| Brasília (DF)
20 de agosto de 2026
O advogado de Lulinha, Marco Aurélio de Carvalho, cobra a explicação prometida por Flávio Bolsonaro para os R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro destinados ao filme Dark Horse, financiamento que o candidato havia prometido detalhar e que permanece cercado de perguntas.
O candidato disse nesta quinta-feira (20/ago) que a questão é “página virada”. A justificativa, porém, não elimina as dúvidas sobre a origem, a circulação e a aplicação dos recursos. A própria documentação apresentada pela produtora não detalha, com notas fiscais e recibos, todos os gastos apontados na perícia.
Enquanto isso, André Mendonça e a Polícia Federal estão em frentes de investigação que envolvem o caso. Mendonça autorizou inquérito sobre os repasses relacionados ao filme, enquanto a PF também apura outros elementos envolvendo o financiamento da produção.
É nesse ponto que surge uma questão política inevitável: por que o caso Dark Horse, que envolve dezenas de milhões de reais e uma relação financeira entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, não produz até agora o mesmo fluxo de informações públicas e de manchetes que as investigações envolvendo Lulinha?
A pergunta ganha novo peso diante do que ocorreu nesta quinta-feira. O advogado Marco Aurélio de Carvalho, que atua na defesa de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, afirmou em entrevista à GloboNews Mais que os inquéritos envolvendo o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já teriam sido arquivados caso ele não tivesse relação de parentesco com o presidente.
“Se o Fábio Luís não fosse filho do presidente Lula, se fosse com qualquer uma das pessoas que estão nos acompanhando, esse inquérito teria sido arquivado. Ele carrega o peso de um sobrenome”, afirmou Carvalho.
A declaração ocorreu depois de a Procuradoria-Geral da República defender que os inquéritos envolvendo Lulinha sejam enviados pelo Supremo Tribunal Federal à primeira instância. Segundo a defesa, a PGR argumentou que os procedimentos não envolvem investigados com foro por prerrogativa de função e, portanto, não haveria razão para que permanecessem no STF.
Lulinha é alvo de três inquéritos autorizados pelo Supremo a pedido da Polícia Federal, surgidos a partir de desdobramentos da Operação Sem Desconto, que apura fraudes envolvendo descontos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Dois dos inquéritos estão sob relatoria de André Mendonça e o terceiro, de Flávio Dino.
O empresário e filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não é acusado de envolvimento no esquema de descontos indevidos no INSS. Ele é investigado pela PF por suspeitas de tráfico de influência e corrupção em três inquéritos diferentes. Segundo as informações divulgadas sobre as investigações, uma das apurações envolve suspeitas relacionadas a negociações para a possível comercialização de medicamentos à base de canabidiol com o Ministério da Saúde; o contrato mencionado pelos investigadores não chegou a ser firmado.
Carvalho afirmou que recebeu a posição da PGR “com alegria”, mas “sem surpresa”, e disse que a defesa sustenta há meses que as investigações deveriam deixar o STF.
O advogado disse ainda que Lula não deseja tratamento diferenciado para o filho, mas não poderia ser submetido a um tratamento mais rigoroso em razão do parentesco com o presidente. Carvalho ainda fez uma comparação com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
“O Bolsonaro mudou os superintendentes da Polícia Federal para proteger os seus filhos, para proteger o 01, 02, 03 e o 04, para proteger a sua família, primos e afins, para proteger os seus amigos e os milicianos com os quais ele governou o país”, declarou Carvalho. A afirmação é do advogado e integra sua argumentação em defesa de Lulinha.
Durante a entrevista, Carvalho também afirmou que a repercussão em torno da posição da PGR estaria relacionada, na avaliação dele, a uma tentativa de dar uso político ao caso. Essa é, portanto, a interpretação apresentada pela defesa, e não uma conclusão estabelecida pelas autoridades responsáveis pelas investigações.
A diferença de tratamento alimenta uma percepção incômoda: a de que, enquanto as suspeitas relacionadas ao entorno de Lula são continuamente expostas e exploradas politicamente, o caso que envolve diretamente o candidato do PL à Presidência permanece em segundo plano.
Não é possível afirmar, sem provas, que exista uma operação deliberada para proteger Flávio Bolsonaro ou para desgastar Lula até a eleição de outubro. Mas é legítimo questionar se a condução e a exposição pública dos diferentes casos estão ocorrendo de maneira equilibrada.
A percepção pública se torna ainda mais forte diante do contraste: de um lado, sucessivas notícias sobre investigações envolvendo Lulinha, com novos elementos divulgados pela Polícia Federal; de outro, um candidato que havia prometido apresentar explicações detalhadas sobre dezenas de milhões de reais e agora declara que o assunto é uma “página virada”.
E há um detalhe institucional que amplia a controvérsia: enquanto a PGR defende que as investigações sobre Lulinha deixem o Supremo por não haver investigados com foro privilegiado, André Mendonça, segundo relatos publicados nesta quinta-feira, tende a manter os inquéritos na Corte. O argumento atribuído ao entorno do ministro é que conversas presentes nas investigações mencionariam pessoas com foro.
É nesse contraste que se forma, para parte do público, a impressão de que um lado permanece sob escrutínio permanente, enquanto o outro parece contar com uma proteção institucional capaz de manter determinadas perguntas longe do centro do debate político.
Não se trata de afirmar que André Mendonça tenha “blindado” Flávio Bolsonaro — essa conclusão exigiria evidências que não estão estabelecidas. Trata-se de registrar uma percepção política que ganha força quando diferentes investigações, envolvendo personagens diretamente ligados à disputa presidencial, recebem tratamentos e níveis de exposição aparentemente distintos.
As mídias parecem cooperar com essa assimetria simplesmente ao reproduzir com muito maior intensidade determinadas suspeitas e relegar outras a espaços menores. Isso não exige necessariamente uma conspiração coordenada. Pode resultar de escolhas editoriais, critérios de noticiabilidade e da própria dinâmica eleitoral.
O resultado, entretanto, é o mesmo para o público: fica a impressão de que um lado é permanentemente colocado sob os holofotes, enquanto o outro consegue transformar um caso ainda cercado de perguntas em uma “página virada”.
À medida que a eleição se aproxima, a pergunta deixa de ser apenas quem deve explicações. Passa a ser também quem está sendo cobrado por elas — e quem não está.
E, sobretudo, se a exposição desigual dessas investigações está permitindo que casos ainda não esclarecidos sejam utilizados como instrumentos de desgaste eleitoral contra um lado, enquanto questões igualmente relevantes envolvendo o adversário permanecem em segundo plano.
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