portas fechadas junto com assessores



    Brasília, 30 de agosto de 2025

    Em 28 de agosto de 2025, a revista britânica The Economist publicou uma matéria explosiva intitulada “The plot against Brazil”, detalhando a tentativa de golpe orquestrada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados após as eleições de 2022.

    A reportagem, destaque na seção 1843 da publicação, descreve como Bolsonaro e seus seguidores tentaram “derrubar a democracia” brasileira, em um plano que, segundo a revista, “fracassou por incompetência, e não por falta de intenção”.

    O julgamento, a ser iniciado na terça-feira (2/set) no Supremo Tribunal Federal (STF), é visto como um marco de “maturidade democrática” para o Brasil, contrastando com os Estados Unidos, onde Donald Trump, acusado de ações semelhantes, enfrenta processos judiciais menos avançados.

    Outra matéria da mesma mídia retratou Bolsonaro com o rosto pintado nas cores verde e amarelo, usando um chapéu de pele estilo viking, em uma clara alusão ao “Viking do Capitólio”, símbolo da invasão ao Congresso dos EUA em 6 de janeiro de 2021.

    A imagem reforça as semelhanças entre os eventos no Brasil e nos EUA, onde líderes populistas incitaram apoiadores a contestar resultados eleitorais.

    O processo no STF, sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, tem sido implacável na investigação e Bolsonaro e seus aliados provavelmente serão considerados culpados.

    O Brasil oferece uma “lição de democracia” ao processar criminalmente o ex-presidente, algo que os EUA ainda não conseguiram com Trump, diz o texto em inglês.

    A tentativa de golpe incluiu planos de Bolsonaro para fugir para a Argentina, conforme investigações da Polícia Federal.

    Testemunhos judiciais, como o de um ex-assessor militar de Bolsonaro, indicam que ele chegou a consultar líderes militares sobre um golpe, com o chefe da Marinha sendo o único a apoiar a ideia, enquanto outros recusaram, impedindo o avanço do plano.

    O julgamento no STF não apenas coloca Bolsonaro e sete aliados sob escrutínio, mas também sinaliza um momento de inflexão para o Bolsonarismo, movimento descrito como uma ideologia de “populismo de extrema-direita”, marcada por “retórica autoritária, negacionismo científico e aversão à esquerda política”.

    Apesar de Bolsonaro negar o rótulo de fascista, o movimento continua a polarizar o Brasil, com apoiadores radicais, pejorativamente chamados de “Bolsominions”, promovendo ataques como os de 8 de janeiro de 2023 e 2024 em Brasília.

    A radicalização sob Bolsonaro ganhou força com a liberação de leis de porte de arma, aumentando o número de proprietários de armas para quase um milhão desde 2019.

    Um exemplo é Milton Baldin, um pequeno empresário de Mato Grosso que, radicalizado, participou de protestos em Brasília pedindo um golpe militar. Ele foi preso por ordem do ministro Alexandre de Moraes, acusado de tentar criar uma “força paramilitar” para desestabilizar o governo.

    O caso de Bolsonaro é visto como um “teste para a recuperação de países após uma febre populista”, segundo a The Economist.

    Enquanto na Polônia e no Reino Unido o populismo ainda enfrenta ressurgências, o Brasil parece estar traçando um caminho para superar a polarização e a estagnação política, com moderados de ambos os lados buscando soluções para problemas estruturais.

    LEIA A TRANSCRIÇÃO COMPLETA TRADUZIDA


    A história secreta da tentativa de golpe bizarra e maluca de Bolsonaro – A tentativa do presidente brasileiro de permanecer no poder após perder a eleição de 2022 foi absurda. Mas também chegou perigosamente perto de dar certo

    Na tarde de 22 de dezembro de 2022, menos de um mês depois de Luiz Inácio Lula da Silva ter derrotado Jair Bolsonaro por uma margem estreita no segundo turno das eleições presidenciais, um grupo de homens se reuniu num quarto de hotel em Brasília. Eles estavam lá para finalizar um plano para manter Bolsonaro no poder.

