“Eu não posso me preparar para sua extradição – como eu poderia?”, disse sua esposa, Stella: “Sinto que qualquer coisa pode acontecer neste momento. O Julian pode ser extraditado, ou ele pode ser libertado“
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Um tribunal britânico deverá decidir na segunda-feira (19/5) se o fundador do site ‘WikiLeaks‘, Julian Assange, terá ou não consumada a sua extradição para os Estados Unidos.
Assange fundou o ‘WikiLeaks‘ em 2006 como uma organização sem fins lucrativos, com o objetivo de postar informações confidenciais, vazadas por fontes anônimas.
O jornalista ficou conhecido por divulgar documentos secretos de governos, empresas e outras organizações, sempre defendendo a transparência e a liberdade de imprensa, mas, por este motivo, foi preso.
Natural de Townsville, Queensland – Austrália, Julian Paul Assange e alguns amigos fundaram o ‘WikiLeaks‘ e ganharam alguma atenção das mídias internacionais. Em 2010, a democrata dos EUA, Chelsea Elizabeth Manning, divulgou ao portal informações sigilosas que resultaram no escândalo conhecido como “Cablegate” – a série de telegramas diplomáticos estadunidenses que começaram a ser publicados pelo site de Assange e mais outros cinco grandes jornais.
Militar transgênero do Exército dos Estados Unidos, Chelsea foi presa naquele ano, enquanto servia às tropas norte-americanas no Iraque. Em 2017, o então presidente Barack Obama comutou sua sentença para um total de sete anos de confinamento, quando foi libertada.
O material que Chelsea Manning forneceu ao ‘Wikileaks‘, de Assange, continha várias operações militares do governo dos EUA e a divulgação foi considerada “ilegal“, mas a sociedade em geral a viu como “heroica“. Então, críticas vieram de figuras como Joe Biden, mas outros nomes de relevância internacional, como o Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o ex-presidente da República do Equador entre 2007 e 2017, Rafael Correa, apoiaram as publicações.
Mas as autoridades dos EUA começaram a investigar Assange, que desde então se tornou um fugitivo após seu país nativo se distanciar do jornalista, que ganhou asilo político do Equador, garantido pelo então presidente Correa, depois de visitar a embaixada do país em Londres.
Enquanto isso, em 2014, o FBI o investigava Assange ativamente, independentemente dos vazamentos cedidos por Chelsea Manning. O governo dos EUA formalmente acusou criminalmente o jornalista em 2018.
Naquele ano, o presidente recém eleito presidente do Equador, Lenín Moreno, expressou o desejo de retirar Assange da embaixada, possivelmente visando melhorar as relações com os EUA. Então, em 2019, o jornalista foi preso em Londres, dividindo opiniões, com algumas figuras políticas apoiando e outras considerando-a um ataque à liberdade de expressão.
A Anistia Internacional pediu que o Reino Unido se recuse a extraditar Assange para os Estados Unidos, devido ao risco de violações dos direitos humanos.
A decisão sobre a extradição sai na segunda-feira
Assim, após 13 anos de batalhas legais e detenções, o tribunal britânico irá avaliar as garantias dos EUA de que Assange não enfrentaria a pena de morte e poderia invocar o direito à liberdade de expressão da Primeira Emenda em um julgamento por espionagem, conforme informou a ‘Reuters‘, neste domingo (19/5).
Sua esposa, Stella, afirmou à agência de notícias: “Sinto que qualquer coisa pode acontecer neste momento. O Julian pode ser extraditado, ou ele pode ser libertado“.
Em março de 2022, Stella Moris tornou-se Stella Assange numa cerimónia de casamento na prisão: “Só tínhamos permissão para seis convidados. Inicialmente queríamos duas testemunhas, mas elas foram rejeitadas com base no fato de serem amigos que por acaso eram jornalistas. Não tínhamos permissão para ter nosso próprio fotógrafo, mas um dos guardas que tira fotos de ataques às celas tirou fotos para nós. Julian brincou que as fotos do nosso casamento pareceriam uma invasão de celas”, disse Stella Assange ao ‘Business Post‘ .
Quanto aos norte-americanos, as autoridades querem julgar Assange por 18 acusações, quase todas sob a Lei de Espionagem, alegando que suas ações com o ‘WikiLeaks‘ foram imprudentes, prejudicaram a segurança nacional e colocaram em perigo a vida de agentes. Muitos dos apoiadores chamam a acusação de um ultraje que ataca o jornalismo e a liberdade de expressão devido auma mera vingança por causar constrangimento.
Os apelos para que o caso seja arquivado vão desde grupos de direitos humanos e alguns órgãos de imprensa até o primeiro-ministro australiano Anthony Albanese e outros líderes políticos. Desde 2019, o jornalista aguarda decisão sobre seu futuro na prisão de segurança máxima de Belmarsh. “Todos os dias, desde 7 de dezembro de 2010, ele esteve em algum tipo de detenção“, disse Stella Assange.
Na Grã-Bretanha, os recursos de Assange estão esgotados e, caso a corte decida pela extradição, seus advogados só poderão apelar para o Tribunal Europeu de Direitos Humanos, em busca de uma liminar emergencial que bloqueie a deportação até uma audiência completa sobre seu caso em data posterior.
Por outro lado, se os juízes rejeitarem as alegações dos EUA, Assange terá permissão para apelar de sua extradição por três motivos, e isso pode não ser ouvido até o próximo ano. Também é possível que os juízes decidam que a audiência de segunda-feira deve considerar não apenas se ele pode apelar, mas também o teor desse apelo. Se decidirem a favor dele nessas circunstâncias, ele poderá ser libertado.
Stella Assange afirmou que, independentemente do resultado, continuaria a lutar por sua liberdade. Se ele for libertado, ela planeja seguir com ele para a Austrália ou para onde ele estiver seguro. Se ele for extraditado, ela afirmou que todas as evidências psiquiátricas apresentadas em tribunal concluíram que ele corria sério risco de suicídio. Depois de sete anos confinado na embaixada do Equador e preso desde 2019, o fundador do ‘WikiLeaks‘ enfrenta, segundo sua esposa, problemas de saúde física e mental.
“Vivemos de dia a dia, de semana a semana, de decisão a decisão. É assim que temos vivido há anos e anos“, disse ela à ‘Reuters‘. “Essa simplesmente não é uma maneira de viver – é tão cruel. E eu não posso me preparar para sua extradição – como eu poderia? Mas, se ele for extraditado, farei o que puder, e nossa família lutará por ele até que ele esteja livre“.
O Presidente Lula declarou neste domingo que Assange “deveria ter ganhado o Prêmio Pulitzer ao revelar segredos dos poderosos“, mas “ao invés disso está preso há 5 anos na Inglaterra, condenado ao silêncio de toda a imprensa que deveria estar defendendo a sua liberdade como parte da luta pela liberdade de expressão“.
“Espero que a perseguição contra Assange termine e ele volte a ter a liberdade que merece o mais rápido possível“, desejou o estadista.
