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Nobel da Paz sai para opositora de Maduro e coincide com tensão entre EUA e Venezuela – leia justificativa do comitê norueguês

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    Imagem oficial do comitê norueguês do Prêmio Nobel que concedeu a categoria “PAZ” para Maria Corina Machado / reprodução


    Líder extremista de direita alinhada aos interesses do “império” recebe a honraria global em meio às acusações de que o país sul-americano está ligado ao narcotráfico e gera críticas de ocultação de uma disputa por recursos energéticos e legados de influência externa na região



    Brasília, 10 de outubro 2025

    Em um anúncio que ecoou de Oslo a Caracas, o Comitê Norueguês do Nobel coroou María Corina Machado, a incansável líder da oposição venezuelana, como vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025.

    Aos 58 anos, a engenheira e fundadora do movimento Súmate – que há duas décadas fiscaliza eleições e clama por sufrágio livre – foi homenageada por seus “esforços persistentes em favor da restauração pacífica da democracia e dos direitos humanos na Venezuela”.

    Escondida em seu país natal desde que contestou os resultados das eleições presidenciais de julho de 2024, marcadas por opacidade e pela reeleição não reconhecida de Nicolás Maduro, Machado representa, segundo o comitê, “um dos exemplos mais extraordinários de coragem civil na América Latina nos últimos tempos”.

    O prêmio, que inclui cerca de R$ 6,2 milhões em coroas suecas, surge como um farol de esperança em meio à crise humanitária que expulsou mais de 8 milhões de venezuelanos de suas terras, mas também reacende debates sobre o verdadeiro custo da democracia na era dos recursos naturais.

    No entanto, essa celebração não ocorre em vácuo. A trajetória de Machado – que em 2023 teve sua candidatura presidencial barrada pelo regime e sofreu prisões breves – entrelaça-se inevitavelmente com as ambições históricas de superpotências pela riqueza subterrânea da Venezuela, detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.

    Em junho de 2023, o então ex-presidente dos EUA, Donald Trump, disse que se tivesse sido reeleito em 2020 teria pegado o petróleo do país liderado por Nicolás Maduro.

    “Quando eu saí, a Venezuela estava prestes a colapsar. Nós teríamos tomado o país e pegado todo aquele petróleo. Seria ótimo”.

    Para Trump, o país estava “desmoronando rapidamente e ameaçando a segurança regional”, tendo questionado “ por que os EUA não podem simplesmente invadir o país problemático?” A intenção foi registrada em vídeo que viralizou nas redes sociais.

    Hoje, os EUA mantém tropas no Caribe sob a narrativa de combater o narcotráfico na Venezuela, gerando suspeitas de que a real intenção do republicano está relacionada com o que foi interpretado na ocasião como uma “mera bravata“.

    A obsessão, que remonta ao século XX, tem Trump revisitando o ciclo em sua campanha de 2024, prometendo resolver conflitos globais “em um dia”.

    Para críticos, o Nobel a Machado – uma figura que uniu rivais em torno de eleições livres, mas também alinhada a agendas ocidentais – pode ser lido como um endosso velado a essa dinâmica, premiando a resistência interna enquanto interesses externos orbitam o “ouro negro” venezuelano.

    Essa conexão não é coincidência, mas parte de um padrão maior de manipulações em premiações como o Nobel.

    Historiadores e analistas, citados em sites enciclopédicos sobre controvérsias do Nobel, apontam para um histórico de decisões “politicamente motivadas”, prematuras ou guiadas por visões enviesadas de paz.

    Exemplos abundam: em 1973, Henry Kissinger, arquiteto de bombardeios no Vietnã e intervenções no Chile, dividiu o prêmio com o político vietnamita Lê Đức Thọ, que recusou o prêmio.

    Até os dias atuais, apenas ele e Jean-Paul Sartre, rejeitaram o Nobel, sendo que o filósofo e escritor francês não quis o de Literatura.

    A recusa de Lê Đức Thọ levou a renúncias no comitê do grupo de trabalho encarregado de indicar candidatos para a premiação e à ironia do cantor-compositor e comediante americano Tom Lehrer: “A sátira política tornou-se obsoleta quando Henry Kissinger ganhou o Nobel da Paz”.

