Decisão ocorre na véspera da sentença contra a vice-presidente Cristina Kirchner em um julgamento por suposta corrupção quando ela era presidente, em processo promovido por um juiz federal que está entre os supostos integrantes da polêmica viagem
O presidente da Argentina, Alberto Fernández, ordenou nesta segunda-feira (5/12) a abertura de uma investigação criminal sobre uma suposta viagem secreta entre juízes, promotores e empresários da mídia à região da Patagônia.
Fernández anunciou a investigação no Twitter, bem como em mensagem transmitida em rede nacional, justificando que o fazia “porque é evidente que grande parte do sistema de mídia privado decidiu não noticiar o que aconteceu naquela viagem conjunta ao Lago Escondido”.
“Pela primeira vez, é exposta diante de nós a forma como certas corporações operam sobre funcionários, juízes e promotores, com enorme contundência, buscando favores que visam vantagens indevidas ou simplesmente incentivam a perseguição daqueles que os confrontam”, disse Fernández, na plataforma.
“Dói a democracia ver a promiscuidade antirrepublicana com que se movem alguns empresários, alguns juízes, alguns procuradores e alguns funcionários. Até agora eles se sentiram impunes. É hora de eles começarem a ser responsabilizados por seus comportamentos”.
Assista e leia a mensagem de Fernández, a seguir:
“Desde o início do meu governo, alertei sobre a existência de porões que a Argentina manteve ao longo dos anos. Prometi eliminá-los para garantir uma democracia mais plena, profunda e autêntica.
Acabamos com as operadoras e mesas judiciais. Os serviços de inteligência pararam de vagar pelos corredores dos tribunais. As escutas dos opositores ao poder do Estado desapareceram por completo. Os órgãos estaduais de controle e arrecadação não voltaram a ser utilizados em detrimento de eventuais críticas ao governo.
Todo esse esforço se torna em vão quando os fatores de poder influenciam negativamente as estruturas do Estado. A Argentina precisa, de uma vez por todas, de funcionários honestos, juízes honestos e empresários que lucrem sem corromper os outros.
Há poucos dias, um jornal de circulação nacional divulgou detalhes de uma viagem que um grupo de juízes, promotores, ex-funcionários públicos e ex-agentes da Agência Federal de Inteligência teria feito em avião particular a Lago Escondido. Lá, eles teriam passado um fim de semana hospedados na mansão de Joe Lewis, um empresário britânico dono de grandes extensões de terra naquela região da nossa Patagônia.
Parece evidente que a viagem existiu. E tudo indica que, sabendo que o evento havia virado notícia, aqueles que teriam participado dele estavam preocupados com o risco real de se envolverem em uma série de crimes como recebimento de presentes e descumprimento dos deveres de funcionário público.
Eles tinham uma certeza: o principal grupo de meios de comunicação da Argentina garantiria a não divulgação dos fatos. Aparentemente, eles foram ao mesmo tempo os convocadores da reunião. Sabendo disso, todos teriam se esforçado ao máximo para tentar impedir que outros meios de comunicação espalhassem o que aconteceu.
Pela primeira vez, é exposto diante de nós, com enorme contundência, a forma como certas corporações operam sobre funcionários, juízes e promotores, buscando-lhes favores que, em muitos casos, buscam vantagens indevidas, enquanto em outros simplesmente incentivam o perseguição daqueles que os enfrentam.
Tudo indica que mais uma vez ficou exposta a deterioração da qualidade institucional sofrida por alguns juízes, promotores, ex-funcionários e empresários. Todos eles envolvidos num perverso jogo de suborno que afeta gravemente o bom funcionamento do Estado e, em particular, a administração da justiça.
Continuo notando que o que saiu é, aparentemente, resultado de uma intromissão em uma plataforma de comunicação. Mas isso não é obstáculo para saber qual foi o propósito daquela viagem, quem dela participou e quem financiou o transporte e hospedagem dos viajantes. Este fato teria sido verificado antes do momento em que os integrantes do grupo “Operação Página 12” se preocuparem com a divulgação da notícia e dialogarem naquele site digital buscando a impunidade.
Resolvi dar esta mensagem da Casa Rosada, porque é evidente que grande parte da mídia privada decidiu não noticiar o que aconteceu naquela viagem única ao Lago Escondido.
Espero que todos tomemos consciência da gravidade dos fatos. Dói à democracia ver a promiscuidade antirrepublicana com que se movem alguns empresários, alguns juízes, alguns procuradores e alguns funcionários. Até agora eles se sentiram impunes. É hora de eles começarem a ser responsabilizados por seu comportamento.

Convencido de que devemos dizer “nunca mais” às práticas que lesam as instituições da República, resolvi:
1) Instruir o Ministro da Justiça a comparecer perante o Ministério Público, a fim de requerer a apuração criminal dos factos relativos à viagem em causa, especialmente os relativos ao seu financiamento.
2) Instruir o representante do PEN perante o Conselho da Magistratura a solicitar a abertura de súmula perante a Comissão Disciplinar para apurar a conduta dos magistrados federais.
3) Solicitar ao Bloco de Legisladores da Frente de Todos da Cidade de Buenos Aires que avalie a conduta dos funcionários desse distrito envolvido e, se for o caso, apresente a Impeachment aos funcionários da Cidade envolvidos.
4) Mais uma vez, solicitar ao Congresso Nacional que avance com o tratamento dos projetos de reforma do Judiciário pendentes e a necessária cobertura do cargo de Procurador-Geral da Nação.
Muito obrigado”.
A troca de mensagens veio à tona na véspera de um momento delicado para o governo: está prevista para esta terça-feira (6/12) a sentença contra a vice-presidente Cristina Kirchner em um julgamento por suposta corrupção quando ela era presidente (2007-2015), caso que ela definiu como “perseguição política“.
O processo contra Kirchner e outros 12 réus foi promovido pelo juiz federal Julián Ercolini, que está entre os supostos integrantes da polêmica viagem.

Uma lava jato da Argentina
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