Tarciana Medeiros, símbolo de superação, enfrenta racismo e sexismo, mas converte experiência em gestão humanizada e resultados. É a primeira mulher a presidir o Banco do Brasil em 215 anos
São Paulo (SP) · 10 de março de 2026
“O preconceito é permanente, a necessidade de se provar a todo instante é permanente e os olhares que duvidam da capacidade acontecem em várias instâncias […] às vezes beira a exaustão”, desabafou Tarciana Medeiros, presidenta do Banco do Brasil, durante participação no Roda Viva exibido na segunda-feira (9/mar), em homenagem à Semana da Mulher.
A executiva, que assumiu o comando da instituição centenária em janeiro de 2023, protagonizou uma das edições mais simbólicas do programa histórico da TV Cultura.
Pela primeira vez, o Roda Viva contou com bancada 100% feminina — composta por Camila Cetrone (Marie Claire), Fernanda Almeida (Forbes Mulher e Carreira), Juliana Rosa (Grupo Bandeirantes), Marta Beck (Bloomberg), Talita Moreira (Valor Econômico) e Viviane Moreira (conselheira executiva) —, além de alunas de jornalismo convidadas.
Tarciana Medeiros iniciou a conversa defendendo o uso do termo “presidenta”, dicionarizado desde o século XVII.
Segundo ela, a polêmica não deveria girar em torno da palavra, mas da raridade do cargo ocupado por mulheres: “O termo está correto […] a discussão precisa ser em como nós teremos mais presidentas”.
Ela relatou o impacto simbólico de sua posse e a decisão imediata de nomear mulheres para o Conselho Diretor, elevando a participação feminina para 40% — algo inédito em mais de 200 anos.
Destacou a nomeação de vice-presidentes em áreas tradicionalmente masculinas, como tecnologia (Marisa Reguini), rede de varejo (Carla Nesi) e vice-presidência corporativa.
Sobre solidão na liderança, confessou que, no início da carreira gerencial, convidava colegas para acompanhá-la em reuniões exclusivamente masculinas: “Eu não posso entrar sozinha lá, preciso de você”.
Questionada sobre retrocessos em políticas de diversidade (especialmente após movimentos nos Estados Unidos), Tarciana enfatizou a institucionalização no Banco do Brasil: comitês de diversidade equiparados em governança ao comitê de crédito.
Resultados concretos incluem salto de 4 para 12 diretoras/gestoras nacionais (200% em três anos) e de 7% para 36% em superintendências estaduais/regionais.
Ela vincula diversidade a ganhos econômicos: “Uma empresa que não tem diversidade […] não pode ter na sua composição aspectos não observados de diversidade”.
No campo econômico, abordou a crise no agronegócio em 2025 — inadimplência recorde em carteira historicamente saudável (95% adimplente) —, atribuída a conjunção de fatores: alavancagem na Selic baixa, guerra Rússia-Ucrânia, insumos caros e queda de preços de commodities.
O banco renegociou dívidas e contratou R$ 5 bilhões via MP 1314/2025.
Para 2026, projeta inflexão na curva de inadimplência a partir do segundo semestre e crescimento de 20% no lucro (guidance de R$ 20,7 bilhões).
Sobre IA, o Banco do Brasil foi pioneiro mundial ao aprovar política de governança em inteligência artificial, com mais de 1.800 modelos rodando e foco em ética para evitar vieses.
Na economia do cuidado — trabalho não remunerado que representa 8-12% do PIB —, defendeu o papel do banco na capilaridade (98% dos municípios) para oferecer educação financeira, crédito e políticas públicas que promovam independência das cuidadoras.
Finalizou reforçando que não fechou agências em sua gestão e aposta em modelos híbridos/físicos adaptados à demanda do cliente, como o “Ponto BB” em Recife e Belém.
A entrevista reforça Tarciana Medeiros como símbolo de superação: de feirante a presidenta, enfrentando racismo e sexismo, mas convertendo experiência em gestão humanizada e resultados.

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