    Em 2009, Barack Obama recebeu a honraria meses após assumir, por “esforços extraordinários para fortalecer a diplomacia internacional”, mas antes de escalar guerras no Afeganistão – uma escolha que o diretor do Instituto Norueguês Nobel admitiu anos depois ter sido “superestimada”.

    Mais recente, em 2019, o atual primeiro-ministro de Etiópia, Abiy Ahmed, foi premiado com o Nobel da Paz por um acordo com a Eritreia, mas em 2020 ele mergulhou a Etiópia em uma guerra civil que matou centenas de milhares. – a Guerra do Tigré, que terminou formalmente com a assinatura de um Acordo de Cessação das Hostilidades entre o governo federal da Etiópia e a Frente Popular de Libertação do Tigré (FLPT) em novembro de 2022, na Pretória, África do Sul.

    Como argumenta um relatório do TRT World Research Centre, o prêmio, subjetivo por natureza, é vulnerável à “politicização”, servindo como instrumento simbólico para agendas ocidentais, especialmente quando candidatos como Trump – indicado por aliados em 2025 por supostas mediações no Oriente Médio – competem abertamente.

    No caso da Venezuela, com Machado recebendo o Nobel da Paz, o timing – logo após eleições contestadas e sanções americanas que cortaram bilhões em receitas petrolíferas – sugere um “truque” diplomático: elevar uma voz anti-Maduro para legitimar pressões externas, ecoando o viés ocidental criticado pelo Chatham House, que vê o comitê lutando contra “eurocentrismo e ideologia”.

    Para entender por que o Nobel a uma figura como Machado – acusada por chavistas de flertar com “imperialismo” yankee – pode soar como artifício, basta voltar ao cerne da doutrina americana: o direito autoatribuído de intervir.

    Desde 1823, a Doutrina Monroe, proclamada pelo presidente James Monroe, estabeleceu as Américas como “esfera de influência” dos EUA, advertindo europeus contra colonizações futuras enquanto reservava para Washington o papel de “guardião”.

    Inicialmente uma barreira ao Velho Mundo, ela evoluiu sob o manto do “Destino Manifesto” – crença expansionista do século XIX de que os EUA estavam predestinados a espalhar democracia (e, implicitamente, capitalismo) pelo continente.

    Como explica o Departamento de Estado dos EUA em sua linha do tempo histórica, isso justificou anexações como o Texas e guerras com o México, invertendo o mantra original: em vez de não-intervenção, veio o “Corolário Roosevelt” de 1904, que posicionou os EUA como “policiais internacionais” do Hemisfério Ocidental, intervindo para “estabilizar” dívidas e governos.

    Por quê? Porque, na visão americana, prosperidade global dependia de sua hegemonia – uma narrativa que, como nota o historiador Walter McDougall, transformou o expansionismo em “valor central”, ignorando soberanias locais em nome de uma “paz” sob bandeira estrelada.

    Essa mentalidade se materializou na América Latina, especialmente em nações ricas em minerais críticos – lítio, cobre, petróleo – vitais para a indústria dos EUA, de baterias elétricas a aviões.

    Um estudo do CSIS (Center for Strategic and International Studies) destaca como Chile (27% da produção global de cobre), Bolívia e Argentina (o “Triângulo do Lítio”, com 50% das reservas mundiais) atraem investimentos bilionários, mas também intervenções veladas.

    Em 1973, a CIA orquestrou o golpe contra Salvador Allende no Chile, eleito democraticamente por políticas socialistas que ameaçavam minas de cobre americanas; Augusto Pinochet instalou um regime brutal, privatizando recursos sob orientação de Chicago Boys, economistas treinados nos EUA.

    Na Bolívia, o apoio americano ao golpe de Hugo Banzer em 1971 derrubou Juan José Torres, que empoderava mineiros e camponeses em um país com vastas reservas de estanho e lítio.

    Sobre o envolvimento dos EUA em mudanças de regime, um site enciclopédico lista 41 intervenções bem-sucedidas na região de 1898 a 1994, muitas ligadas a recursos: da Guatemala de 1954 (bananas e terras da United Fruit) à Nicarágua dos anos 1980 (contra sandinistas, via Contras financiados por Irã-Contras).

