A guerra oligárquica da escassez de água: Covid-19 (idosos) versus Água (crianças)

01/04/2020 0 Por Adriana Farias

Enquanto o mundo assiste perplexo ao vírus Sars-Cov-2 (Covid-19) devastar os idosos sem dó nem piedade, com indícios de uma segunda onda de devastação na China nos próximos dias, os oligarcas (grandes corporações, militares e capitalistas) travam uma luta na disputa hegemônica contra toda uma sociedade carente para reinarem soberanos na posse, cada vez mais difícil, de uma fonte limpa de água.

Sem água, empresas como Coca-Cola, Nestle, Monsanto, Bayer não sobrevivem; o exército americano não sobressai perante o exército mundial e os capitalistas rentistas não investem nas ações das grandes corporações.

Enquanto isso, do outro lado do espectro, cerca de oito milhões de crianças, no mundo, com idade inferior a 5 anos, morrem por falta de acesso à água ou ao saneamento básico. Estima-se que em 2030 a disponibilidade de água própria para consumo será 40% menor que o necessário para o mundo. Essa mortalidade infantil pouco importa aos grupos sociais dominantes, como nos mostra Riccardo Petrella, em seu artigo, traduzido por Simone Páz Hernandez, no Outras Palavras.

“Começa a anoitecer. Hoje morreram mais de 21 mil crianças com menos de cinco anos no mundo inteiro — são 7,9 milhões por ano. Entre os principais motivos, estão as doenças causadas pela falta de água potável, por um saneamento inadequado ou por beber água poluída. Há muitos anos, a emergência da saúde relacionada à água vem preocupando a todos, mas os grupos dominantes, aqueles que têm o poder de decidir, não parecem considerar essencial e urgente tomar medidas para mudar a situação.

Certamente parecem saber, segundo seu discurso, que o problema é sério e de que em 2030 a disponibilidade de água própria para consumo humano será 40% menor do que o necessário para o mundo, como prevê a ONU. No entanto, dão a impressão de que estão esperando a escassez de água atingir níveis ainda mais dramáticos, no limite da irreversibilidade, para intervir — ainda que em pânico e em cada país por conta própria, de forma errática e improvisada.

De fato, a mortalidade infantil provocada por falta de água e de saneamento básico pouco importa aos grupos sociais dominantes, para além das declarações retóricas sobre as circunstâncias. Se realmente se importassem, teriam resolvido o problema há décadas. Estamos testemunhando um duplo ato de expropriação e de mistificação da segurança da água, pelas três “potências mundiais” que colonizaram a vida na Terra, especialmente nos últimos 70 anos.

Refiro-me, em primeiro lugar, ao poder global de grupos e instituições que tomam decisões em nome dos princípios da sociedade capitalista. Atualmente, parece normal que os maiores consumidores, predadores e exploradores de água do mundo — tais como Nestlé, Coca Cola, Pepsi Cola, Danone, Unilever, Syngenta, Bayer, Monsanto, Bouygues, Suez, Veolia, Amazon, Microsoft, Apple, Facebook, Google, Total, Shell, Exxon, Rio Tinto, Glencore, General Electric, Boeing, CityCorp, BNP, entre outros — tenham se autoproclamado os principais defensores da água e protagonistas do gerenciamento de medidas e definições para promover a segurança hídrica.

Para eles, a segurança da água significa segurança econômica do capital mundial, o que envolve a criação de condições favoráveis (regras, financiamento, mercados) para garantir que a água necessária, em sua devida quantidade e qualidade, seja amplamente acessível e utilizada para sustentar suas atividades. Caso contrário, afirmam, não haveria mais crescimento econômico, riqueza, bem-estar, qualidade de vida.

