Bolsonaro sugere derrubar máscara, “o gado ouve o berrante e vai para o boteco”, diz colunista gastronômico

12/06/2021 0 Por Redação Urbs Magna
Bolsonaro sugere derrubar máscara, “o gado ouve o berrante e vai para o boteco”, diz colunista gastronômico

Marcos Nogueira, da coluna Cozinha Bruta, da Folha, foge do tema padrão de seu espaço no jornal para comentar sobre “idiotas sem máscaras” que “estão por toda parte”: “Bolsonaro é só a cereja dos idiotas” neste “Simba Safári da Covid“, escreve

O presidente Jair Bolsonaro voltou a defender nesta sexta-feira (11) a desobrigação do uso de máscaras para vacinados e recuperados da Covid, mas disse que a decisão final será de governadores e prefeitos. “Eu não apito nada”, ironizou. Ele já havia informado na quinta (10) que pediu ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, um parecer para liberar vacinados e recuperados da Covid de usar máscaras. A ideia foi prontamente rebatida por especialistas, que alertam que mesmo quem foi vacinado ou teve a doença pode transmitir o vírus para outras pessoas. Além disso, quem já teve Covid pode ter de novo, e quem foi vacinado pode ter a doença de forma mais leve.

Conforme informou o G1, ao voltar a desencorajar o uso de máscaras por vacinados e recuperados, Bolsonaro voltou a dizer que a responsabilidade é de estados e municípios: “Quem já foi infectado e quem tomou vacina não precisa usar máscara. Quem vai decidir é ele [ministro Queiroga], dar um o parecer. Se bem que quem decide na ponta da linha é o governador e prefeito, eu não apito nada. É ou não é? Segundo o Supremo, quem manda são eles. Nada como você estar em paz com a sua consciência“, afirmou.

Para Marcos Nogueira, da coluna Cozinha Bruta, da Folha, quando Bolsonaro sugere derrubar máscara, “o gado ouve o berrante e vai para o boteco“. No texto publicado em sua coluna de gastronomia, ele foge do tema padrão de seu espaço no jornal para comentar sobre “idiotas sem máscaras” que “estão por toda parte”. Segundo Nogueira, “Bolsonaro é só a cereja dos idiotas” neste “Simba Safári da Covid“. Leia abaixo:

“Eles estão por toda parte. Basta sair de carro e vê-los através da janela fechada, amontoados nas calçadas dos bares da Vila Madalena, do Leblon, de Campos do Jordão. É o Simba Safári da Covid-19.Eles se abraçam, se beijam, compartilham copos e cigarros e porções de frango à passarinho. Como zebras ou bisões selvagens, os idiotas sem máscara vão para onde o bando for. Como cães vadios ou lobos, seguem o líder. O sarnento-mor dessa alcateia se chama Jair Messias Bolsonaro. Na condição de autoridade máxima do país e profeta da seita, ele açula e alimenta a imbecilidade”.

Ao sugerir que vai derrubar a obrigatoriedade da máscara na canetada, o boiadeiro do Planalto deu a senha para o rebanho. Não importa que suas palavras tenham valor legal nulo: o gado ouve o berrante e vai para o curral. Ou para o boteco. Tomar o messias por burro é fazer pouco uso de própria inteligência. Ignorante e tosco, ele foi perspicaz o bastante para incorporar o Brasil ignorante, tosco e ressentido com o “sistema” ilustrado.

Não adianta tentar “eliminar” Bolsonaro, como sugere vetusta revista britânica (a tradução é ruim, mas não está errada). Bolsonaro é indelével porque Bolsonaro é o Brasil. A figura física do presidente é a materialização do idiota médio brasileiro, com máscara no queixo ou no porta-luvas do carro. Bolsonaro pode cair, fugir ou até perecer, mas o elefante pestilento continuará na sala. Com um avatar de si mesmo no topo do poder, o idiota sem máscara se sente autorizado a disparar perdigotos no hortifruti, no supermercado, na sorveteria.

Bares e restaurantes são seu hábitat ideal, pois a natureza do negócio implica a remoção da máscara para comer ou beber. Você reconhece o espécime quando ele deixa um cafezinho ou um suco intocado sobre a mesa, somente para poder exercer a idiotice desmascarada. O idiota empoderado se torna ousado e beligerante. Borrifa seus aerossóis pelo shopping. Reage com agressões quando o outro, por autopreservação, lhe pede para respeitar a lei, a saúde pública e a civilidade.