    Hoje, sanções contra Venezuela, Cuba e Nicarágua – como detalha o CEPR (Center for Economic and Policy Research) – custaram bilhões em receitas petrolíferas, exacerbando fome e êxodo, tudo sob o pretexto de “democracia”, mas com olhos no lítio boliviano e no óleo venezuelano.

    No epicentro dessa teia está a relação tumultuada dos EUA com Hugo Chávez, o ex-militar que ascendeu em 1998 prometendo redistribuir a riqueza petrolífera do país.

    Inicialmente, Washington viu nele um aliado anti-drogas, mas o “socialismo do século XXI” – com alianças a Cuba, Irã e Rússia, e nacionalizações da PDVSA (Petróleos de Venezuela) – azedou laços.

    Em 2002, um golpe de 47 horas derrubou Chávez, com indícios de conivência americana: documentos da CIA revelam que a administração Bush sabia de planos semanas antes, e figuras como Elliott Abrams (ex-Irân-Contras) e Otto Reich orbitavam os golpistas.

    Chávez voltou ao poder graças a mobilizações populares e lealdade militar, mas o episódio marcou o início de uma era de sanções e retórica beligerante.

    Como relata o Council on Foreign Relations, Chávez expulsou embaixadores e enviou aquecimento gratuito a pobres americanos, mas Bush retaliou com acusações de “narco-terrorismo”.

    Sob Obama e Trump, sanções escalaram: de congelamentos de ativos da PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.) em 2017 a bloqueios que, segundo economista Francisco Rodríguez, custaram US$ 15 bilhões em produção de óleo, aprofundando a crise que Maduro herdou em 2013.

    Trump, em particular, reviveu fantasias de invasão, alinhando-se à oposição como Machado, que apoiou Edmundo González Urrutia nas urnas de 2024.

    Aqui reside o “truque” potencial do Nobel: premiar Machado como ícone de “esperança democrática” pode mascarar como o Ocidente usa honras para pavimentar agendas imperiais.

    Assim como Kissinger ganhou por “paz” enquanto orquestrava golpes, o prêmio a uma opositora alinhada a sanções petrolíferas – que beneficiam rivais como a Arábia Saudita e abrem portas para extração yankee – cheira a estratégia.

    Em um continente onde intervenções custaram vidas e soberanias, o Nobel de 2025 não é só uma medalha: é um lembrete de que, na geopolítica do petróleo e minerais, a “paz” frequentemente serve aos que detêm o poder.

    Machado inspira milhões, sim – mas a que custo, e para quem?

    A resposta, como o óleo sob a terra venezuelana, permanece escura e pegajosa.


    LEIA ÍNTEGRA DA JUSTIFICATIVA DO NOBEL DA PAZ PARA CORINA MACHADO

    Anúncio, Prêmio Nobel da Paz 2025 | 10 de Outubro de 2025 |

    O Prémio Nobel da Paz para 2025 é atribuído a uma brava e empenhada defensora da paz – a uma mulher que mantém a chama da democracia acesa no meio de uma escuridão crescente. O Comité Nobel Norueguês decidiu atribuir o Prémio Nobel da Paz para 2025 a Maria Corina Machado. Ela recebe o Prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos para o povo da Venezuela e pela sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia.


    Como líder do movimento democrático na Venezuela, Maria Corina Machado é um dos exemplos mais extraordinários de coragem civil na América Latina nos últimos tempos. A Sra. Machado tem sido uma figura unificadora e fundamental numa oposição política que já foi profundamente dividida – uma oposição que encontrou um terreno comum na exigência de eleições livres e governo representativo. Isto é precisamente o que está no cerne da democracia: a nossa vontade partilhada de defender os princípios do governo popular, mesmo que discordemos. Numa altura em que a democracia está sob ameaça, é mais importante do que nunca defender este terreno comum.


