Ao elogiar “a neonazista Ucrânia”, Moro “é definitivamente uma fraude”, diz Ivan Valente

12/09/2021 0 Por Redação Urbs Magna
Ao elogiar “a neonazista Ucrânia”, Moro “é definitivamente uma fraude”, diz Ivan Valente

Sobreposição de imagens | O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), o ex-juiz federal e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro, Sergio Moro e, ao fundo, a bandeira da Ucrânia


PROGRESSISTAS POR UM BRASIL SOBERANO

“É o mesmo que não viu nenhum problema em ser ministro da Justiça do fascista Bolsonaro”, acrescenta o parlamentar sobre artigo em que o ex-juiz declarado suspeito pelo STF defende o país dos grupos de ideologia neonazista e sugere intervenção internacional no judiciário brasileiro

Quem elogia a neonazista Ucrânia é o mesmo que não viu nenhum problema em ser ministro da Justiça do fascista Bolsonaro. Moro é definitivamente uma fraude“, afirmou o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) em seu perfil oficial no microblog Twitter.

A postagem foi feita após o ex-juiz declarado suspeito pelo STF escrever artigo para a revista Crusoé elogiando a Ucrânia – país com grande índice de grupos com ideologia neonazistas – e defendendo uma intervenção internacional no judiciário brasileiro.

No texto, Sergio Moro sugere a adoção de dispositivos para a nomeação de nomes do Judiciário brasileiro, com a “comunidade internacional [termo usado como disfarce para não citar o nome dos EUA]” sendo a principal atuante do novo processo proposto, com a soberania do Brasil sendo atirada aos imperialistas do Norte, como ele sempre defendeu durante a fase em que atuou na Lava Jato. 

Moro disse no Twitter, em forma de lead para seu artigo na mídia que o defende, que deseja “a criação de cortes especializadas como uma resposta à grande corrupção. A experiência ucraniana, após a revolução de 2013/2014, é bem interessante. A seleção de juízes com apoio da comunidade internacional é inovadora e saudável”.

Laços entre grupos neonazistas brasileiros e extremistas ucranianos vem sendo estreitados há algum tempo. Há quatro anos, investigações apontaram até mesmo o recrutamento de simpatizantes da ideologia em nosso país para lutar contra rebeldes pró-Rússia na Ucrânia.

As referências à Ucrânia em geral são vistas como associadas ao neonazismo. Isso porque durante a Segunda Guerra Mundial houve um movimento de um grupo ucraniano que, para se libertar da União Soviética, se aliou ao nazismo. E esse grupo é lembrado com nostalgia hoje por grupos ultranacionalistas.

Sobre a Ucrânia e os movimentos neonazistas

Em 2020, a antropóloga Adriana Dias, uma das principais especialistas em neonazismo do Brasil, afirmou à BBC News que “na Ucrânia em geral hoje, está havendo uma relembrança das pessoas que lutaram ao lado de Hitler, portanto contra os judeus, negros e gays, por uma superioridade étnica. Hitler, quando tomou a Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial, viu que podia contar com certas forças nacionalistas do tipo que esteve muito presente no fascismo, no nazismo, no franquismo, baseado nesse ideário de uma grande nação.”

A antropóloga disse na ocasião que. ao importar esse símbolo para cá, os grupos de direita nacionais querem trazer a ideia de que há um só Brasil a ser construído, um só povo brasileiro. “Estão tentando recriar esse modelo nacionalista. É uma negação de toda etnicidade brasileira, quando na verdade nossa riqueza está na nossa diversidade”, afirmou citando como exemplo o ministro da Educação, Abraham Weintraub (abril/2019 a junho/2020) quando durante reunião ministerial afirmou que “odeia a expressão povos indígenas” e “quilombolas”, pois “todos são povo brasileiro”.

A antropóloga disse ainda que especificamente no Brasil há uma tendência de grupos se importarem com neonazismo de outros lugares: “Nos Estados Unidos você não vê muitos grupos de nacionalismo de outros lugares. Você não vê nazismo dos Estados Unidos na Rússia. Mas alguns lugares, como o Brasil e na América Latina em geral, importam símbolos neonazistas. Nós importamos símbolos de neonazismo russo, ucraniano, estadunidense, espanhol, inglês. Eu costumo brincar que até o neonazismo brasileiro é miscigenado”, afirmou.

Adriana Dias também declarou ao jornal que a apropriação de símbolos nacionais tradicionais é comum em grupos de direita nacionalistas e faz um paralelo entre o uso que a direita ucraniana faz de símbolos ucranianos tradicionais e o uso da bandeira do Brasil pela direita brasileira: “A direita no mundo tem feito isso, de usar os símbolos da nação como se fossem dela. A ditadura militar já fazia isso”.

O uso de símbolos nazistas, e depois a negação da referência, já aconteceu até dentro do governo brasileiro, lembrou a atropóloga. Em janeiro de 2021, o então secretário da Cultura, Roberto Alvim, fez um discurso com as mesmas palavras de uma fala de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda na Alemanha nazista. Depois Alvim negou a referência, que incluía som do compositor favorito de Hitler ao fundo. Alvim acabou demitido e substituído por Regina Duarte, que também deixou o cargo dando sua vez ao bolsonarista Mario Frias. Em 2020, o presidente Jair Bolsonaro citou nas redes sociais uma frase do ditador fascista Benito Mussolini, chamando-o de “o velho italiano”.

A especialista em neonazismo ainda disse que “o governo joga as referências ao vento, sai distribuindo símbolos a torto e a direito, e depois basta que ele negue. Ele sempre nega. Essa estrutura é uma estratégia da direita que é muito parecida com a usada pelo Steve Bannon [o ex-estrategista político de Trump que se tornou guru do clã Bolsonaro e supostamente atuou tecnicamente nas eleições de 2018]”.

“Você lê o livro do Bannon e ele fala que você tem que jogar muitos símbolos, para confundir as pessoas, e depois negar tudo. E continuar criando essa confusão para as pessoas não verem o que está acontecendo”, disse a antropóloga, na ocasião.

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