Imagem se alinha à falta de representatividade da direita nas eleições presidenciais de 2026 e extremismo se dissocia de valores nacionais e soberanos, capitalizados politicamente por Lula
Brasília, 07 de setembro de 2025
Em um dia simbólico para o Brasil, marcado pelos 203 anos de independência, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) realizaram um ato na Avenida Paulista, em São Paulo, pedindo anistia aos envolvidos na trama golpista de 2022 e liberdade para seu líder.
O evento, organizado pelo pastor Silas Malafaia, reuniu cerca de 42 mil pessoas, segundo estimativas do Monitor do Debate Político da Universidade de São Paulo (USP), superando atos anteriores da direita, mas ainda abaixo dos picos históricos do bolsonarismo.
No entanto, o destaque controverso foi a exibição de uma bandeira gigantesca dos Estados Unidos, estendida próximo ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), em um gesto interpretado como apoio ao presidente norte-americano Donald Trump, responsável por tarifas de 50% sobre produtos brasileiros que impactam a economia nacional.
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), autoexilado nos EUA desde março, celebrou o episódio em postagem no X (antigo Twitter), descrevendo a bandeira como um “protesto pela liberdade” contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e um “agradecimento” a Trump.
A ação ocorre em meio ao julgamento de Bolsonaro e outros réus pela tentativa de golpe de Estado, previsto para retomar na terça-feira (9/set), na Primeira Turma do STF.
O ex-presidente cumpre prisão domiciliar por violar medidas cautelares, e a condenação pode chegar a 43 anos de prisão por crimes como abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa armada.
Governistas e analistas criticaram o ato como uma demonstração de subserviência estrangeira, especialmente no contexto das sanções impostas por Trump, que incluem a Lei Magnitsky contra Moraes e o tarifaço que já causou queda de 18,5% nas exportações brasileiras para os EUA em agosto, gerando déficit comercial de US$ 1,23 bilhão.
O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), ironizou: “Olhem o tamanho da bandeira dos Estados Unidos na Avenida Paulista. Eles não deviam ir para a rua no dia 7 de Setembro. 7 de Setembro é nosso, dos brasileiros.”
A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), reforçou: “Essa é a nossa diferença com os bolsonaristas: batemos continência para a bandeira brasileira. Exaltamos a bandeira do Brasil, do povo brasileiro. Em pleno 7 de setembro os partidários de Jair Bolsonaro carregam, em manifestação por anistia, a bandeira dos EUA, que está impondo um tarifaço e sanções ao Brasil.”
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), cotado para a Presidência em 2026, discursou no ato, defendendo a anistia ampla e criticando o STF como “ditadura de um Poder sobre o outro.”
Ele pressionou o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a pautar o projeto, afirmando que o julgamento de Bolsonaro é sobre “um crime que não existiu.”
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) emocionou-se ao subir no carro de som, chorando e segurando um boneco do marido, enquanto o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, negou o caráter golpista do 8 de Janeiro, chamando-o de “baderna generalizada.”
Paralelamente, em Copacabana, no Rio de Janeiro, outro ato bolsonarista reuniu cerca de 42 mil pessoas, segundo o Cebrap, com faixas criticando o STF e pedindo anistia.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) exigiu “anistia já” e chamou Moraes de “ditador,” afirmando que “não existe meia anistia.”
Os eventos foram maiores que os de agosto, mas ocuparam apenas um quarteirão na orla carioca, contrastando com os de 2022.
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O jornalista Leonardo Sakamoto, em coluna no UOL, analisou o episódio como um “presente do bolsonarismo-raiz para Lula,” que usa o tarifaço para resgatar símbolos nacionais sequestrados pela direita.
Ele destacou: “Ao abrir uma gigantesca bandeira dos Estados Unidos na avenida Paulista e gritar a plenos pulmões o nome de Donald Trump, responsável pelo fechamento de postos de trabalho e de empresas através de seu tarifaço, bolsonaristas mostram que seu patriotismo é uma piada. E de mal gosto, pois hoje, 7 de setembro, completa-se 203 anos da independência do Brasil.”
Sakamoto criticou o apoio à sanção de Trump, que exige interrupção do julgamento de Bolsonaro ou anistia no Congresso para revisar o tarifaço, e citou áudio revelado pela Polícia Federal em que Malafaia chama Eduardo Bolsonaro de “babaca inexperiente” por dar munição nacionalista à esquerda.
Para o colunista, o ato transforma a defesa da soberania em “parte podre e sem sentido do discurso do bolsonarismo.”
Enquanto isso, o desfile oficial em Brasília adotou o lema “Brasil Soberano,” com bonés distribuídos e ênfase na independência nacional, contrastando com os atos da oposição.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reforçou a recusa a ingerências estrangeiras, e atos da esquerda na Praça da República, em São Paulo, reuniram 8,8 mil pessoas contra a anistia, com discursos de Guilherme Boulos (Psol-SP) e Luiz Marinho (Trabalho).
A manifestação bolsonarista, com cartazes em inglês como “SOS Trump, Bolsonaro Free,” e símbolos como bandeiras de Israel e o “batom” de Débora Rodrigues, reflete a dissociação do extremismo de valores nacionais, capitalizando politicamente para Lula em um cenário de baixa representatividade da direita para 2026.
A imagem da bandeira americana no Dia da Independência brasileira alinha-se à falta de coesão da oposição, com Tarcísio arriscando seu eleitorado centrista ao abraçar o bolsonarismo radical, enquanto Trump usa o caso para interferir, exigindo anistia ou interrupção do julgamento.
Analistas veem o episódio como um tiro no pé para a direita, fortalecendo o discurso soberanista de Lula e expondo o extremismo bolsonarista como traidor da pátria.







