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Menino brasileiro tem dedos amputados em Portugal após ataque xenófobo em escola

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    Um menino
    Um menino de 9 anos teve seus dedos decepados após sofrer um episódio de violência em uma escola em Portugal / Imagem reprodução/CNN Portugal


    Criança sofreu hostilidades e represálias por parte de moradores da região de Cinfães e família precisou se mudar às pressas em busca de segurança – Entenda essa escalada da violência no país contra a imigração brasileira e a onda de preconceito que choca o mundo lusitano



     

    Lisboa, 19 de novembro 2025

    A escalada da violência xenófoba em Portugal atingiu um novo e chocante patamar com o caso de um menino brasileiro de 9 anos que teve as pontas de dois dedos parcialmente amputadas após uma agressão dentro de uma escola pública no município de Cinfães, uma vila portuguesa localizada no Distrito de Viseu, na sub-região Tâmega e Sousa da região Norte.

    O caso, denunciado pela mãe da criança, Nívia Estevam, mobilizou a diplomacia brasileira e reacendeu o debate sobre o crescente preconceito contra imigrantes em território lusitano.

    O incidente ocorreu em uma escola do Agrupamento de Escolas da Cidadela. A família alega que o ataque foi motivado por xenofobia e racismo.

    Segundo a mãe, a criança vinha sofrendo bullying por ser brasileira e por sua aparência física, algo que teria sido reportado à escola, que minimizou a situação, chegando a dizer que “crianças mentem” em uma ocasião anterior.

    A versão oficial inicial da escola e da polícia local, no entanto, tentou classificar o ocorrido como um acidente, uma narrativa contestada pela família da vítima.

    Em Portugal, a notícia gerou mobilização. A Inspeção-Geral da Educação abriu um processo para averiguar as circunstâncias do incidente, e um inquérito interno foi instaurado para apuração dos fatos, segundo a CNN Portugal.

    A Comissão de Proteção de Criança e Jovens de Cinfães também informou que irá analisar a situação.

    A Embaixada do Brasil em Portugal agiu rapidamente, com o embaixador Raimundo Carreiro Silva enviando comunicações aos ministros da Administração Interna e da Educação, Ciência e Inovação de Portugal, exigindo esclarecimentos e informações sobre as providências tomadas, de acordo com portal português Observador.

    A criança, que passou por cirurgia e teve alta, está em recuperação e, devido às hostilidades e represálias por parte de moradores da região, a família precisou se mudar às pressas de bairro e de escola para buscar segurança.

    Onda de Ódio Não é Novidade

    O trágico incidente em Cinfães não é um caso isolado, mas o mais grave de uma série de ataques contra a comunidade brasileira. Nos últimos anos, os relatos de xenofobia em Portugal têm crescido exponencialmente.

    Dados apontam que, em anos recentes, as denúncias de xenofobia contra brasileiros cresceram mais de 500%, segundo balanço da Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial, citado pelo Observador.

    Casos emblemáticos, como as agressões a brasileiros na saída de casas noturnas no Porto e em Lisboa, que motivaram manifestações em 2023, ou a morte do brasileiro Jefferson Pinto após uma briga na capital de Portugal em 2022, evidenciam uma violência que se manifesta em diferentes esferas.

    Em um episódio anterior e simbólico, uma caixa com pedras foi encontrada na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, com a inscrição para serem atiradas em “brazucas”, termo pejorativo usado para brasileiros, divulgado pelo Remessa Online.

    Por Trás da Xenofobia:
    Fatores Econômicos, Sociais e Históricos

    A profunda pesquisa sobre o crescimento da xenofobia contra brasileiros em Portugal aponta para uma combinação complexa de fatores, ancorada principalmente em questões econômicas, sociais e históricas.

    Não há um único marco de “quando isso começou” de forma abrupta, mas sim uma intensificação do fenômeno nos últimos anos, impulsionada pelo aumento da imigração brasileira, que hoje representa a maior comunidade estrangeira em Portugal, com mais de 500 mil residentes, segundo a Agência para a Migração e Asilo (AIMA), conforme dados citados pela RedePT).