O berrante funciona porque acena com solução simples e indolor para um problema altamente complexo, que exige sacrifício e dor para ser enfrentado. Brasileiro adora a saída mágica. Brasileiro sempre leva um 7 a 1 lá atrás. A idiotice seduz e contagia como o coronavírus. Ela contamina quem não é o idiota hardcore, mas morde a isca do caminho fácil, errado e, neste caso, letal. Nunca menospreze a ignorância e a insensatez.

Elas aparecem, em todo o seu esplendor, no episódio registrado em vídeo numa enfermaria para Covid-19 em Mossoró, Rio Grande do Norte. Profissionais de saúde cantam uma versão crente de “Parabéns a Você” para o seu Antônio, internado e visivelmente debilitado. Na hora do rá-tim-bum, uma mulher remove a máscara do respirador para o aniversariante soprar as velinhas do bolo.

Outra voz diz que vai distribuir fatias para os “convidados”. “Covidados” seria termo mais adequado. É um trailer do bolo dos 200 anos de independência do Brasil, que já está no forno em Brasília. Ele virá recheado de morte e coberto de ignorância teocrática. Bolsonaro é só a cereja dos idiotas“, pontua o colunista.

Bolsonaro diz que STF o proibiu controlar a pandemia

Desde que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, no ano passado, que estados e municípios têm direito de tomar medidas para conter a pandemia, Bolsonaro alega que o governo federal foi proibido de liderar ações contra a Covid.

Ministros do STF vêm explicando que o argumento do presidente não tem fundamento. E que a decisão da Corte determina que a União é a responsável por coordenar as ações. Na época da decisão do STF, Bolsonaro queria derrubar medidas de uso de máscara e de isolamento social, impostas por estados e municípios.

O presidente é contra as medidas de restrição para conter a disseminação do vírus, consideradas por autoridades sanitárias do Brasil e do mundo todo como essenciais para frear o coronavírus. Ao longo de toda pandemia, o presidente vem causando aglomerações e, na maioria delas, está sem máscara.

Tornou-se comum também o presidente culpar governadores e prefeitos pelos dados negativos da pandemia no país.

Especialistas criticam proposta de banimento da máscara

Para especialistas, a proposta do presidente é uma temeridade. Eles defendem que, mesmo após vacinadas, as pessoas precisam usar máscara e evitar aglomerações.

“A vacina tem boa eficácia em evitar que a sua doença acabe se agravando e você precise até de hospitalização, mas ela não tem tão boa eficácia em evitar que você se contamine”, explicou a médica infectologista Luana Araújo. “Então, enquanto a gente não tem uma boa parte de população plenamente vacinada, é preciso sim usar máscara, evitar aglomerações e preferir ambientes naturalmente ventilados”, disse.

O médico Drauzio Varella afirmou que mesmo os vacinados podem transmitir o novo coronavírus para outras pessoas: “Você entra em contato com o vírus. O vírus fica nas suas fossas nasais, não vai ficar doente, mas vai poder levar o vírus para dentro de casa para as pessoas que você mais ama. Então, a vacina é uma grande utilidade”, declarou no último dia 12 de maio em podcast do programa Fantástico. “Ela [a vacina] vai nos livrar do coronavírus, mas não é porque estou vacinado ou porque você está vacinado que você fala: ‘Agora liberou geral”. Infelizmente, não. A gente tem que continuar agindo com responsabilidade“, disse.

Munir Ayub, membro do Comitê de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professor de Infectologia da Faculdade de Medicina do ABC, afirmou que “não existe essa possibilidade” de se prescindir do uso da máscara no atual estágio da pandemia: “Não tem nenhum sentido. É uma orientação apenas política porque não tem nenhuma justificativa médica para isso. Mesmo a pessoa que já teve ou que já foi vacinada não está livre de se reinfectar. Enquanto estiver circulando o vírus neste nível alto, não existe essa possibilidade. Neste momento é temerário“, disse .

Para Renato Grinbaum, infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia, o anúncio de Bolsonaro é “completamente fora do aceitável“: “Não existe nenhuma lógica para suspender uso de máscaras. A vacina previne bem as formas graves, mas não é uma ferramenta tão poderosa para evitar infecções leves e transmissão. No momento em que se discute aumento de casos em algumas regiões e a possibilidade de terceira onda, este tipo de proposta é completamente fora do aceitável.”


Siga no Telegram

Comente