Bolsonaro quer Ministério da Saúde ‘contra a Saúde’ e humilhantemente servil

22/10/2020 0 Por Redação Urbs Magna

“É a ignorância que se faz arbítrio”, diz editorial do Estadão. “Nem Trump nega tanto a vacina”, afirma Kennedy Alencar

Em seu editorial desta quinta, o jornal ‘O Estado de São Paulo’ acusa o presidente Jair Bolsonaro de estar contra a Saúde e desejar um Ministério que se preste a suas vontades de forma humilhante.

No UOL, o jornalista Kennedy Alencar diz que nem o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nega tanto a vacina quanto o chefe do Executivo brasileiro com [tomando-se a expressão usada no Estadão, em ipsis verbis] “ suas idiossincrasias políticas“.

O ‘Estado’ revive o episódio em que Bolsonaro, irresponsavelmente, e “em plena pandemia (,…) demitiu dois ministros da Saúde porque eles insistiram em seguir os protocolos profissionais.

Os médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich recusaram-se a indicar um medicamento contra as evidências científicas e, por isso, tiveram de deixar a pasta.

O presidente Bolsonaro queria um ministro da Saúde obediente às suas ordens, mesmo que elas afrontassem a ciência e a medicina. Foi assim que se chegou ao nome de Eduardo Pazuello para o Ministério da Saúde.

Tão logo assumiu a pasta, o general de brigada ampliou, em estrita obediência ao arbítrio do chefe, o uso de cloroquina em pacientes com covid-19.

Ontem, o presidente Bolsonaro reiterou que, durante seu mandato, não quer o Ministério da Saúde atuando pela saúde pública. O que ele deseja – e assim faz valer – é uma pasta incondicionalmente subserviente a suas idiossincrasias políticas e ideológicas.

Na terça-feira, em reunião virtual com os 27 governadores, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, anunciou a assinatura de um protocolo de intenções para adquirir 46 milhões de doses da vacina Coronavac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan.

Era uma decisão estritamente técnica, em benefício da população. No momento, a Coronavac é a vacina em estágio de testes mais avançado, tendo mostrado, até agora, os melhores índices de segurança.

Com um investimento estimado em R$ 1,9 bilhão, a compra até o fim do ano permitiria iniciar a vacinação já em janeiro de 2021.

Na ocasião, Eduardo Pazuello fez questão de esclarecer eventual dúvida ou desconfiança sobre a origem da vacina.

Segundo o ministro da Saúde, a “vacina do Butantan será a vacina brasileira”, lembrando que o imunizante, tendo sido desenvolvido na China, será produzido integralmente no Instituto Butantan, em São Paulo.

O anúncio do protocolo para a compra dos 46 milhões de doses era uma excelente notícia para a população.

O governo federal, por meio do Ministério da Saúde, dava sua contribuição para pôr fim à pandemia do novo coronavírus.

A boa notícia, no entanto, durou pouco. Ontem, o presidente Bolsonaro fez questão de deixar claro que seu governo não trabalha com parâmetros técnicos e que a saúde da população não é prioridade.

Em resposta ao comentário de um jovem numa rede social – “Presidente, a China é uma ditadura, não compre essa vacina, por favor” –, Jair Bolsonaro respondeu que a vacina “não será comprada”.

Em outro comentário, o presidente da República voltou a negar publicamente a informação dada pelo ministro da Saúde.

Diante do pedido de uma internauta para que Eduardo Pazuello fosse exonerado urgentemente do Ministério da Saúde, porque ele estaria atuando como cabo eleitoral de João Doria, governador de São Paulo, Jair Bolsonaro disse: “Não compraremos a vacina da China”.

Assim, Eduardo Pazuello tornou-se, num período de seis meses, o terceiro ministro da Saúde a ser desmentido publicamente pelo presidente Bolsonaro, simplesmente por agir de forma coerente com o interesse público e as evidências médicas.