Semear o medo da queda do PIB e do consumo (imagine um mundo sem Nestlé e Coca Cola, Toyota e BMW, Amazon e Microsoft?) tem sido, até agora, a principal ferramenta por meio da qual os grandes poderosos do capitalismo global expropriam o valor da segurança e da vida da água. Isto não ocorre porque seus líderes sejam pessoas cruéis por natureza, mas porque agir dessa forma está dentro da lógica esperada de uma sociedade capitalista. Isso tem sido comprovado em todas as tentativas fracassadas de “humanizar” o capitalismo ou dar a ele “um rosto mais humano” ou “uma cor vermelha, verde, azul”.

Em segundo lugar, existem os grupos e instituições que discursam e agem em nome de uma ordem militar mundial, um poder cada vez mais ligado aos “avanços” tecnológicos e à inteligência artificial. Esse poder não precisa de nenhuma legitimação externa ou “pactos constitucionais” entre seus membros. A única coisa que precisa para agir é a suposta legitimidade da “ciência para a segurança”. Inclusive, é capaz de continuar gastando trilhões de dólares por ano em destruição, só para garantir sua existência — tudo isso sem provocar revoltas populares no mundo.

O antigo provérbio romano “se quer paz, prepare-se para a guerra” já foi incorporado e transformado em “se quer paz, faça a guerra!”. A indústria militar dos EUA, simplificada por seu proprietário e principal beneficiário, o Exército norte-americano, é o fator mais poderoso. Gasta quase 4 vezes mais que a China, 10 vezes mais que a Rússia, 25 vezes mais que a Itália. Por décadas, o Exército dos EUA foi a única instituição que se capacitou a analisar e descrever todos os países e recursos do mundo, segundo o grau de impacto nos riscos de conflitos (por natureza e probabilidade) com os Estados Unidos e nas ameaças à sua segurança. É também a única instituição capaz de basear as medidas da segurança militar estadunidense em sua segurança hídrica. Veja o relatório especial de 2012, Global Water Security, compilado pela Comunidade de Inteligência dos EUA, mediante solicitação do Departamento de Estado.

Se a escassez de água piorar e se globalizar, alguém aposta que os militares norte-americanos agirão para garantir aos Estados Unidos o acesso aos aquíferos ainda abundantes e não contaminados do mundo? A ordem militar mundial dos EUA redefiniu a segurança da água como base para a segurança econômica do país. Esta é a expressão suprema da segurança militar dos EUA. Atualmente, é a expropriação mais violenta e explícita da segurança hídrica à qual a comunidade global é submetida — com o consentimento total das autoridades públicas de Estado.

Por último, refiro-me à expropriação e mistificação da segurança levada a cabo pelas oligarquias “locais” públicas e privadas de cada país — intimamente conectadas entre si mundo afora. Elas não só colonizaram e sacrificaram a segurança da água em nome da “segurança nacional”, mas também os povos e cidadãos. Isso nada mais é do que a segurança dos interesses e poderes dessas oligarquias. O adjetivo “nacional” não passa de uma máscara utilizada pelos grandes grupos empresariais, com grande eficácia e oportunismo, porque nos últimos séculos a identidade “nacional” tem ganhado um forte sentimento de pertencimento coletivo — e assim, cinicamente, eles abusam desse truque para legitimar seu poder. Basta lembrar da poderosa força motriz por trás do imperativo de “competitividade nacional” que, desde os anos 70 fez centenas de milhões de habitantes no mundo engolirem dor, miséria e desastre, enquanto isso era um mero dispositivo para defender os interesses das oligarquias capitalistas e militares “locais” mais fortes.

É hora de virar o jogo e mobilizar a humanidade para a necessidade urgente de construir uma segurança universal dos cidadãos, livre do poder destrutivo do capitalismo global, da ordem militar mundial e das oligarquias nacionais-corporativas. Com esse fim, é essencial começarmos — em conjunto com a luta pela saúde mundial — pela segurança pública e universal da água, já que ela é o primeiro bem público, comum e global essencial à vida. Dali nasce a proposta de criar um Conselho de Segurança da Água para os Cidadãos, que está sendo examinado na Itália, Bélgica, França, Brasil e Argentina. Vamos discuti-lo na primeira reunião sem fronteiras em Belgrado, nos dias 18 e 19 de junho.”

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