Jair Bolsonaro nĂŁo tinha chegado nem sequer Ă metade de seu discurso e meu WhatsApp, Signal e E-mail jĂĄ estavam sendo bombardeados por mensagens de diplomatas e representantes de entidades internacionais, todos chocados com o que estavam ouvindo
Leia a matéria e assista às imagens do discurso a seguir
Por Jamil Chade
Uma das mensagens, particularmente dura, veio de um representante que faz parte da cĂșpula das NaçÔes Unidas: “Ele (Bolsonaro) acabou de perder a Ășltima chance de ser respeitado”. Em outra mensagem, um mediador perguntava: “HĂĄ algo mais extremo que essa visĂŁo de mundo?”.
Enquanto ele discursava, a cĂąmera oficial da ONU percorria o salĂŁo, apenas para registrar rostos fechados, inclusive o da chanceler Angela Merkel.
Depois do vexame do discurso de seis minutos em Davos, em janeiro, de uma participação apagada no G-20 e de ofensas a lĂderes internacionais, Bolsonaro tinha mais uma chance de mostrar ao mundo que poderia ser moderado e, assim, começar a recuperar seu respeito internacional. Fracassou rotundamente.
Dentro da ONU, nĂŁo foram poucos os comentĂĄrios diante de seu discurso. Era esperado do Brasil um sinal de que o paĂs estava pronto a fazer parte do esforço internacional para lidar com desafios globais. Mas Bolsonaro chamou a atenção ao repetir em vĂĄrias ocasiĂ”es as palavras soberania e pĂĄtria.
O presidente, sem dĂșvida, fez questĂŁo de reposicionar o Brasil no mundo e na ONU. Mas nĂŁo da forma que muitos na entidade esperavam.
A ONU, segundo ele, nĂŁo representa interesses globais. Mas Ă©, sim, um espaço de naçÔes soberanas. “NĂŁo estamos aqui para apagar nacionalidades em nome de interesses globais”, disse. E emendou um alerta de que o Brasil nĂŁo aceitarĂĄ que haja uma mudança na ONU.
Uma forma de dizer: não mexam comigo. No fundo, o que se viu no palco foi um presidente com um discurso ainda mais radicalizado, intolerante e nacionalista que nas demais reuniÔes internacionais.
Militarismo, Deus, elogios Ă polĂcia e ameaças substituĂram palavras como sociedade civil, espaço democrĂĄtico, diversidade, multilateralismo e o sistema internacional. “Acho que nunca começamos nosso trabalho nesse tom”, lamentou uma fonte.
No lugar de se comprometer com metas ambientais, Bolsonaro preferiu partir para o ataque e rejeitou a tese de que a AmazĂŽnia seja um patrimĂŽnio da humanidade. Sem citar nomes, fez alusĂŁo ao “espĂrito colonialista” da França e preferiu garantir que a AmazĂŽnia estĂĄ “praticamente intocada”, gerando inĂșmeros comentĂĄrios.
Fustigou Raoni, acusado de ser usado como “peça de manobra” em uma guerra pela floresta, e manobrou a prĂłpria Constituição. “Bolsonaro distorce argumentos sobre autonomia dos povos originĂĄrios para negar direitos que a prĂłpria Constituição garante”, disse Camila Asano, coordenadora de programas da Conectas Direitos Humanos.
“Categoricamente, anuncia que nĂŁo promoverĂĄ novas demarcaçÔes de terras indĂgenas. Ă extremamente grave que o presidente tenha usado a Assembleia Geral da ONU como palanque para atacar uma liderança indĂgena e ameaçar a segurança jurĂdica das terras ianomĂąmis e Raposa Serra do Sol, que jĂĄ estĂŁo demarcadas”, afirmou.
Bolsonaro atacou ONGs e a imprensa internacional, proliferou teorias da conspiração e fez um discurso com a forte marca da demagogia de um populista que duvida do poder da democracia.
Bolsonaro tambĂ©m surpreendeu com sua nova apologia Ă s ditaduras do Cone Sul, desta vez feita sem citar nomes. Experientes embaixadores brasileiros admitiram que o que ele fez no palco da ONU nĂŁo tem precedentes na era democrĂĄtica do paĂs e poderia se igualar Ă apologia a um torturador que ele fez em pleno Congresso Nacional, ainda quando era deputado.
Ele justificou o Golpe de Estado de 1964 e as demais ditaduras na regiĂŁo, num tom radicalmente oposto ao que disse JosĂ© Sarney quando falou no mesmo palco, nos anos 80. Naquele momento, ele lembrou que o Brasil “saiu de uma longa noite autoritĂĄria” e se apresentava ao mundo como uma democracia.
Ao citar socialistas cubanos, ele indicou que “tentaram mudar o regime brasileiro” e de outros paĂses. “Civis e militares foram mortos e outros tantos tiveram reputação destruĂdas. Mas vencemos aquela guerra e resguardamos nossa liberdade”, declarou.
Ao dizer essa frase, ele simplesmente cuspiu sobre a entidade, que o havia criticado por sua apologia Ă s ditaduras. Um dos representantes da ONU exclamou: “nĂŁo posso acreditar no que estou ouvindo”.
Bolsonaro fez um discurso de guerra, repleto de termos e inimigos dos anos 60 e 70: a ameaça socialista e a necessidade de impedir que nossa soberania seja questionada.
Mas, acima de tudo, ofendeu a muitos naquela sala. Num trecho comentado por vĂĄrios diplomatas, ele alfinetou os demais governos e entidades, alertando que eles tinham aplaudido os presidentes brasileiros que, por ali, tinham passado.
Sua insistĂȘncia em citar a BĂblia, os cristĂŁos e Deus foram vistas com cautela, num sinal de que tentarĂĄ redirecionar a agenda internacional com base nesses valores. “Ele esqueceu que preside sobre um paĂs diverso”, disse um dos diplomatas.
Ele ainda chocou ao falar das vĂtimas entre os policiais e nĂŁo citar os nĂșmeros de mortos pela polĂcia no Brasil.
Elogios? Apenas para seu mentor, Donald Trump.
Nos minutos que esteve no palco do mundo, nĂŁo deu garantias, nĂŁo construiu pontes, nĂŁo reconheceu os problemas do paĂs.
Usando um tom de voz desafiador, como se o Brasil estivesse em guerra e como se o microfone nĂŁo estivesse funcionando, Bolsonaro escolheu apenas os inimigos imaginĂĄrios, enquanto os reais problemas foram ignorados.
Em Nova York, ele apenas confirmou a visĂŁo ideolĂłgica da polĂtica externa e do que serĂĄ seu governo. E agora o mundo inteiro ouviu, em todas as lĂnguas oficiais da ONU.
“Quando serĂĄ a prĂłxima eleição?”, me escreveu um experiente embaixador asiĂĄtico.
Jamil Chade é correspondente do UOL na Europa hå duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra
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*QUANTA PODRIDĂO. HOJE ME FALTA ESPERANĂA…*
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