Anticomunista, Nelson Rodrigues veria, se vivo, tese sobre vitória de idiotas alinhar-se ironicamente à extrema direita
Conexão entre o pensamento do dramaturgo sobre a ascensão dos idiotas e o bolsonarismo foi explorada por diversos comentaristas – SAIBA MAIS
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Brasília, 6 de abril de 2025
Nelson Rodrigues, um dos maiores cronistas e dramaturgos brasileiros, escreveu extensivamente sobre o que ele chamou de “ascensão dos idiotas”, uma ideia recorrente em suas crônicas e reflexões sobre a sociedade.
Ele via esse fenômeno como um dos eventos mais marcantes do século XX, uma explosão da mediocridade e da burrice que, segundo ele, passou a dominar os rumos da humanidade pela força numérica, e não pela capacidade.
“O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota,” disse Nelson Rodrigues em entrevista à Revista Bula, assim como destacou em outras coletâneas como Nelson Rodrigues por ele mesmo. O autor estabeleceu a ascensão dos idiotas como um marco histórico, algo que transcende épocas anteriores pela velocidade e impacto.
“Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina,” disse o dramaturgo na mesma entrevista, lembrando do que dissera antes em O Reacionário. Neste caso, Nelson Rodrigues apontou uma inversão de valores: onde antes os mais capazes guiavam a sociedade, agora os ineptos tomam a frente, impondo-se pela força do número.
Em sua crônica Os Idiotas Confessos, de agosto de 1968, publicada no jornal O Globo e no livro O Óbvio Ululante,Rodrigues descreve como os idiotas, antes humildes e conscientes de sua limitação, perceberam sua vantagem quantitativa e passaram a agir com ousadia:
“De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: a vergonhosa inferioridade numérica dos ‘melhores.’ Para um ‘gênio,’ 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão“.
Até que “os idiotas perderam a modéstia, a humildade de vários milênios. Eles estão por toda parte. São os que mais berram. O sujeito que passa numa esquina, numa retreta ou num velório é logo cercado de idiotas. As casacas são usadas pelos idiotas; as condecorações pingam dos idiotas. E, de mais a mais, são numericamente esmagadores. Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos“.
Nelson Rodrigues previu: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”, dizia o dramaturgo em várias coletâneas, como Só os Profetas Enxergam o Óbvio, encapsulando sua visão de que a quantidade supera a qualidade na modernidade.
Em O Reacionário,Nelson Rodrigues repetia, com variações em outras obras, que “até o século XIX, o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava. E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar uma cadeira do lugar. Em 50, 100 ou 200 mil anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida. Simplesmente, não pensava. Os ‘melhores’ pensavam por ele, sentiam por ele, decidiam por ele“.
Assim, o dramaturgo via que a maravilhosa democracia tinha seu lado “desgraça,” que era o de trazer “à tona a força numérica dos idiotas, que são a maioria da humanidade.” Para o autor, o sistema paradoxalmente amplifica o poder dos idiotas por sua maioria numérica.
Ainda em O Reacionário, Rodrigues se dizia espantado com “o papel da inteligência. Sim, como age, como reage a inteligência. O homem comum pensa que o intelectual pensa. Ilusão. A inteligência não pensa mais. Vive a lamber as botas dos idiotas como uma cadelinha amestrada“.
“Nem se pense que a ‘invasão dos idiotas’ só ocorreu no Brasil. Se fosse uma crise apenas brasileira, cada um de nós podia resmungar: ‘Subdesenvolvimento’ e estaria encerrada a questão,” escreveu, em Os Idiotas Confessos, em 1968.
As passagens supratranscritas cobrem o essencial do que Rodrigues escreveu sobre a ascensão dos idiotas, extraídas de crônicas, entrevistas e coletâneas como O Óbvio Ululante, O Reacionário e Nelson Rodrigues por ele mesmo. Ele via o idiota como uma “força da natureza“, um ser que, ao perder a humildade e ganhar consciência de seu número, passou a moldar a sociedade em detrimento da qualidade, da razão e da hierarquia tradicional.
