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Que as 4 linhas traçadas com água suja se convertam em 4 paredes sólidas para Bolsonaro, deseja sociólogo

    Para o professor da UFRJ, Muniz Sodré, a tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito por uma orcrim a serviço do inelegível até 2030 é uma costura a “inferno aberto” e “estranho fruto de uma realidade paralela

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    O professor emérito Muniz Sodré afirma que é uma novidade “a transparência do mal à luz do dia“, vista no caso em que 37 pessoas foram acusadas pela PF (Polícia Federal) de sedição, bem no núcleo de governo do então presidente, hoje inelegível até 2030, Jair Bolsonaro (PL), cujos crimes atribuídos podem chegar a 28 anos de prisão.

    O sociólogo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) escreve um artigo para a Folha de S. Paulo, publicada neste sábado (30/11), em que usa argumentos para ir mais além da visão já estarrecedora da tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e de golpe de Estado por meio da formação de uma organização criminosa que também planejou “assassinar as mais altas autoridades da República recém-eleitas“.

    De acordo com Sodré, “a trama centralizada no Planalto sempre transpareceu no regurgitamento verbal do mandatário [Bolsonaro], nos acampamentos, nas ações terroristas, nos documentos e nos celulares dos mandantes”. O professor diz que os “delinquentes” do “crime organizado” arquitetaram o plano em, que agiram “a inferno aberto“. E que a “conspiração às claras é estranho fruto de uma realidade paralela“.

    Sodré explica que, “com espionagem semioficial e forma espectral de vida criada pelas redes“, uma “massa arrebanhada trafegava num planeta imaginário feito de celulares, enquanto uma quadrilha empoderada, os mentores da trama, surfava na mesma impunidade sonhada pelos escritórios do crime, despercebido substrato do assassinato de Marielle Franco“.

    E tudo ocorria com uma “inédita lógica tabajara“, escreve o professor: “o golpe seria acionado por vivandeiras acampadas, nada de tanques desmoralizados por fumaça. Era, na autodefinição de um dos generais sediciosos, um ‘alopramento da rataria, com ética abaixo da cintura‘ “.

    Ações toscas, linguagem sórdida de submundo, mas com a coerência sádica explicitada por M. Blanchot como o cerne da moral sadiana: ‘A única regra de conduta é que eu prefira tudo que me afeta com felicidade e que eu tenha como nada tudo que em minha preferência possa resultar de mal para o outro’ (em ‘Lautréamont e Sade’). Nenhuma razão política, apenas o gozo de lesar o próximo“, escreve.

    Por fim, o professor diz que, “na derrama de ficções, a única verdade é a traição. Valeria para todo golpe de Estado. Mas, no caso, o álibi fantasioso do anticomunismo deu lugar a uma modalidade extrema, moralmente intolerável e sádica de agarramento ao poder. Nada, como no passado, de matar ideias de esquerda”.

    O que esteve mesmo em pauta foi o desejo confesso por parte de chefetes e vivandeiras, de exterminar fisicamente o outro de si mesmo, o vizinho pensante. Razoável agora é a perspectiva de que as “quatro linhas” traçadas com água suja se convertam nas quatro paredes sólidas da punição”.

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