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Congresso do Peru destitui José Jerí em votação histórica: o “Chifagate” acelera o colapso da governabilidade

    Escândalo de reuniões secretas com empresários chineses sela a saída do mandatário interino; Peru caminha para o oitavo presidente em menos de uma década e elege novo chefe de Estado ainda nesta semana – entenda o que acontece no país andino

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    José Jerí
    José Jerí, ex-presidente interino do Peru, com a banda presidencial durante solenidade oficial em Lima. Foto: AFP / Getty Images (via Barron’s)
    RESUMO
    URBS MAGNA - Progressistas por um BRASIL SOBERANO


    Lima (PE) · 17 de fevereiro de 2026

    O Congresso da República do Peru aprovou, com 75 votos a favor, 24 contra e 3 abstenções, nesta terça-feira (17/fev), a censura a José Jerí como presidente do Legislativo — medida que, automaticamente, o destitui também da Presidência da República.

    A decisão ocorreu em sessão plenária extraordinária iniciada às 10h e encerrou um dos mandatos mais curtos da história recente do país.

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    Jerí encontrou-se
    Jerí encontrou-se com o empresário em frente ao Palácio do Governo na noite de 26 de dezembro. | Fonte: Andina

    Segundo o El Comercio, as sete moções de censura acumuladas apontavam “inconduta funcional” e falta de idoneidade, motivadas principalmente pelo chamado “Chifagate”: reuniões clandestinas de José Jerí com o empresário chinês Zhihua Yang, em 26 de dezembro de 2025 e 6 de janeiro de 2026, em restaurante de San Borja, sem registro oficial.

    “Cometi um erro de haver-me posto uma capucha”, reconheceu o próprio mandatário em declaração anterior, segundo o La República. Ou seja: ele admitiu que usou um capuz puxado sobre a cabeça para entrar discretamente no restaurante (chifa) em San Borja, à noite, durante as reuniões com o empresário chinês Zhihua Yang.

    “Chifa” é um termo peruano que se refere tanto à cozinha de fusão entre a gastronomia chinesa (principalmente cantonesa) e a peruana, quanto aos restaurantes que servem esse tipo de comida.

    O Chifagate refere-se a um escândalo político que explodiu em janeiro, envolvendo o então presidente interino José Jerí e o empresário chinês Zhihua Yang (conhecido como “Johnny” ou “Jhonny”).

    O nome vem da combinação de “chifa” (restaurante chinês-peruano) com “Watergate”, porque as reuniões secretas aconteceram principalmente em um chifa de propriedade de Yang, em San Borja (Lima), e em outro local ligado a ele no centro de Lima (Market Capón/Barrio Chino).

    O que aconteceu nas reuniões?
    As reuniões ocorreram em datas específicas, fora da agenda oficial da Presidência e sem registro público (o que é obrigatório para transparência em encontros de alto nível):

    26 de dezembro de 2025: Noite alta (perto da meia-noite), José Jerí chegou encapuzado (com capucha puxada) a um chifa chamado Xin Yan, em San Borja. Usou o veículo presidencial blindado (“el Cofre”) e foi acompanhado pelo ministro do Interior, Vicente Tiburcio. O local pertence a Zhihua Yang, que estava presente. Imagens de câmeras de segurança vazadas mostraram a entrada discreta, gerando suspeitas imediatas de tentativa de disfarce.

    6 de janeiro de 2026: Outro encontro no Market Capón (zona chinesa de Lima), em um local de produtos chineses (que horas antes havia sido clausurado pela prefeitura). Jerí chegou com óculos escuros, e novamente sem registro oficial.

    Jerí inicialmente justificou como preparativos para o Dia da Amizade Peru-China (1º de fevereiro), alegando que eram encontros “circunstanciais” com um conhecido da comunidade chinesa. Depois, admitiu que conhecia Yang há anos (desde 2024, apresentado por um congressista), que foram “cenas informais” após um dia de trabalho, e pediu desculpas públicas pelo uso do capuz, dizendo que gerou “suspiciacias” (desconfianças), mas negou qualquer irregularidade.

    Por que isso virou escândalo e levou à destituição?
    As críticas e investigações focaram em vários pontos graves:

    Falta de transparência: Nenhum encontro foi registrado na agenda oficial da Presidência, violando normas de accountability.

    Suspeita de tráfico de influência ou corrupção: Zhihua Yang tem negócios variados no Peru (segurança, construção, mineração — incluindo concessões minerais em Áncash e contratos com o Estado). Uma das principais suspeitas veio de reportagens (como do semanário Hildebrandt en sus Trece e programas como Cuarto Poder e Panorama) de que as conversas giravam em torno de um contrato milionário (cerca de 112 milhões de soles, ~US$ 30 milhões) para instalar câmeras de videovigilância em 8.000 ônibus públicos. Jerí teria pressionado para acelerar a licitação em favor de empresas ligadas a Yang.