    Fator Econômico:
    Uma das principais alegações da retórica xenófoba, conforme analistas e historiadores citados pelo Canal DW, é o entendimento distorcido de que a vinda de imigrantes, especialmente para trabalhos menos qualificados, estaria barateando a mão de obra e dificultando o aumento dos salários para os portugueses. Essa visão culpa os imigrantes por problemas estruturais da economia portuguesa.

      1. Herança Colonial e Etnocentrismo: A relação histórica de metrópole e colônia entre Portugal e Brasil ainda reverbera. A Casa do Brasil de Lisboa (em relatório de 2021) e outros estudos indicam que o sentimento de superioridade advindo do etnocentrismo e eurocentrismo, herança do período colonial e da ditadura salazarista, contribui para a visão do brasileiro como um “povo inferior” ou “bárbaro”.
      2. Estereótipos de Gênero: As mulheres brasileiras, em particular, são alvo de forte estigmatização, frequentemente vistas de forma “extremamente sexualizada, como objetos sexuais” e acusadas de “roubar maridos”, o que revela uma sociedade ainda marcada pelo machismo e conservadorismo, conforme relatos de vítimas e análises do projeto social Brasileiras Não Se Calam (documentado pela BBC News Brasil).
      3. Discurso de Ódio e Redes Sociais: A propagação de mitos, estereótipos e fake news nas redes sociais tem sido um vetor importante para o discurso de ódio e a violência contra a comunidade brasileira.

    O caso do menino em Cinfães lança luz sobre a urgência de as autoridades portuguesas agirem não apenas no plano judicial, mas também no social e educativo, para conter a onda de intolerância que mancha a imagem de um país historicamente ligado ao Brasil.

    Xenofobia contra brasileiros em Portugal
    Denúncias sobem 833% em cinco anos e revelam ferida colonialista

    Retrato de Alexandr Wang discutindo o futuro da colaboração homem-IA, capturado por Ethan Pines para Forbes.

    As denúncias de xenofobia contra brasileiros em Portugal cresceram de forma dramática, registrando um aumento de 833% entre 2017 e 2022. Este fenômeno, que pode se manifestar de maneiras sutis ou diretas, como em vídeos recentes de agressão em aeroportos, é objeto de análise por especialistas que buscam entender as raízes da aversão à presença de imigrantes do Brasil.

    Portugal, com quase 11 milhões de habitantes, tem uma população brasileira estimada em cerca de 400 mil pessoas, o que representa cerca de 3,64%. Contudo, este número é provavelmente maior ao considerar pessoas em fase de regularização, aquelas em situação irregular ou com cidadania europeia.

    Raízes Históricas e Complexo de Superioridade

    Especialistas ouvidos pela DW Brasil apontam que a relação entre Brasil e Portugal é “no mínimo conturbada,” com raízes históricas no colonialismo. Historiadores indicam que existe uma “ferida histórica” que ainda sustenta velhos preconceitos, baseados na ideia ultrapassada de uma nação superior a outra.

    Portugal, que construiu sua identidade nacional baseada em um grande orgulho histórico, mantém uma visão ufanista que exalta as grandes navegações e romantiza o período dos chamados descobrimentos.

    O passado colonialista se traduz em um complexo de superioridade, sustentando a visão de que a coroa portuguesa foi responsável por trazer “as luzes da civilização europeia para o Brasil“. As colônias, incluindo o povo brasileiro, foram construídas na narrativa colonial como um povo inferior e bárbaro, uma relação de pós-dominação pós-colonial que ainda é muito forte.

    Outra herança que atrasa o reconhecimento do problema é o Luso-tropicalismo, uma teoria desenvolvida pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freire e utilizada pelo regime salazarista. Essa doutrina colocava os portugueses como um povo adaptável, que teria marcado presença nos países colonizados de forma mais pacífica, promovendo miscigenação e uma relação mais empática com os povos.