Por respeito ao seu nome e, muito especialmente, por zelo com a saúde da população, era o caso de o general de brigada pedir as contas, assim como fizeram Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

No entanto, não foi o que se viu até aqui. Logo após os dois comentários do presidente Bolsonaro, o secretário executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, disse que “houve interpretação equivocada da fala do ministro da Saúde” sobre a compra de doses da Coronavac e que a pasta não firmou “qualquer compromisso com o governo do Estado de São Paulo ou com o seu governador no sentido de aquisições de vacinas contra a covid”.

Mas o presidente Bolsonaro voltou a desmentir ontem mesmo o Ministério da Saúde, dizendo que mandou “cancelar” o protocolo de intenções assinado na terça-feira. “Presidente sou eu”, disse, como se a loucura de impedir o trabalho do Ministério da Saúde pudesse ter alguma similaridade com o exercício da autoridade.

É a ignorância que se faz arbítrio”, pontua o Estadão.

Kennedy Alencar diz que “nos Estados Unidos, também existe um debate sobre tomar ou não uma futura vacina contra a covid-19″ e que “pesquisas mostram que aumentou a parcela da população que tem dúvida para se imunizar porque desconfia da pressa com que as autoridades tratam a busca pela cura contra o coronavírus.

O presidente Donald Trump já fez promessas irrealistas sobre o prazo para que haja uma vacina segura e eficiente contra a covid-19. A discussão aqui é se dá para confiar numa vacina bancada por Trump. No Brasil, a coisa é pior.

Além das dúvidas de parcela dos brasileiros serem parecidas com as dos americanos, porque é lógica que só vale a pena uma vacina segura, que não piore a saúde de quem a toma, e eficiente, que cure contra o coronavírus ou, pelo menos, alto percentual de sucesso na imunização.

Mas o presidente Jair Bolsonaro consegue superar o obscurantismo e a irresponsabilidade do colega americano. Nem Trump nega a vacina como Bolsonaro.

O Brasil tem uma legislação que permite tornar obrigatória a aplicação de uma vacina contra a covid-19. O que faria um presidente minimamente responsável? Ninguém está pedindo para Bolsonaro ser uma figura empática preocupada com a saúde dos brasileiros. Ele não liga. Mas o cálculo político mais egoísta levaria qualquer presidente brasileiro a bancar a obrigatoriedade da vacina, porque ela ajudaria a amenizar os efeitos de uma pandemia que mudou a vida no planeta.

Além da saúde pública, a covid-19 teve impactos profundos econômicos, sociais e culturais. As pessoas usam máscaras nas ruas, estão mais distantes socialmente, a desigualdade do acesso escolar se agravou, empregos desapareceram, crises de depressão são mais frequentes, casos de violência doméstica cresceram. A lista é longa.

Portanto, não se trata de uma imunização contra a gripe comum, muito menos letal do que a covid-19. Trata-se de uma doença ainda bastante desconhecida, cujas sequelas ainda estão sendo estudadas e entendidas.

Bolsonaro e o ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, cometem crime de responsabilidade ao decidir que a futura vacina contra a covid-19 não será obrigatória, mas facultativa. Isso é negacionismo científico. É outro crime de responsabilidade desautorizar a compra da CoronaVac (vacina produzida pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan).

A imprensa tem um papel a cumprir. Não deve aceitar que se reduza a vacinação obrigatória a um debate sobre liberdades individuais. Trata-se da saúde pública de um país inteiro. O jornalismo não deve fazer concessões ao negacionismo científico do governo Bolsonaro na mais grave crise sanitária do planeta em um século. Nesse debate, não cabe “doisladismo”. Governadores como João Doria (PSDB-SP) e Flávio Dino (PC do B-MA) estão certos. Bolsonaro está errado.

Aplica-se a lei. A vacina contra a covid-19 deve ser obrigatória e ponto final.

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