“Ao governo americano: eu acreditei em vocês. Trabalhei com vocês. Ajudei vocês por anos, lado a lado. Segui suas regras“, disse um deles em um comunicado à imprensa. “Agora, estou detido — tratado como um criminoso por fazer exatamente o que me pediram“
Brasília, 03 de agosto de 2025
Um ex-intérprete das forças dos EUA no Afeganistão foi detido em Connecticut ao tentar obter o green card, e um segundo foi preso em San Diego após sua audiência de asilo.
Oficialmente chamado de US Permanent Resident Card, o documento concede residência permanente nos Estados Unidos, permitindo que o estrangeiro resida e trabalhe legalmente no país de forma permanente, além de ter acesso a serviços públicos e estudar em universidades com mensalidades reduzidas.
Enquanto o governo dos EUA tenta cumprir a promessa de deportação do presidente Donald Trump, advogados dos afegãos que temem retaliação do Talibã afirmam que seus clientes estão sendo visados pela Imigração e Alfândega (ICE), apresentando documentação que comprova seu apoio às forças dos EUA durante a guerra no Afeganistão, informa o The Whashington Post.
Após a queda de Cabul em agosto de 2021, o governo Biden acelerou o reassentamento de afegãos que trabalharam para os EUA através do Programa de Visto de Imigrante Especial (SIV), concedendo residência permanente e cidadania americana.
Até abril, 25 mil afegãos haviam recebido o SIV e 160 mil aguardavam a análise de seus pedidos, conforme dados analisados por Adam Bates do International Refugee Assistance Program.
O governo Trump está revertendo programas que auxiliam mais de 250 mil afegãos, incluindo aliados das forças dos EUA. Embora alegue que o processamento do SIV continuará, defensores temem que cortes em programas essenciais e o plano de deportação do governo coloquem em risco os que buscam proteção.
Zia, 36, e Sayed Naser, 33, tiveram seus sobrenomes omitidos pelo jornal devido a ameaças do Talibã, embora seus advogados afirmem que eles seguiram corretamente os processos de imigração.
“Zia não é uma exceção,” afirmou a advogada Lauren Cundick Petersen, conforme transcreveu o WP, destacando a manipulação da entrada legal como ilegal para atingir metas de deportação.
Matt Zeller, veterano do Exército, cofundou a organização No One Left Behind para reassentar afegãos que ajudaram, temendo que a repressão migratória prejudique esse esforço.
“O governo Trump sabe o que acontecerá com essas pessoas. Eles não são burros. Sabem que o Talibã os matará quando voltarem ao Afeganistão“, disse Zeller. “Eles simplesmente não se importam.”
A porta-voz da Casa Branca, Abigail Jackson, destacou que a prioridade do governo é prender e deportar os estrangeiros ilegais perigosos que entraram pela fronteira sul durante o governo de Joe Biden. “Os EUA estão mais seguros graças às políticas de imigração do presidente Trump“, disse ela.
Zia trabalhou como intérprete e consultor cultural na base Camp Mike Spann, na cidade afegã Mazar-e Sharif, entre 2005 e 2009, segundo sua advogada. Por seu trabalho, Zia “sofreu e continua sofrendo ameaças à vida e aos bens de sua família por parte de forças inimigas e criminosas“, diz uma carta de recomendação de seu supervisor.
Pai de cinco filhos, ele fugiu para o Paquistão em 2021. Lá, Zia solicitou o SIV, enquanto seu irmão mais novo — já cidadão americano — pediu parole humanitária em seu nome. Trata-se de uma permissão temporária concedida pelo governo dos Estados Unidos a estrangeiros que, de outra forma, seriam impedidos de entrar no país, por razões humanitárias urgentes ou para o benefício público significativo.
Em abril de 2024, o Departamento de Estado aprovou o pedido de SIV de Zia, que recebeu parole humanitária. Ele e sua família se mudaram para Connecticut, iniciando o processo para o green card. “Ele alugou uma casa, matriculou os filhos na escola e conseguiu emprego“, disse Petersen.
Zia foi detido pelo ICE em 16 de julho e recebeu uma ordem de deportação acelerada devido a uma investigação do DHS (Department of Homeland Security – Departamento de Segurança Interna) por uma acusação criminal, embora Petersen afirme que ele não possui antecedentes.
Atualmente detido em Massachusetts, Zia entrou com um habeas corpus e um juiz federal suspendeu temporariamente sua deportação em 17 de julho. O DHS argumenta que Zia representa “risco à segurança nacional“, mas não comentou as acusações em detalhes.
Quanto ao caso de Sayed Naser, ele trabalhou como intérprete para tropas dos EUA em um centro de treinamento em Cabul entre 2011 e 2013, antes de fundar uma empresa de logística que prestava serviços ao Exército americano.
Em seu pedido de asilo, ele relatou que sofreu “inúmeras ameaças e ataques” por seu trabalho: “sete de nossos veículos foram incendiados pelo Talibã“, escreveu. “Para eles, qualquer um que trabalhe com forças estrangeiras é um infiel e um alvo legítimo.”
Em 2021, ele e sua família se esconderam após talibãs invadirem um casamento de um parente em Cabul à sua procura. Não o encontrando, executaram seu irmão e prenderam seu pai, segundo seu relato.
Após obter um visto para o Irã, Sayed Naser viajou para o Brasil e depois para o México. Entrou nos EUA em julho de 2024 com parole humanitária e tem pedidos de SIV e asilo pendentes.
Em junho, foi preso pelo ICE em um tribunal de San Diego minutos após sua primeira audiência de asilo. O DHS moveu para rejeitar seu pedido, alegando não haver registro de seu trabalho com o governo dos EUA.
Um oficial de asilo determinou em julho que Sayed Naser enfrenta “medo crível de perseguição ou tortura” se deportado, tornando-o elegível para refazer o pedido de asilo. Ele permanece detido em San Diego.
“Ao governo americano: eu acreditei em vocês. Trabalhei com vocês. Ajudei vocês por anos, lado a lado. Segui suas regras“, disse Sayed Naser em um comunicado à imprensa. “Agora, estou detido — tratado como um criminoso por fazer exatamente o que me pediram.”
Jill Marie Bussey, da agência de reassentamento Global Refuge, observou que o governo Trump quer que o ICE realize pelo menos 3 mil prisões por dia: “Eles não pretendem fazer isso mirando criminosos, mas sim retirando proteções legais“, disse.
Andrew Sullivan, do No One Left Behind*, veterano do Afeganistão, chamou a repressão de “traição”, citando também o fim do Estatuto de Proteção Temporária (TPS) para afegãos.
*NOLB é uma organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos, formada, em grande parte, por veteranos de guerra, que tem como missão garantir que os aliados, principalmente os que trabalharam como intérpretes e tradutores no Afeganistão e no Iraque, recebam a assistência e a proteção que lhes foram prometidas. Isso inclui ajudar no processo de Visto de Imigrante Especial (SIV), na evacuação e no reassentamento desses indivíduos e suas famílias nos EUA. O nome “No One Left Behind” (Ninguém Deixado Para Trás) reflete a missão da organização de evitar que os aliados dos EUA que os ajudaram em zonas de conflito sejam abandonados ou fiquem em perigo.
“Arriscamos vidas para salvar aliados afegãos. Agora, deportá-los desonra o sacrifício dos 13 americanos mortos no aeroporto de Cabul“, disse Sullivan.








