Morte de especialista em engenharia elétrica junto com os filhos em Teerã coincide com reportagem sobre contatos secretos americanos com Mohammad Bagher Ghalibaf, levantando suspeitas de estratégia para moldar liderança no Irã após o conflito
Brasília (DF) · 23 de março de 2026
Fontes iranianas relataram nesta segunda-feira (23/mar) a morte do Dr. Saeed Shamghadri, professor associado da Faculdade de Engenharia Elétrica da Iran University of Science and Technology (IUST) , junto com seus filhos Mohammad e Reyhane.
O incidente ocorreu nas primeiras horas do dia, em um ataque aéreo atribuído ao “inimigo americano-sionista” contra a residência da família na capital Teerã.
De acordo com o portal Iran Press, o caso é descrito como “ataque terrorista e criminoso”. A publicação enquadra o episódio como o mais recente de uma “longa série de assassinatos direcionados contra cientistas e acadêmicos iranianos”, com o objetivo de “interromper os avanços científicos e nucleares” do país.
“O assassinato de Dr. Shamghadri é o mais recente em uma série de operações de ataques israelenses”, destaca o veículo, citando o histórico de ações semelhantes desde 2007, incluindo as mortes de figuras como Mohsen Fakhrizadeh.
Do lado israelense, não há confirmação ou comentário imediato sobre este incidente específico. Apenas a informação de que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou em 12 de março que ataques de Israel eliminaram “um cientista nuclear iraniano de alto escalão”, com o objetivo explícito de impedir o avanço do programa nuclear e de mísseis de Teerã.
A estratégia israelense, que inclui strikes contra infraestrutura nuclear, é apresentada como medida preventiva contra a ameaça atômica iraniana.
O episódio se insere no contexto da guerra iniciada em fevereiro de 2026, com Israel e Estados Unidos realizando operações contra alvos iranianos, incluindo instalações nucleares e comandantes.
Fontes iranianas, historicamente, classificam tais ações como “terrorismo de Estado” e prometem retaliação proporcional.
Paralelamente, o jornal Politico e reportagens complementares da Axios revelaram que o governo dos Estados Unidos avalia discretamente o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf (conhecido como Qalibaf), como “potencial parceiro” e até possível liderança no pós-guerra.
Um oficial israelense confirmou à Axios que enviados americanos, incluindo Steve Witkoff e Jared Kushner, mantiveram contatos com Ghalibaf.
O presidente Donald Trump mencionou conversas com uma “pessoa principal”, mas se recusou a revelar o nome “por medo de que ele fosse morto”, conforme reportado pela Political Wire (citando Axios).
Ghalibaf negou veementemente qualquer negociação: “Nenhuma negociação foi realizada com os EUA” , publicou no X, acusando a divulgação de ser “fakenews” para manipular mercados.
O que realmente está em jogo pode ser a própria alma política da República Islâmica. A reportagem do Politico expõe interpretações antagônicas, porém igualmente perturbadoras.
Por um lado, podemos estar da mais ousada operação de “arquitetura de regime” desde a Guerra do Iraque. A administração Trump não estaria mais negociando um cessar-fogo, mas sim orquestrando uma substituição de liderança.
A avaliação de Mohammad Bagher Qalibaf, o presidente do parlamento iraniano que fez a postagem no X, acima, como um potencial “líder do pós-guerra” explicaria as ações enigmáticas de Washington: o sigilo absoluto sobre o interlocutor para protegê-lo de ser “eliminado” por facções rivais e a sincronia entre a diplomacia e as operações militares de Israel.
Sob essa ótica, a reação frenética da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) – com desmentidos institucionais em série e acusações de “guerra psicológica” – seria na verdade uma tentativa desesperada de sobrevivência.
Qalibaf, um conservador pragmático com laços profundos com os bazaaris e a estrutura do Estado, representa uma ameaça existencial à facção linha-dura da IRGC que prometeu “martírio” e resistência a qualquer custo.
Neste tabuleiro, a reconstrução do Irã pós-guerra seria o prêmio, e Israel, ao alvejar cientistas nucleares simultaneamente à publicação da reportagem, estaria “moldando o cenário” para garantir que seus interesses vitais sejam salvaguardados por qualquer novo governo em Teerã.
No entanto, uma segunda interpretação dessa mesma conjuntura exibe uma forma diametralmente oposta. Washington “escolhendo” o próximo líder do Irã pode ser uma fantasia de projeção de poder ou, pior, uma tentativa desesperada de “salvar as aparências” após o fracasso em impor a agenda máxima de “devastação total”.
O governo Trump estaria avaliando Qalibaf não porque tem o poder de impô-lo, mas porque não encontra outro interlocutor viável diante da unidade institucional do Irã em rejeitar negociações diretas sob fogo.
A narrativa de “substituição de liderança” seria, ironicamente, uma confirmação do isolamento diplomático americano. Ao insistir que a IRGC está “tentando destruir um cenário de sucessão”, Washington estaria ignorando a realidade de que, no atual momento de crise existencial, a República Islâmica – mesmo com suas facções internas – tende a se unir contra o que percebe como uma interferência externa destinada a desmantelar o sistema.
Desta perspectiva, a “avaliação” de Qalibaf não é o prelúdio de uma transição orquestrada, mas sim um sintoma de que os Estados Unidos, sem linha direta com os tomadores de decisão finais em Teerã, estão atirando no escuro na esperança de encontrar um “parceiro” que não existe.
O que as duas análises convergem é no diagnóstico da gravidade do momento: a guerra já não é apenas sobre território ou armamentos.
O conflito entrou na fase de definição do futuro político do Irã. Seja pela via da substituição de regime imposta de fora ou pela consolidação de um sistema sitiado que expurgará qualquer figura vista como “comprometedora” com o inimigo, o desfecho desta guerra redefinirá não apenas o Oriente Médio, mas a própria viabilidade da diplomacia como ferramenta de contenção de potências.
O tempo dirá se Qalibaf será o arquiteto do novo Irã ou se a Guarda Revolucionária conseguirá enterrar essa possibilidade sob as ruínas da guerra psicológica que ela mesma denuncia.
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