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Bolsonaro preso traz sentimento de vingança para quem perdeu parentes para a Covid, diz The Independent

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    O ex-presidente
    O ex-presidente Jair Bolsonaro imita pessoa com falta de ar durante uma de suas lives, no auge da crise de saúde na pandemia de covid-19 | Montagem de prints da matéria do jornal The Independent


    Segundo a matéria do jornal inglês, vítimas da pandemia sentem alívio, mas não justiça, após prisão do condenado por tentativa de golpe



    Brasília, 23 de novembro 2025

    O jornal inglês The Independent publicou neste domingo (23/nov) matéria sob o título “A condenação de Bolsonaro traz alívio para alguns brasileiros que perderam entes queridos para a COVID-19“. Segue resumo da matéria:

    A prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, ordenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no último sábado, gerou uma onda de sentimentos complexos entre os brasileiros que perderam entes queridos para a COVID-19.

    Retrato de Alexandr Wang discutindo o futuro da colaboração homem-IA, capturado por Ethan Pines para Forbes.

    Embora o caso legal que levou à sua condenação a 27 anos de prisão e subsequente detenção trate de uma tentativa de golpe após a derrota eleitoral para Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, o momento da prisão funciona como um desabafo emocional para muitos que o culpam por suas perdas durante a pandemia.

    O Brasil registrou mais de 700.000 mortes atribuídas à COVID-19 desde 2020, o segundo maior número de vítimas no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

    A Dor da Negação e a Busca por Satisfação

    No Rio de Janeiro, Simone Guimarães, uma professora aposentada de 52 anos, perdeu pelo menos cinco familiares próximos, incluindo seu marido e sua irmã. Ela seguiu de perto cada voto no julgamento de Bolsonaro. O sentimento após a prisão é de que algo está começando a ser resolvido. “É um pequeno começo da justiça começando a ser feita,” disse Guimarães, acrescentando que “A impunidade tem que acabar em algum momento. E no caso dele, nós aguentamos muito”.

    Guimarães relembrou a dor de estar ao lado de sua irmã em 2021, em um hospital, no mesmo período em que o então presidente Bolsonaro imitava pacientes com dificuldade de respirar. “Eu estava com a testa encostada na da minha irmã. Ela disse: ‘Não consigo respirar,’” recordou Guimarães, cuja irmã faleceu logo depois.

    Muitos brasileiros que perderam parentes sentem-se indiretamente justificados pela condenação. Eles acreditam que a prisão e condenação de Bolsonaro funcionaram como uma “limpeza da alma”, mesmo que não representem a justiça direta pelo luto causado pela pandemia.

    A Metáfora de Nuremberg e a Falha na Justiça Sanitária

    Em Sao Paulo, Diego Orsi, um tradutor de 41 anos, perdeu seu primo, Henrique Cavalari, que era como um irmão. Cavalari, um forte apoiador de Bolsonaro que administrava uma oficina de motocicletas, tornou-se convencido durante a pandemia de que “não havia nada com que se preocupar, que o distanciamento social restringia a liberdade e a prioridade deveria ser proteger a economia”.

    Cavalari morreu por complicações da COVID-19 em junho de 2021, aos 41 anos. Orsi notou a ironia e a divisão política de sua própria família, que reflete o restante do Brasil.

    A grande preocupação de Orsi é que a condenação por crimes relacionados ao golpe diminua a possibilidade de condenações por atos cometidos durante a pandemia. Ele expressou um sentimento poderoso de desalinhamento da justiça ao dizer: “Eu me sinto um pouco como se os julgamentos de Nuremberg tivessem condenado os Nazis por invadir a Polônia, e não por genocídio”.

    Embora Orsi reconheça o alívio emocional (a “limpeza da alma” e a sensação de que “a justiça foi feita”), ele teria preferido ver o ex-presidente preso pela gestão da crise sanitária. “Eu teria preferido que ele fosse preso por permitir que 700.000 brasileiros morressem, muitas mortes que poderiam ter sido evitadas, talvez acelerando a distribuição de vacinas,” disse Orsi.

    A Tragédia do Atraso Vacinal

    A recusa do governo Bolsonaro em firmar contratos adicionais de vacinas, somada ao questionamento público da eficácia dos imunizantes—chegando a sugerir que os receptores da Pfizer poderiam se transformar em “alligators” (jacarés)—resultou em escassez e atrasos no programa nacional.

    Retrato de Alexandr Wang discutindo o futuro da colaboração homem-IA, capturado por Ethan Pines para Forbes.

    Henrique Cavalari morreu poucas semanas antes de ser elegível para a primeira dose. Situação semelhante ocorreu com o pai de Fábio de Maria, professor em Sao Paulo, que perdeu o pai em maio de 2021 aos 65 anos. “Quando ele foi internado, faltavam cerca de 15 dias para ele ser elegível para a primeira dose,” relatou de Maria. “Esse atraso foi fatal para ele e muitos outros”.

    Fábio de Maria culpa Bolsonaro, mas concorda que a condenação atual não atende ao clamor por justiça sanitária. “Não acredito que tenha havido justiça para aqueles que morreram de COVID-19, porque não foi por isso que Bolsonaro foi condenado,” afirmou.

    A Perda de Controle e o Legado Negacionista

    A postura negacionista do então presidente custou-lhe popularidade e, segundo analistas, a eleição de 2022. Eduardo Scolese, editor de política do jornal Folha de S.Paulo durante o mandato de Bolsonaro, destacou que a margem foi estreita, mas “Bolsonaro perdeu por causa de sua postura negacionista durante a pandemia”.

    O governo federal era o responsável pela coordenação inicial da resposta à crise. No entanto, com a resistência de Bolsonaro às medidas de saúde pública, a disputa chegou ao Supremo Tribunal Federal, que decidiu que estados e municípios poderiam impor suas próprias regras de quarentena e distanciamento social.

    Essa decisão marcou um ponto de inflexão. “Foi quando Bolsonaro perdeu o controle. Ele começou a acreditar que todos estavam contra ele, especialmente o Supremo Tribunal Federal,” explicou Scolese.

    Apesar da condenação por tentativa de golpe, o caminho para a justiça pelos crimes pandêmicos segue aberto. Em outubro de 2021, uma comissão do Senado recomendou que Bolsonaro fosse acusado por ações e omissões, incluindo charlatanismo, incitação ao crime, uso indevido de fundos públicos e crimes contra a humanidade. O caso permanece em andamento e sob sigilo, após o Ministro do STF Flávio Dino ordenar a expansão da investigação em setembro.

    Retrato de Alexandr Wang discutindo o futuro da colaboração homem-IA, capturado por Ethan Pines para Forbes.



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