Político ex-ator pornô enfrenta perda de cargo na Região Metropolitana de São Paulo em caso que remonta a disputas antigas – SAIBA MAIS
Brasília, 04 de outubro de 2025
O ex-ator e político Alexandre Frota (PDT) perdeu seu mandato como vereador na Câmara Municipal de Cotia na sexta-feira (3/out), em decisão formalizada pelo presidente da casa legislativa, Osmar Danilo da Silva (Republicanos), com base na Constituição Federal e na Lei Orgânica do Município, que impõem a perda automática do cargo em casos de condenação criminal transitada em julgado por crime doloso.
O caso remonta a 2018, quando Frota, então deputado federal recém-eleito com apoio de Jair Bolsonaro, protagonizou embates acalorados na Câmara dos Deputados.
Acusado de calúnia e difamação pelo ex-parlamentar Jean Wyllys (PSOL), Frota foi condenado pela 2ª Vara Federal de Osasco a dois anos de detenção em regime aberto, além de multa.
Seus recursos foram negados em todas as instâncias, culminando na ratificação da sentença pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em maio deste ano.
“A retratação cabal às ofensas geraria a extinção da punibilidade, independente da vontade do autor (da ação)”, argumentou a defesa em vão.
Eleito em 2024 com 2.893 votos – um marco em sua transição da fama das telas para os corredores do poder local – Frota dedicou-se a fiscalizações em unidades de saúde e pautas sociais em Cotia, cidade de 230 mil habitantes na Grande São Paulo.
No entanto, o processo judicial, que ganhou tração em julho com negociações políticas e movimentações na Câmara local lideradas por Serginho Luiz (PSB), selou seu destino.
“Hoje é um dia muito triste. Depois de todo o trabalho que eu fiz pela cidade, pelas famílias, crianças, idosos e mulheres… Eu me dediquei muito”, desabafou o agora ex-vereador em vídeo nas redes sociais, onde se emocionou ao agradecer aos eleitores.
Ele prometeu um “até breve”, afirmando que “dentro do campo político, existe uma ‘guerra’” e que não será silenciado, sinalizando possível retorno via revisão criminal ou novas candidaturas.
A defesa, representada pelo advogado Anthero Mendes Pereira Júnior, respeita a decisão, mas discorda e planeja ingressar com uma revisão criminal em busca de absolvição.
“O ex-vereador está tranquilo e confiante na Justiça”, declarou o jurista, notando que Frota ainda não foi formalmente intimado pela Justiça Eleitoral ou pela Câmara.
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Enquanto isso, o movimento pela cassação, que contava com sete votos favoráveis em julho, evoluiu para os 12 necessários, destacando as tensões no Legislativo cotiano.
Essa reviravolta não é isolada na trajetória de Frota, que rompeu com Bolsonaro em 2020 e se reposicionou como opositor ferrenho.
De deputado federal a vereador cassado, o episódio levanta debates sobre accountability na política e os limites da liberdade de expressão em embates parlamentares.
Para os moradores de Cotia, que viram em Frota um defensor incansável de pautas locais, a perda representa um vácuo – mas também um lembrete de que o poder, como as cenas de um roteiro, pode ser reescrito.
O que Alexandre Frota fez de errado
A acusação formal de calúnia e difamação movida por Jean Wyllys (PSOL-RJ, à época) contra Alexandre Frota remonta a abril de 2017, em um episódio que ganhou repercussão nas redes sociais e culminou em uma condenação judicial em dezembro de 2018.
Em 5 de abril de 2017, Frota, então ator e figura pública alinhada ao espectro conservador, postou em seu perfil oficial no Facebook uma imagem de Wyllys com a legenda atribuída falsamente ao deputado: “A pedofilia é uma prática normal em diversas espécies de animal (sic), anormal é o seu preconceito”.
A postagem viralizou rapidamente, alcançando cerca de 10 mil compartilhamentos, mais de 4 mil curtidas e 2 mil comentários, gerando uma onda de repúdio e ameaças contra Wyllys.
Logo após a publicação, Wyllys tomou ciência do conteúdo e, em 2018, protocolou a queixa-crime por calúnia (art. 138 do Código Penal) e difamação (art. 139), argumentando que a frase era uma invenção para difamá-lo politicamente.
A ação destacou que Wyllys jamais proferiu tal declaração e que a postagem visava associá-lo a um crime grave, como a pedofilia, para incitar ódio e repulsa pública.
O cerne da acusação era a atribuição falsa de uma declaração criminosa a Wyllys, que, como defensor histórico dos direitos humanos e das minorias (incluindo a comunidade LGBTQIA+), foi alvo de uma campanha difamatória.
Frota usou a imagem para insinuar que o deputado normalizava a pedofilia, comparando-a a comportamentos “naturais” em animais – uma narrativa que, segundo a sentença judicial, foi criada intencionalmente para causar “empatia emocional com as vítimas de pedofilia” e gerar “asco social” contra Wyllys.
O incidente ocorreu em meio a embates ideológicos acirrados na pré-campanha de 2018, quando Frota se elegeu deputado federal pelo PSL, partido de Jair Bolsonaro naquele ano.
O ator pornô que virou deputado era conhecido por provocações ao estilo bolsonarista contra figuras progressistas como Wyllys.
O deputado baiano, por sua vez, enfatizou em entrevistas que a postagem era uma “fake news” com motivação eleitoral, reforçando seu compromisso com a luta contra preconceitos e crimes sexuais.
Na ação, Frota negou autoria do crime, alegando que a postagem era sátira ou crítica política, e pediu extinção da punibilidade por eventual retratação. Sua defesa também acusou Wyllys de usar o processo como “palanque eleitoral”.
A juíza federal Adriana Freisleben de Zanetti condenou Frota em 18 de dezembro de 2018 a 2 anos e 26 dias de detenção em regime aberto (convertida em prestação de serviços à comunidade, como picar papéis por 5 horas diárias), mais 620 dias-multa.
A sentença concluiu que Frota excedeu o direito à livre manifestação do pensamento, comprovando a intenção difamatória, pois as frases “jamais foram ditas por Jean Wyllys”.
Recursos foram negados até o trânsito em julgado em 2025, resultando na perda automática do mandato eletivo de Frota.
O caso ilustra os limites da liberdade de expressão em disputas políticas e o impacto das fake news, acentuado no mundo a partir da ascensão da extrema direita, no caso do Brasil durante o bolsonarismo, no debate público brasileiro.