    No entanto, esta narrativa é vista como propaganda do regime e não corresponde à realidade. Ela leva à ideia, interiorizada por parte da população, de que “quase não haveria um problema de racismo em Portugal“.

    Discriminação no Cotidiano

    A intolerância manifesta-se em diversas esferas da vida dos imigrantes brasileiros:

    • Moradia: A dificuldade em encontrar um lugar para morar é um obstáculo inicial. Há relatos de anúncios de aluguel que explicitamente diziam ser “só para portugueses”. Há casos em que o aluguel foi negado a brasileiros após o locador identificar o sotaque, mas foi oferecido a um homem português.
    • Emprego e Salário: No mercado de trabalho, a discriminação pode ser direta, com recusas de contratação. Há uma diferença salarial entre portugueses e brasileiros que desempenham a mesma função que chega a quase 17%. Esta diferença, segundo os relatos, não se justifica, a não ser pela discriminação.
    • Microagressões: Além de xingamentos e agressões, existe o que se chama de microagressões, comportamentos que causam mal-estar, mas que são vistos como “muito pequenos” e tendem a ser desconsiderados. Exemplos incluem comentários sobre o sotaque, a correção do idioma (“isso aqui tá escrito em brasileiro”) e perguntas como “Quando é que você volta pro seu país?”.

    Estereótipos de Gênero e Cultura

    Os brasileiros em Portugal enfrentam fortes estereótipos. A mulher brasileira é frequentemente hipersexualizada, sendo associada ao mercado do sexo, uma imagem que não é vista tão fortemente em relação a outros imigrantes. Isso pode se refletir em assédios ou situações desconfortáveis. Já os homens brasileiros são tidos como se fossem “sempre malandro, enganador” ou que não querem trabalhar.

    Esses arquétipos remontam a obras literárias, como O Cortiço (1890), de Aluísio de Azevedo, onde o operário português Jerônimo, honesto e trabalhador, “se torna brasileiro” ao abandonar a família pela sensual Rita Baiana, entregando-se aos costumes locais e se tornando preguiçoso.

    Embora haja uma apreciação de certos aspectos da cultura brasileira, como a música (51% do Top 10 semanal do Spotify em 2022 era de música brasileira) e as telenovelas, esse interesse é limitado e muitas vezes estereotipado. É como se coubesse ao Brasil apenas “entreter,” ocupando o papel que historicamente coube às “pessoas subalternas fazerem“.

    O Mito do Imigrante e a Necessidade de Mão de Obra

    Um dos argumentos utilizados por aqueles que se opõem à imigração é de cunho econômico: o entendimento de que a chegada de imigrantes menos qualificados impede o aumento salarial. Contudo, a economia de Portugal está em crescimento, e o país, que possui uma população extremamente envelhecida, enfrenta escassez de mão de obra em setores cruciais como turismo, construção civil, agricultura e gastronomia.

    O “mito do imigrante que não contribui” também é refutado por dados. Em 2020, os brasileiros contribuíram com 350 milhões de euros para a Segurança Social de Portugal, um valor superior ao de todos os estrangeiros da União Europeia juntos, e utilizaram menos da metade desse montante em prestações de seguro-desemprego ou subsídios por doença.

    Ações Atuais

    O Observatório do Racismo e Xenofobia, criado no início de 2023, reconhece a existência de um racismo estrutural em Portugal vinculado à xenofobia. Essa instituição trabalha em parceria com o ministério da Igualdade Racial brasileiro. No entanto, as políticas de imigração são historicamente reativas e pontuais, mostrando que Portugal demorou a se reconhecer como um país com problemas de discriminação e racismo estrutural.

    O enfrentamento a este problema enraizado na cultura certamente não se resolverá rapidamente, mas o aumento das denúncias indica uma maior sensibilização para o tema, o que é visto como um primeiro passo.



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