
O burnout é o esgotamento físico e mental causado por estresse crônico no trabalho. Gera exaustão extrema, negatividade com a profissão e baixa produtividade. É um fenômeno ocupacional grave / Imagem gerada por IA
Brasília (DF), 02 de maio de 2026
Os afastamentos do trabalho por Síndrome de Burnout explodiram 823% no Brasil entre 2021 e 2025, saltando de 823 para 7.595 casos, segundo dados do Ministério da Previdência Social obtidos.
O dado alarmante, que acende um sinal de alerta máximo para a saúde pública e a economia, coincide com a iminente fiscalização da nova Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) e está inflamando as discussões sobre a necessidade de reformular a escala de trabalho 6×1, apontada por especialistas como um celeiro de estresse crônico.
O fenômeno não é isolado. O avanço também é observado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), que viu as denúncias relacionadas à saúde mental saltarem de 190 para 1.022 entre 2021 e 2025 — uma alta de 438%.
O custo para os cofres públicos é bilionário: as despesas com auxílio-doença por transtornos mentais dispararam de R$ 18,9 bilhões em 2022 para R$ 31,89 bilhões em 2024, refletindo a gravidade e a duração cada vez maior desses afastamentos.
A “tempestade perfeita” que leva ao colapso
O que explica um crescimento tão brutal em tão pouco tempo? O médico psiquiatra Arthur Danila, coordenador do PROMEV no Hospital das Clínicas da USP, explica ao g1 que o número reflete três fenômenos simultâneos: a piora real nas condições de trabalho, o maior reconhecimento do problema e o fim da subnotificação.
“O trabalho ficou mais acelerado, mais conectado, mais monitorado e mais competitivo. Ao mesmo tempo, passamos a reconhecer melhor que parte do sofrimento mental tem relação direta com o ambiente ocupacional” .
A psicóloga e pesquisadora Fernanda Settecerze Rodrigues, em um estudo acadêmico sobre os impactos da escala 6×1, corrobora essa visão.
Sua pesquisa, que ouviu 81 trabalhadores de sete estados, revelou que a rotina de apenas um dia de descanso semanal está diretamente associada a “níveis elevados de estresse e depressão”, criando um terreno fértil para o esgotamento profissional.
O sociólogo Marcos Torati, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, complementa ao Portal CTB que essa escala representa o “trabalho alienado”, movido pela necessidade de sobrevivência e não por realização pessoal, o que corrói a saúde mental dia após dia.
NR-1 na mira: fiscalização e o peso da lei
Diante do caos, o governo federal colocou uma faca sob o pescoço das empresas. A partir de 26 de maio (segunda-feira, 26/mai), entra em vigor o caráter punitivo da nova NR-1. A norma obriga todas as empresas a mapearem os chamados riscos psicossociais — como metas inalcançáveis, jornadas exaustivas, assédio moral e falta de autonomia — no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
O recado do governo foi direto, conforme publicado no site oficial do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE): “As empresas terão que fazer a gestão desses ambientes de trabalho para que eles não adoeçam o trabalhador mentalmente. Para que não haja excesso de sobrecarga de trabalho”.
A fiscalização não será uma mera formalidade. Auditores fiscais serão capacitados para cruzar dados do eSocial e identificar picos de afastamento por CIDs relacionados à saúde mental (como F43 e Z73), usando isso como evidência de negligência.
As penalidades são severas. Especialistas apontam multas que podem chegar a R$ 6.708,08 por trabalhador exposto ao risco.
E o problema não para na esfera administrativa. A advogada trabalhista Nathalia Sequeira Coelho explica que a ausência de um PGR robusto servirá como prova cabal de culpa patronal na Justiça do Trabalho, facilitando indenizações por danos morais e coletivos.
Casos reais e o silêncio diante da dor
As estatísticas são formadas por histórias como a da pedagoga Cristine Oittica. Com 15 anos de experiência, ela foi contratada por uma grande fundação ligada ao sistema financeiro e, em menos de quatro anos, viu sua saúde ruir.
Trabalhava “12, 14 horas por dia”, sofria com a falta de reconhecimento e um ambiente de “cobrança velada e competição interna”.
Após sucessivos afastamentos por ansiedade e insônia severa, retornou de férias e foi demitida no mesmo dia.
Ela se junta a milhares de brasileiros, como a analista de dados Marcela Moreira, que relata que o esgotamento foi tão grande que, ao ser demitida, sentiu “alívio físico imediato”, pois seu corpo entendeu que “a pressão tinha acabado”.
Ela resume a armadilha silenciosa do século XXI: “Aquilo estava tão normalizado que eu achava que era só o meu estado padrão de sobrevivência”.
Dados como os 823% de aumento não são um acaso, mas uma consequência direta de um modelo de desenvolvimento que coloca a produtividade acima da vida.
FAQ Rápido
1. O que muda na prática com a nova NR-1 a partir de 26 de maio?
A nova NR-1 obriga empresas de todo o Brasil a incluírem os riscos psicossociais — como metas abusivas, assédio moral, jornadas excessivas e falta de autonomia — no seu Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) . A partir da vigência, auditores fiscais do trabalho poderão aplicar multas que chegam a R$ 6.708,08 por trabalhador exposto caso identifiquem negligência na gestão desses riscos. A medida estava prevista para maio de 2025, mas foi adiada para 26 de maio de 2026 após pressão de entidades empresariais.
2. Um trabalhador afastado por burnout tem direito à estabilidade no emprego?
Sim, mas apenas se o afastamento for concedido como benefício acidentário (B91) , o que exige a comprovação do nexo causal entre a doença e o trabalho. Nesse caso, a Lei nº 8.213/91 garante estabilidade de 12 meses após o retorno às atividades. Mesmo quando o benefício é concedido como comum (B31), a Justiça do Trabalho pode reconhecer esse direito mediante provas robustas — como e-mails, mensagens, testemunhas e laudos periciais.
3. A escala 6×1 pode ser considerada um fator de risco para burnout?
Estudos acadêmicos e especialistas apontam que a jornada com apenas um dia de descanso semanal está diretamente associada a níveis elevados de estresse, ansiedade e depressão. A psicóloga e pesquisadora Fernanda Settecerze Rodrigues, em pesquisa que ouviu 81 trabalhadores de sete estados, concluiu que a rotina da escala 6×1 cria um ambiente propício para o desenvolvimento do esgotamento profissional crônico. O sociólogo Marcos Torati, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, define essa escala como “trabalho alienado”, movido pela necessidade de sobrevivência e não por realização pessoal.
A batalha contra o burnout, portanto, não se vence com palestras motivacionais, mas com a mudança estrutural das relações de trabalho e a coragem de enfrentar pautas como a redução da jornada sem redução de salário – um passo fundamental para a construção de uma democracia plena e de uma sociedade mais justa.
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