    O encontro havia sido convocado por Mauro Cid, o fiel aide-de-camp (ajudante de ordens) de Bolsonaro. Ele reuniu um grupo de militares e civis que estavam desesperados para impedir a posse de Lula. Eles acreditavam, ou fingiam acreditar, que a eleição havia sido roubada. Agora, eles conspiravam para anular o resultado.

    O clima era de desespero. A posse de Lula estava marcada para 1º de janeiro. Os conspiradores tinham pouco mais de uma semana para agir. Um deles, um civil, apresentou uma proposta. Ele sugeriu que lançassem duas bombas para criar uma sensação de crise. Uma seria detonada em frente à sede da Polícia Federal. A outra explodiria do lado de fora do Supremo Tribunal Federal (STF).

    Então, eles invocariam o GLO (Garantia da Lei e da Ordem), um instrumento constitucional que permite a intervenção militar. Isso daria a eles o pretexto para prender Alexandre de Moraes, um ministro do STF que se tornou o maior inimigo dos bolsonaristas por comandar uma ampla investigação sobre suas redes de desinformação. Com Moraes sob custódia, eles poderiam então abordar o chefe das Forças Armadas e persuadi-lo a apoiar um golpe.

    O plano foi recebido com incredulidade por alguns dos militares presentes. “General, isso é uma loucura“, disse um deles, de acordo com o relato de uma testemunha que foi corroborado por outras pessoas. A reunião terminou sem acordo. Mas esse estava longe de ser o único plano que surgiu do círculo íntimo de Bolsonaro nos dias após sua derrota.

    Nos últimos dois anos, conversei com ministros, militares, agentes de inteligência e outros auxiliares que estavam com Bolsonaro no período pós-eleição. Muitos deles testemunharam na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou a tentativa de golpe. Seus depoimentos, que nunca foram relatados em sua totalidade antes, revelam um esforço caótico e muitas vezes ridículo para subverter a democracia brasileira – repleto de brigas internas, pensamento mágico e uma quase completa falta de planejamento. Foi um golpe de palhaços. Mas não teve graça.

    O bunker

    A campanha de Bolsonaro para se manter no poder começou antes mesmo de a eleição acontecer. Durante meses, ele havia preparado seus apoiadores para acreditar que a votação poderia ser fraudada. Em 30 de outubro de 2022, no segundo turno, ele perdeu por um fio – 50,9% para 49,1%. Ele e seus aliados se recusaram a conceder a vitória.

    Nos dias que se seguiram, o clima no Palácio do Planalto era de raiva e negação. Bolsonaro se trancou na residência oficial, o Palácio da Alvorada, cercado por um pequeno grupo de auxiliares. Ele mal dormia, passando as noites scrollando pelas redes sociais em seu telefone, ficando cada vez mais irritado. Ele dava poucas ordens, mas deixava seus desejos claros: ele queria permanecer no poder.

    Seu círculo íntimo se tornou uma espécie de incubadora de golpe. Diferentes facções propunham diferentes planos. Havia os “legalistas”, que queriam encontrar uma maneira constitucional de contestar o resultado. Os “militantes”, que incluíam alguns dos filhos de Bolsonaro, queriam chamar os apoiadores para as ruas. E depois havia os “aventureiros”, que conspiravam algo mais radical.

    Uma das ideias mais persistentes era usar tornozeleiras eletrônicas para rastrear os ministros do STF. O plano era monitorar seus movimentos e procurar evidências de corrupção que pudessem ser usadas para desacreditá-los. Não está claro quão sério era esse plano, mas ele foi discutido várias vezes. Num certo momento, Cid até conseguiu uma tornozeleira de amostra para mostrar a Bolsonaro.