Nelson Rodrigues em 1971 no Correio da Manhã
RELAÇÃO COM O BOLSONARISMO
A conexão entre o pensamento de Nelson Rodrigues sobre a ascensão dos idiotas e o bolsonarismo, movimento político associado à eleição de Jair Bolsonaro em 2018, foi explorada por diversos comentaristas, especialmente no contexto brasileiro contemporâneo. Embora Rodrigues tenha morrido em 1980, muito antes do surgimento do bolsonarismo, suas ideias ressoam em análises críticas desse fenômeno:
A força numérica como base do poder:Rodrigues argumentava que os idiotas dominam pela quantidade, não pela capacidade. No caso do bolsonarismo, muitos críticos apontam que o movimento ganhou força não por uma proposta intelectualmente robusta, mas pela mobilização massiva de uma base popular que se identificou com a retórica simples, direta e emocional de Bolsonaro. As redes sociais amplificaram esse efeito, permitindo que uma “multidão de idiotas” — no sentido rodriguiano — se organizasse rapidamente, ecoando slogans como “mito” ou “Brasil acima de tudo“.
A perda da modéstia e o orgulho da ignorância:Rodrigues descreveu os idiotas como aqueles que “perderam a modéstia” e passaram a berrar em praça pública. O bolsonarismo, para seus detratores, exemplifica isso na figura de apoiadores que exibem orgulho em rejeitar o “establishment” intelectual, a mídia tradicional e a ciência (como no negacionismo durante a pandemia). Frases como “sou de direita e com orgulho” ou a defesa de ideias controversas sem constrangimento refletem essa perda de humildade que Rodrigues criticava.
O idiota como líder carismático: Em Os Idiotas Confessos,Rodrigues fala de um idiota que sobe num caixote e atrai uma multidão. Bolsonaro, com seu estilo tosco, muitas vezes comparado ao de “tiozão do churrasco”, foi visto por alguns como esse líder improvável que galvanizou milhões. Sua linguagem desbocada e sua rejeição às convenções políticas tradicionais ecoam o tipo de figura que Rodrigues imaginava como catalisador da ascensão dos idiotas.
A submissão da inteligência:Rodrigues lamentava que a inteligência se curvasse aos idiotas. No bolsonarismo, críticos apontam que intelectuais e jornalistas de direita, que antes defendiam ideias mais sofisticadas, passaram a endossar ou justificar as posturas de Bolsonaro, como o revisionismo histórico ou o ataque a instituições. Isso seria um exemplo da “cadela amestrada” que lambe as botas dos idiotas.
A crítica de Rodrigues ao marxismo e o anticomunismo do bolsonarismo: Rodrigues atribuía a Marx o “despertar dos idiotas“, mas sua crítica era mais ampla, voltada à mobilização das massas sem critério. O bolsonarismo, com seu forte discurso anticomunista, pode ser visto como uma ironia: enquanto rejeita o marxismo, adota uma estratégia semelhante de apelo às massas, mas com uma ideologia oposta. Para alguns, isso reforça a ideia de que a ascensão dos idiotas não é exclusividade de uma corrente política, mas um fenômeno universal que o bolsonarismo também encarna.
Perspectiva contrária: Rodrigues e o apoio à ditadura: É importante notar que Rodrigues, autoproclamado reacionário, apoiou a ditadura militar brasileira, que ele via como uma resposta ao “caos idiota” das esquerdas na época de João Goulart. Bolsonaro, nostálgico do regime militar, poderia ser visto como alinhado a essa visão rodriguiana de ordem contra a “invasão dos idiotas.” Assim, alguns bolsonaristas poderiam argumentar que o movimento é uma resistência à ascensão dos idiotas, e não sua realização. No entanto, a percepção dominante entre críticos é que o bolsonarismo, com sua simplificação e populismo, contradiz essa intenção e encarna o fenômeno que Rodrigues temia.
Enquanto Nelson Rodrigues via a ascensão dos idiotas como uma tragédia moderna, onde a quantidade suplanta a qualidade, os medíocres tomam o poder e a inteligência se rende, o bolsonarismo, na visão de muitos analistas e críticos, reflete esse diagnóstico ao mobilizar uma maioria barulhenta e emocional, muitas vezes desprezando a razão ou a sofisticação em favor de um populismo visceral. Se Rodrigues estivesse vivo, talvez risse da ironia: um movimento que ele poderia ter apoiado por seu anticomunismo e defesa da ordem acabou, para muitos, provando sua tese sobre a vitória dos idiotas — não pela capacidade, mas pela quantidade.
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