Mobilização cultural une música e ativismo em defesa da accountability parlamentar, com atos simultâneos em capitais para barrar projetos de impunidade e perdão a extremistas
Brasília, 21 de setembro de 2025
Neste domingo ensolarado de 21 de setembro, a icônica Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, transforma-se em palco de resistência cultural contra retrocessos democráticos.
Às 15h, artistas renomados comandam um show gratuito no Posto 5, em um ato convocado por movimentos sociais, centrais sindicais e figuras da esquerda para repudiar a PEC da Bandidagem – apelido dado à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 3/2021, aprovada na Câmara dos Deputados na última terça-feira (16/set) e agora em tramitação no Senado Federal.
A medida, criticada por especialistas como um mecanismo de impunidade, exige aval do próprio Congresso para investigações e prisões de parlamentares, com votações secretas que blindam investigados por crimes como corrupção e obstrução de justiça.
O evento reúne um time estelar da música brasileira. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Djavan sobem ao trio elétrico para um momento histórico, prometendo interpretações que misturam canções clássicas com mensagens de alerta à sociedade.
Outros nomes confirmados incluem Marina Sena, Maria Gadú e o grupo Os Garotin, ampliando o apelo geracional do protesto.
“A PEC da Bandidagem tem que receber da sociedade brasileira uma resposta socialmente saudável. Uma manifestação de que grande parte da população brasileira não admite um negócio desses,” declarou Caetano Veloso nas redes sociais, ecoando o tom de urgência que mobilizou milhares.
“Ainda mais sendo, agora, às pressas, levado à frente esse projeto de anistia. Não pode ficar sem resposta!“, concluiu o artista, um dos precursores do Tropicalismo no Brasil, movimento cultural de vanguarda iniciado em 1967, que se tornou um marco de resistência durante a ditadura militar, sendo reprimido e encerrado em 1968 com a prisão de seus líderes, Caetano, Gil e Chico Buarque, que se exilaram em outros países.
A PEC da Bandidagem tem que receber da sociedade brasileira uma resposta socialmente saudável. Uma manifestação de que grande parte da população brasileira não admite um negócio desses. Ainda mais sendo, agora, às pressas, levado à frente esse projeto de anistia. Não pode ficar…
— Caetano Veloso (@caetanoveloso) September 18, 2025
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A iniciativa não se limita ao Rio. Paralelamente, atos semelhantes ocorrem em pelo menos 30 cidades e 22 capitais, coordenados por entidades como a CUT (Central Única dos Trabalhadores), a Frente Brasil Popular, a Frente Povo Sem Medo e o Fórum das Centrais Sindicais. Em São Paulo, a concentração é às 14h em frente ao MASP (Museu de Arte de São Paulo), na Avenida Paulista, com expectativa de superar os 8,8 mil participantes do ato de 7 de setembro, segundo dados do Monitor do Debate Político do Cebrap.
Outros pontos incluem Belo Horizonte (Praça Raul Soares, 9h), Porto Alegre (Arcos da Redenção, 14h), Salvador (Morro do Cristo, 9h) e Brasília (Museu da República, 9h), todos sob o lema “Domingo na Rua: Sem Anistia, Contra a Impunidade.”
A PEC da Bandidagem ganhou tração após votação noturna na Câmara, em meio a constrangimentos na base governista – 12 deputados do PT (Partido dos Trabalhadores) aderiram ao texto, gerando críticas internas e externas.
Paralelamente, o ato denuncia o PL da Anistia, aprovado em urgência na quarta-feira (17/set), que perdoaria crimes de golpistas do 8 de janeiro de 2023, incluindo invasões aos prédios dos Três Poderes.
Artistas como Anitta, Maria Bethânia, Matheus Nachtergaele, Marcos Palmeira, Dira Paes, Daniela Mercury e Gil do Vigor reforçaram o chamado via Instagram e X (antigo Twitter), com posts que acumularam milhões de visualizações.
Levantamento do Google Trends aponta a PEC como um dos temas mais buscados na última semana, ao lado da condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe.
O show em Copacabana atraiu um público diversificado, indo além de militantes habituais para incluir famílias e turistas sensibilizados pela causa.
Segundo a Folha de S. Paulo, os organizadores esperam um “público além da esquerda“, impulsionado pelo carisma dos artistas.
A Jovem Pan destacou a presença de congressistas como o deputado Guilherme Boulos (Psol-SP), que coordena a mobilização em São Paulo.
O Brasil de Fato enfatizou o caráter nacional, listando horários em detalhes, reforçando o simbolismo do trio Chico, Caetano e Gil – uma reunião rara que evoca os protestos da ditadura militar.
Essa onda de protestos reforça o papel da cultura como termômetro da democracia brasileira, transformando praias e praças em espaços de debate e celebração.
Com o Senado pressionado, o dia 21 pode marcar um turning point na luta contra a erosão institucional.







