José Eduardo Agualusa é escritor angolano central na literatura lusófona que une história e fantasia para explorar memória e identidade. Autor de Teoria Geral do Esquecimento, é premiado internacionalmente | Entrevista à TV Cultura |22.11.2024| Imagem reprodução / TV Cultura
| Brasília (DF)
09 de maio de 2026
O escritor angolano José Eduardo Agualusa publicou no Segundo Caderno de O Globo uma crônica intitulada “Instruções para desarmar o ódio”, onde narra a história de um “vendedor de gentilezas” perseguido por agentes do Estado.
A metáfora revela como a gentileza, por ameaçar a “desunião” necessária ao sistema político, torna-se um ato de insurgência silenciosa em 2026.
A produção literária de Agualusa nunca esteve tão conectada ao pulso do Brasil contemporâneo. O autor, conhecido por obras como Teoria Geral do Esquecimento, transpõe para o jornalismo a mesma lógica da oralidade e da memória.
No entanto, aqui, o alvo não é a guerra civil angolana, mas a guerra cultural digital.
“Conheci um homem que vendia gentilezas. Não sei se por prudência, ou devido à extrema raridade do produto, mantinha um estoque reduzido. Era um sujeito de outro tempo, sempre muito elegante, muito direito, muito discreto“, escreve Agualusa.
O Mecanismo da Grosseria
A crônica descreve um homem que negocia atos de afeto “a preços módicos”, mas que só cobra após o resultado. “A gentileza cobra-se depois…”, diz o personagem.
Agualusa descreve o modelo de negócios da intolerância: “O nosso tempo valoriza a grosseria. Algumas pessoas acumulam pequenas brutalidades como quem junta milhas aéreas.”
A referência às redes sociais é cirúrgica. O escritor afirma que a gentileza é desprezada porque não escandaliza.
“Nunca percebi como funcionava o sistema. Suspeito que nem ele. O nosso tempo valoriza a grosseria. Algumas pessoas acumulam pequenas brutalidades como quem junta milhas aéreas. Somam alegremente comentários impróprios, gritos, insultos, piadas racistas, interrupções ruidosas. Nas redes sociais a gentileza tende a ser desprezada porque não escandaliza, não irrita, não indigna, não provoca. Enfim, não rende likes“.
Esta é a chave política do texto: “Caso se espalhe, ameaça a desunião da sociedade, que é o que sustenta o sistema”. Se a polarização alimenta o engajamento e os algoritmos, um simples “bom-dia” olho no olho quebra o ciclo de retroalimentação do ódio.
“O vendedor de gentilezas estava ciente do estado do mundo. Ainda assim, insistia: — É um mercado de nicho… Por vezes surgia alguém à procura de uma gentileza urgente — uma palavra terna; um pedido de desculpas; um silêncio mais que perfeito. Nessas alturas, o homem tornava-se grave, quase solene. Escolhia as peças com o cuidado de um relojoeiro“.
A ideia do escritor é a de que, nas redes a gentileza tende a ser desprezada porque não irrita, não rende likes. E, caso se espalhe, ameaça a desunião da sociedade, que é o que sustenta o sistema.
“Na maior parte dos dias, contudo, não aparecia ninguém. Então o vendedor de gentilezas sentava-se à porta da loja, numa cadeira de palhinha, e oferecia os seus produtos aos menos apressados. Um bom-dia dito com atenção, olhos nos olhos. Um elogio inesperado. Um pedido de desculpa antecipado, para eventuais falhas futuras. Nem todos aceitavam. Alguns desconfiavam. Outros aceleravam o passo, sem olhar para trás, como se estivessem a ser abordados por um credor. A gentileza, como se sabe, cria embaraço. Não estamos habituados. Preferimos o tom neutro, a indiferença funcional. Quase sempre é mais seguro. Não nos compromete“.
A Subversão e a Reação Institucional
O ponto de virada da narrativa ocorre quando “dois agentes” batem à porta do comerciante.
“Um dia alguém denunciou o vendedor de gentilezas. Manhã muito cedo, dois agentes bateram-lhe à porta. Pediram para ver o catálogo. Queriam saber que tipo de gentilezas circulavam, a quem eram dirigidas e com que frequência“.
O agente mais velho rosna: “Isto pode ser interpretado como um incentivo à subversão!”
“Um deles, o mais velho, anotava tudo num caderno de capa preta, como se estivesse registando infrações. — Isto pode ser interpretado como um incentivo à subversão! — rosnou. — Subversão?! — espantou-se o vendedor. — Com certeza. Insurgência!“
A justificativa apresentada é que, sem a desunião, os políticos perderiam sua razão de existir.
“Veja bem… A gentileza é uma ameaça à desunião da sociedade. E sem desunião, o que fariam os políticos?“, escreve Angualusa, dando voz ao personagem: “Todo o sistema se desintegraria“. O escritor prossegue: “O segundo agente ergueu a voz: — O pior é o contágio…“
A conexão com o momento político brasileiro é inevitável. Em maio de 2026, ano de eleições gerais no Brasil, a estratégia de campanhas majoritárias ainda depende da criação de inimigos.
A crônica de Agualusa denuncia como a democracia foi refém do espetáculo da raiva. Ao oferecer gentilezas aos agentes no final — um agradecimento sincero e um voto de bom dia —, o comerciante os “contamina”.
“O vendedor escutou atento. À despedida, ofereceu-lhes duas gentilezas de cortesia: um agradecimento sincero pelo tempo dispensado e um voto de bom dia, dito sem ironia. Os agentes hesitaram. Não sabiam se deviam aceitar. Acabaram por levar as gentilezas, embrulhadas em fino silêncio“.
Um passa a cumprimentar vizinhos; o outro pede desculpas à esposa.
“Consta que, dias depois, o mais velho começou a cumprimentar os vizinhos. O outro pediu desculpa à esposa por não saber ouvi-la”.
O título do texto ecoa como um manual de resistência e a conclusão de Agualusa é que os agentes estavam certos: não há nada mais subversivo do que a gentileza.
“Os agentes estavam certos ao acusarem o vendedor — não há nada mais subversivo do que a gentileza. Também estavam certos quanto ao perigo de contágio“, finaliza o escritor.
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