Os limites da ignorabilidade condicional na pós-estratificação e as implicações técnicas para a inferência eleitoral em rodadas de recrutamento digital aleatório
Brasília (DF) · 25 de fevereiro de 2026
A rodada de pesquisa eleitoral divulgada nesta quarta-feira (25/ fev) apresenta aprovação presidencial em 46,6%, desaprovação em 51,5% e empate técnico no segundo turno hipotético (46,2% × 46,3%).
Os dados provêm de amostra coletada por recrutamento digital aleatório (Random Digital Recruitment – RDR), com aplicação posterior de pós-estratificação iterativa (iterative proportional fitting / raking) sobre covariáveis conhecidas: sexo, faixa etária, nível educacional, renda familiar, macrorregião e comportamento eleitoral anterior (voto no segundo turno de 2022).
O RDR, por recrutar respondentes organicamente durante a navegação rotineira na web, está intrinsecamente exposto a dois vieses clássicos da metodologia de surveys:
1. Viés de auto-seleção inicial (self-selection bias / selective engagement bias): indivíduos com maior intensidade afetiva negativa em relação ao incumbente (rejeição forte, raiva política) exibem taxas de resposta mais elevadas, configurando viés de engajamento seletivo (selective engagement bias).
2. Viés de não-resposta diferencial (differential nonresponse bias): eleitores alinhados ao governo atual apresentam maior propensão à recusa, fenômeno denominado nonresponse bias motivated by status-quo satisfaction ou complacency bias (Groves et al., 2009; Bethlehem, 2015; AAPOR Standard Definitions). Esse padrão é agravado pela complacência incumbente, na qual a percepção de consolidação do resultado eleitoral reduz a motivação para participar.
A combinação desses vieses gera, no fluxo bruto de respostas, sobrerrepresentação relativa de posições oposicionistas e sub-representação da base de apoio ao incumbente.
A correção aplicada — pós-estratificação iterativa multidimensional — ajusta os pesos até minimizar desvios nas distribuições marginais das covariáveis de controle, incluindo o voto passado de 2022.
Trata-se de técnica estatisticamente consolidada, capaz de mitigar vieses amostrais e não amostrais quando a suposição de ignorabilidade condicional (conditional ignorability) se mantém: dada as covariáveis, a probabilidade de resposta não estaria associada à variável de interesse (preferência atual ou intensidade de apoio).
Contudo, quando a não-resposta permanece correlacionada com a opinião política mesmo após o controle das covariáveis — violando parcialmente a ignorabilidade condicional —, a ponderação corrige apenas de forma incompleta.
A literatura de survey methodology documenta que, em contextos de alta polarização afetiva, esse resíduo pode levar a subestimação modesta da força real da base incumbente nas estimativas pontuais (ex.: discrepâncias observadas em ciclos eleitorais de 2016 nos EUA, 2018 no Brasil e pleitos europeus recentes).
Institutos que utilizam RDR e raking reconhecem explicitamente esses desafios em suas notas metodológicas, destacando o Continuum of Resistance model (Lin & Schaeffer, 1995; Kypri et al., 2011) — no qual respondentes tardios aproximam-se de não-respondentes — e a necessidade de monitoramento granular de padrões de não-resposta para refinamento das ponderações.
É possível que o viés de não-resposta diferencial motivado por complacência incumbente, combinado ao viés de auto-seleção inicial, tenha exercido influência nesta própria rodada de fevereiro de 2026. Quando eleitores alinhados ao governo atual optam por não responder por considerarem o cenário eleitoral já consolidado, o fluxo bruto de respostas pode apresentar uma sub-representação relativa dessa base — mesmo após a aplicação rigorosa da pós-estratificação iterativa e o controle pelo voto de 2022.
Embora a técnica de raking mitigue o desequilíbrio, a violação parcial da ignorabilidade condicional (quando a decisão de participar permanece correlacionada com a preferência atual) pode deixar um resíduo que, em contextos de alta polarização, resulta em estimativas pontuais ligeiramente mais apertadas do que a distribuição real do eleitorado.
Esse alerta técnico não é especulação abstrata: ele serve como sinal de precisão para quem deseja compreender os mecanismos por trás dos números divulgados. A pesquisa de 25 de fevereiro pode estar refletindo, em alguma medida, exatamente essa dinâmica — e, ao mesmo tempo, oferece ao eleitor uma vantagem estratégica clara: a consciência de que sua participação ativa tanto nas sondagens quanto nas urnas é o fator que corrige, na prática, os limites inerentes à inferência amostral.
Responder prontamente a convites legítimos de pesquisa atua como mecanismo ativo de redução do viés de engajamento seletivo inicial, contribuindo para que o retrato agregado da opinião pública se alinhe mais fielmente à distribuição real do eleitorado. Garantir o comparecimento às urnas em 6 de outubro de 2026 (e no eventual segundo turno) constitui, porém, o vetor definitivo de superação de qualquer viés residual.
Enquanto as sondagens são estimativas sujeitas a erros amostrais, de cobertura e de não-resposta, o resultado eleitoral é determinado exclusivamente pela presença física e pelo voto depositado — sem ponderação possível. O eleitor que internaliza esses princípios transforma a compreensão técnica em ação consciente: participa das pesquisas com a disciplina de quem sabe que cada resposta refina o debate coletivo, e reserva a presença nas urnas como o ato irrevogável que materializa preferências.
Em disputas decididas por margens estreitas — como as atuais —, o futuro político não se define apenas pelo que as ponderações revelam hoje, mas pelo que as urnas registram quando cada cidadão decide que sua voz não pode ser substituída por nenhuma correção estatística. A precisão técnica convida à mobilização serena e inexorável. Ao responder quando chamado e comparecer quando convocado, o resultado real emerge da soma dessas escolhas deliberadas.

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