    Contradições nas versões de Jerí: Ele mudou a explicação várias vezes (de “preparativos culturais” para “jantar casual” com o ministro), o que aumentou as desconfianças.

    Investigações paralelas:
    O Ministério Público abriu inquéritos por possíveis crimes como cohecho pasivo (suborno passivo), tráfico de influencias e interferência em nomeações. Yang foi citado a depor (e em alguns casos alegou imunidade por extranjería), e há menções a mensagens de WhatsApp e mais vídeos não divulgados.

    O escândalo acumulou sete moções de censura no Congresso, culminando na votação de terça-feira (17/fev).

    Críticos viram nisso mais um exemplo de como interesses estrangeiros (especialmente chineses, maiores investidores em mineração e infraestrutura no Peru) se infiltram em momentos de fragilidade política.

    Não há prova pública irrefutável de crime até o momento (as investigações continuam), mas o sigilo, o disfarce e os vínculos comerciais de Yang com o Estado transformaram uma “reunião informal” em um símbolo de opacidade e possível favorecimento, acelerando a queda de Jerí em um país já acostumado a crises presidenciais.

    Histórico da Presidência do Peru
    José Jerí assumiu a Presidência interina em 10 de outubro de 2025, exatamente porque ocupava o cargo de presidente do Congresso da República (eleito em 26 de julho de 2025) no momento da vacância de sua antecessora, Dina Boluarte.

    A sucessão seguiu o mecanismo constitucional de linha de sucessão quando tanto o presidente quanto os vice-presidentes são removidos.

    Antes de Dina Boluarte (que governou de dezembro de 2022 até outubro de 2025), o cargo era ocupado por Pedro Castillo, destituído em 7 de dezembro de 2022 após tentativa de autogolpe.

    Castillo havia sucedido o interino Francisco Sagasti (novembro de 2020 a julho de 2021), que por sua vez substituiu Manuel Merino (apenas cinco dias em novembro de 2020, após renúncia em meio a protestos massivos).

    Merino havia assumido após a vacância de Martín Vizcarra (março de 2018 a novembro de 2020), removido por “incapacidade moral permanente”.

    Vizcarra sucedera Pedro Pablo Kuczynski, que renunciou em março de 2018 em meio a denúncias de corrupção.

    Ollanta Humala (2011-2016) foi o último presidente a completar integralmente o mandato de cinco anos.

    O que acontece no Peru
    Críticos da classe política peruana — entre eles analistas da Gestión e do La República — apontam como causas estruturais da instabilidade:

    ♦ o presidencialismo “parlamentarizado” da Constituição de 1993, que concede ao Congresso poderes excepcionais de censura e vacância sem contrapesos eficazes;
    ♦ a fragmentação partidária extrema (mais de 20 legendas com representação);
    ♦ a ausência de partidos fortes com raízes programáticas; e
    ♦ o uso recorrente da “vacância por incapacidade moral permanente” como arma política, muitas vezes sem provas judiciais robustas.

    A cada crise, o Legislativo transforma-se em “triturador de presidentes”, enquanto o Executivo, enfraquecido, perde capacidade de governar.

    O resultado é um ciclo vicioso: baixa aprovação popular, protestos constantes, paralisia econômica e descrédito internacional.

    Análise para o futuro: o peso das influências externas
    Com as eleições gerais marcadas para 12 de abril de 2026, a destituição de José Jerí abre uma janela curta para a eleição de um novo presidente do Congresso — que automaticamente assumirá a chefia de Estado interina.

    O risco de mais uma transição caótica é real.

    Observadores peruanos alertam que interesses externos, especialmente chineses – maior parceiro comercial do Peru via mineração e Belt and Road Initiative -, podem ganhar ainda mais espaço em um vácuo de poder.

    O “Chifagate” não foi um episódio isolado: revela a vulnerabilidade do sistema a lobbies estrangeiros em setores estratégicos.

    Sem reforma constitucional que equilibre poderes e fortaleça partidos, o Peru caminha para repetir o padrão de instabilidade que, nos últimos dez anos, já consumiu oito presidentes — um recorde sul-americano que afugenta investimentos e aprofunda a desconfiança popular.

    O país precisa urgentemente de governabilidade, mas a história recente sugere que, sem mudanças profundas, o próximo mandatário terá vida ainda mais curta.

    O Congresso já convoca eleição interna para novo presidente do Legislativo, que tomará posse como chefe de Estado interino nas próximas 48 horas.

    Detalhes sobre o nome e possíveis cenários de transição serão atualizados em breve.

    Retrato de Alexandr Wang discutindo o futuro da colaboração homem-IA, capturado por Ethan Pines para Forbes.



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