    Outro plano envolvia a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Seu diretor na época, Alexandre Ramagem, um fiel seguidor de Bolsonaro, propôs usar as ferramentas de hacking da Abin para invadir os sistemas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O objetivo era encontrar provas de fraude. Mas os técnicos da agência se recusaram, dizendo que era ilegal.

    A loucura de dezembro

    Conforme dezembro avançava e a posse de Lula se aproximava, a conspiração ficava mais desesperada. Em 12 de dezembro, o principal advogado de Bolsonaro protocolou uma ação no TSE para contestar o resultado. A alegação era baseada num suposto “defeito” em algumas urnas eletrônicas. A ação foi rapidamente rejeitada.

    O fracasso do caminho legal empurrou os conspiradores para opções mais extremas. Este foi o contexto da reunião no quarto de hotel dez dias depois para discutir o plano das bombas. Na mesma época, outro grupo discutia uma proposta para declarar lei marcial.

    A figura-chave por trás desse plano era o coronel Mauro Cid. Ele redigiu um decreto para Bolsonaro assinar que instituiria um estado de sítio, permitindo que o presidente governasse por decreto e prendesse seus oponentes políticos. O rascunho do decreto, que tive acesso, é um documento bizarro.

    Alega que a eleição foi maculada por “fraude sistêmica” e “manipulação das urnas eletrônicas” pelo TSE. Ordena a prisão de Alexandre de Moraes e outros ministros do STF, além do presidente do Senado. Ele até prevê a criação de um novo tribunal eleitoral, que seria ocupado por militares.

    Cid mostrou o rascunho a Bolsonaro, que fez algumas edições à caneta. Mas o presidente hesitou em assiná-lo. Ele sabia que, sem o apoio das Forças Armadas, tal decreto não valeria nada. E o alto comando militar não estava do seu lado.

    Os generais dizem não

    Esta foi a falha fatal nos planos dos conspiradores. Os generais mais graduados do Brasil, incluindo o chefe do Exército, General Marco Antonio Freire Gomes, não estavam dispostos a apoiar um golpe. Eles acreditavam que seria inconstitucional e levaria ao caos.

    Bolsonaro e seus auxiliares tentaram repetidamente convencê-los. Apresentaram aos generais supostas evidências de fraude eleitoral, muitas delas coletadas de malucos e teóricos da conspiração. Os generais não ficaram impressionados. “Isso tudo é lixo”, disse um deles a Bolsonaro, de acordo com uma testemunha.

    Em 22 de dezembro, no mesmo dia da reunião no hotel, Freire Gomes e outros comandantes foram ver Bolsonaro. Disseram a ele, de forma clara e inequívoca, que as Forças Armadas não apoiariam nenhuma tentativa de impedir a transição de poder. Estava acabado.

    Bolsonaro ficou arrasado. Ele havia depositado suas esperanças nos militares, e eles o haviam abandonado. Alguns dias depois, ele voou para a Flórida, deixando seus apoiadores para realizar seu próprio e patético assalto aos sedes dos três Poderes. Em 8 de janeiro de 2023, uma multidão de apoiadores de Bolsonaro invadiu e depredou o Palácio do Planalto, o STF e o Congresso Nacional. Foi um espetáculo violento e chocante, mas não foi um golpe. Foi o último suspiro de um movimento que já havia perdido.

    As consequências

    No final, a tentativa de golpe de Bolsonaro falhou devido à sua própria incompetência e porque instituições-chave, incluindo as Forças Armadas, se mantiveram firmes. Mas foi por pouco. Se os generais tivessem sido mais complacentes, ou se Bolsonaro tivesse sido mais decisivo, as coisas poderiam ter sido muito diferentes.

    A história da tentativa de golpe de Bolsonaro é um alerta. Ela mostra como um demagogo pode ameaçar facilmente a democracia, e como a linha entre a farsa e a tragédia pode ser incrivelmente tênue. Os conspiradores eram palhaços, mas eram palhaços com as mãos nas alavancas do poder.

    Da próxima vez, o Brasil pode não ter tanta sorte.



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