Bolsonaro não se reelegeu e a política de torneira aberta deixou para trás um calote bilionário nas contas da Caixa

O ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, e o ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (PL), em imagem de maio de 2019, de Isac Nóbrega/PR

Site mostra tamanho do rombo no Banco, deixado pelo ex-presidente que apostou o que não devia, com benefícios destinados a eleitores mais pobres, mas perdeu a eleição de 2022

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) dobrou a aposta em sua reeleição em 2022, após ver que o Auxílio Brasil não havia gerado o efeito esperado nas pesquisas em busca dos votos dos pobres. Então, recrutou a Caixa Econômica Federal para a criação de linhas de crédito, mas não reeleito, “deixou para trás um calote bilionário nas contas do banco, mostra matéria no ‘UOL‘.

Foram criadas duas linhas de crédito na Caixa com a liberação de R$ 10,6 bilhões para 6,8 milhões de pessoas por Bolsonaro e o então presidente da Caixa, Pedro Guimarães:

A primeira criava uma linha de microcrédito para pessoas com nome sujo. Até as eleições, a Caixa emprestou R$ 3 bilhões no programa, chamado de SIM Digital. Mas muito pouco desse dinheiro retornou. A inadimplência chegou a 80% neste ano, segundo a atual presidente do banco. Parte do rombo deve ser coberto com verbas do FGTS.

A outra liberava empréstimos consignados ao Auxílio Brasil. Entre o primeiro e o segundo turno das eleições, a Caixa liberou R$ 7,6 bilhões. O programa é criticado por reduzir o valor do benefício social para pagar o empréstimo. Mais de 100 mil devedores foram excluídos do Bolsa Família este ano e o pagamento das parcelas do crédito é incerto.

No último trimestre de 2022, o índice de liquidez de curto prazo — um indicador de risco — chegou ao menor nível já registrado pelo banco. A nova cartada de Bolsonaro dependia agora de Pedro Guimarães e de uma abertura generosa dos cofres da estatal.

A primeira nova linha de crédito foi o SIM Digital, programa de microcrédito que emprestava de R$ 300 a R$ 1.000, inclusive a quem tinha até R$ 3.000 de dívidas. Para pedir e receber o dinheiro, bastavam alguns cliques no celular. A medida provisória definia que qualquer banco podia participar, mas a Caixa foi a única a assumir o risco.

Foi um estouro de procura. No fim de março, logo que o SIM Digital foi lançado, o Google viu uma onda de buscas pelo empréstimo. Chegou a ser a quinta principal busca do ano na categoria “como fazer”. Em um único dia, mais de 50 mil contratos foram assinados, o maior número já visto pela Caixa até aquele momento.

No primeiro mês, o banco estatal emprestou R$ 1,3 bilhão. O dado é do Ministério do Trabalho e Emprego, que tem a atribuição de acompanhar o desempenho da linha de crédito. A Caixa se recusou a fornecer informações.

Cinco de cada seis pessoas que pegaram o crédito tinham o nome sujo. Apesar do alto perfil de risco, as taxas de juros começavam em 1,95% ao mês. Até 40 milhões de pessoas poderiam ser beneficiadas antes das eleições.

Um ano depois, de cada R$ 1.000 emprestados, R$ 800 não foram pagos, considerando a inadimplência de 80% revelada por Rita Serrano, a atual presidente da Caixa.

Para cobrir o rombo, o fundo garantidor começará a ser acionado nos próximos meses. A quantia ainda é incerta. Se a inadimplência de 80% revelada por Rita Serrano se mantiver, os recursos do FGTS podem ter que bancar algo em torno de R$ 1,8 bilhão. Já a Caixa arcaria com outros R$ 600 milhões. Depois, o governo Bolsonaro corria para tirar o consignado do Auxílio Brasil do papel.

Segunda etapa: o consignado do Auxílio Brasil
O consignado do Auxílio Brasil não era simples de implementar. O governo teria que descontar as parcelas do empréstimo diretamente de um benefício que foi criado para a superação da pobreza. A regulamentação do programa só foi concluída em 26 de setembro de 2022. Em 2 de outubro, no primeiro turno da eleição, Bolsonaro teve 6 milhões de votos a menos que Lula.

Em 10 de outubro, em plena campanha para o segundo turno, a Caixa começou a ofertar o consignado. Os juros eram quase o dobro dos aplicados no SIM Digital: 3,45% ao mês. Mas a procura pelo crédito foi ainda mais explosiva. No Google, “empréstimo do Auxílio Brasil” liderou o ranking anual de buscas por “como fazer”.

A Caixa concentrou 80% dos créditos do programa. Em média, emprestou R$ 447 milhões por dia útil. O pico foi em 20 de outubro: R$ 731 milhões. Em 30 de outubro, Bolsonaro perdeu as eleições, por uma diferença de dois milhões de votos. Logo depois que as urnas deram a vitória a Lula, a Caixa cortou o consignado sem qualquer aviso público.

Resultado: rombo na Caixa
Para atender as medidas provisórias de Bolsonaro, a Caixa precisou reduzir seus ativos de alta liquidez — quantidade de dinheiro mínima que o Banco Central obriga as instituições bancárias a terem sempre disponível, para evitar uma quebra.

No final do ano eleitoral, o montante chegou a R$ 162 bilhões — R$ 70 bilhões a menos que no ano anterior. É o volume mais baixo da série histórica, iniciada em 2017.

Os dados escondem o risco exato a que a Caixa se expôs nas eleições. Isso porque os valores são trimestrais. E nos dois últimos meses do ano, após a derrota de Bolsonaro, a Caixa cortou radicalmente novos créditos — um plano de contingência sigiloso para recuperar a liquidez.

Apenas os dados do pós-eleições podem revelar quão fundo foi o poço. Bolsonaro e Pedro Guimarães caíram. Mas a caixa-preta da Caixa permanece, pontua a matéria.

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