Artigo na Folha lembra dos discursos públicos contra as instituições e a democracia, sugere que o ex-presidente não vai mudar e que a Justiça sabe que caso volte à Presidência dará um golpe de Estado
Os atos e manifestações públicas de Jair Bolsonaro (PL) ao longo de sua carreira política, desde a Câmara Municipal do Rio de Janeiro até a Presidência da República, sempre apontaram para a possibilidade de uma ruptura institucional, ao contrário de suas declarações públicas sobre a preservação das leis da Constituição Federal de 1988.
Especialmente agora, por conta da delação premiada de seu ex-ajudante de ordens, Mauro Cid, depoimentos dos ex-comandantes militares, Freire Gomes e Baptista Jr., salta aos olhos de todos que o ex-presidente desejou um golpe de Estado no final de 2022 para permanecer no poder e impedir a posse do Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), evidenciando que seu desejo sempre foi jogar fora das “quatro linhas da Constituição“.
Em 19 de abril de 2020, durante a pandemia da Covid-19, Bolsonaro subiu em uma picape para discursar em frente ao Quartel General do Exército, desafiando o isolamento social e as instituições. Ele e seus apoiadores pregaram contra o isolamento, o STF (Supremo Tribunal Federal) e o Congresso, pedindo uma “intervenção militar“. O presidente proferiu frases desafiadoras como “Acabou a época da patifaria“, “agora é o povo no poder” e “não queremos negociar nada“, lembra a ‘Folha de S. Paulo‘. Essa conduta antidemocrática já se manifestava desde 2018, durante a campanha.
Dois domingos depois, em nova manifestação que estimulou, deu novos recados intimidatórios, afirmando que não quer ter problemas esta semana, que chegou no limite e que não há mais conversa. Disse ainda que a Constituição seria cumprida a qualquer preço e que ela tem dupla mão. Na véspera, ele se encontrou com os chefes de Exército, Marinha e Aeronáutica.
O texto lembra a postura desafiadora de Bolsonaro, apoiada pela possível presença militar, culminando em manifestações golpistas em 7 de setembro de 2021. Ele aconselhou o presidente do STF, Luiz Fux, a tomar medidas e fez declarações ofensivas em relação a Alexandre de Moraes, instando-o a deixar a Corte.
Com a aproximação das eleições de 2022, atos e manifestações públicas buscaram apoio popular e nas Forças Armadas para aplicar um golpe de Estado, com alegações de fraude no sistema de votação. Em junho de 2023, Bolsonaro foi tornado inelegível pelo TSE, lembra o artigo. As Forças Armadas participaram de “fiscalização” das eleições, sem encontrar irregularidades, mas o Ministério da Defesa não descartou a possibilidade de fraudes e houve menção a uma “minuta do golpe” após as eleições.
Apesar de ter perdido para Lula, Bolsonaro nunca admitiu publicamente a derrota. Em uma conversa com seus apoiadores depois da derrota, em dezembro de 2022, ele disse que eles decidiriam o futuro dele e das Forças Armadas. Naquela época, muitos de seus apoiadores promoviam acampamentos em frente aos QGs. Isso resultou em depredações em Brasília, tentativa de explosão de um caminhão-tanque perto do aeroporto e ataques às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.
Bolsonaro não condenou ou desencorajou acampamentos que foram elogiados e incentivados por ele. O ex-ministro da Defesa e ex-vice-presidente, general Braga Netto, foi apontado como um dos instigadores da possibilidade de golpe, enquanto negam estar envolvidos em planos contra a democracia. E tudo mostra que a Justiça sabe que caso Bolsonaro se torne elegível, ele tentará um golpe de Estado.