    A Venezuela evoluiu de um país relativamente democrático e próspero para um estado brutal e autoritário que está agora a sofrer uma crise humanitária e económica. A maioria dos venezuelanos vive em profunda pobreza, mesmo enquanto os poucos no topo se enriquecem. A violenta maquinaria do estado é dirigida contra os seus próprios cidadãos. Quase 8 milhões de pessoas deixaram o país. A oposição foi sistematicamente reprimida por meio de manipulação eleitoral, perseguições judiciais e prisão. O regime autoritário da Venezuela torna o trabalho político extremamente difícil. Como fundadora da Súmate, uma organização dedicada ao desenvolvimento democrático, a Sra. Machado defendeu eleições livres e justas há mais de 20 anos. Como ela disse: “Foi uma escolha de boletins de voto em vez de balas.” No cargo político e no seu serviço a organizações desde então, a Sra. Machado manifestou-se a favor da independência judicial, dos direitos humanos e da representação popular. Ela passou anos a trabalhar pela liberdade do povo venezuelano.


    Antes da eleição de 2024, a Sra. Machado foi a candidata presidencial da oposição, mas o regime bloqueou a sua candidatura. Ela então apoiou o representante de um partido diferente, Edmundo Gonzalez Urrutia, na eleição. Centenas de milhares de voluntários mobilizaram-se através de divisões políticas. Foram treinados como observadores eleitorais para garantir uma eleição transparente e justa. Apesar do risco de assédio, prisão e tortura, cidadãos em todo o país vigiaram as assembleias de voto. Eles certificaram-se de que as contagens finais fossem documentadas antes que o regime pudesse destruir os boletins de voto e mentir sobre o resultado.


    Os esforços da oposição coletiva, tanto antes como durante a eleição, foram inovadores e corajosos, pacíficos e democráticos. A oposição recebeu apoio internacional quando os seus líderes publicitaram as contagens de votos que tinham sido recolhidas nos distritos eleitorais do país, mostrando que a oposição tinha vencido por uma margem clara. Mas o regime recusou-se a aceitar o resultado eleitoral e agarrou-se ao poder. A democracia é uma precondição para a paz duradoura. No entanto, vivemos num mundo onde a democracia está em recuo, onde cada vez mais regimes autoritários estão a desafiar normas e a recorrer à violência. O controlo rígido do regime venezuelano sobre o poder e a sua repressão da população não são únicos no mundo. Vemos as mesmas tendências globalmente: o estado de direito abusado por aqueles que estão no controlo, meios de comunicação livres silenciados, críticos presos e sociedades empurradas para o domínio autoritário e militarização. Em 2024, realizaram-se mais eleições do que nunca, mas cada vez menos são livres e justas.


    Na sua longa história, o Comité Nobel Norueguês homenageou mulheres e homens bravos que se levantaram contra a repressão, que carregaram a esperança da liberdade em celas de prisão, nas ruas e em praças públicas, e que mostraram pelas suas ações que a resistência pacífica pode mudar o mundo. No ano passado, a Sra. Machado foi forçada a viver escondida. Apesar das sérias ameaças contra a sua vida, ela permaneceu no país, uma escolha que inspirou milhões de pessoas. Quando os autoritários tomam o poder, é crucial reconhecer defensores corajosos da liberdade que se levantam e resistem. A democracia depende de pessoas que se recusam a ficar em silêncio, que se atrevem a dar um passo em frente apesar do risco grave e que nos lembram que a liberdade nunca deve ser tida como garantida, mas deve ser sempre defendida – com palavras, com coragem e com determinação.


    Maria Corina Machado cumpre os três critérios estabelecidos no testamento de Alfred Nobel para a seleção de um laureado com o Prémio da Paz. Ela uniu a oposição do seu país. Ela nunca hesitou em resistir à militarização da sociedade venezuelana. Ela tem sido firme no seu apoio a uma transição pacífica para a democracia. Maria Corina Machado demonstrou que as ferramentas da democracia são também as ferramentas da paz. Ela encarna a esperança de um futuro diferente, onde os direitos fundamentais dos cidadãos são protegidos e as suas vozes são ouvidas. Neste futuro, as pessoas estarão finalmente livres para viver em paz”.



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    1 comentário em “Nobel da Paz sai para opositora de Maduro e coincide com tensão entre EUA e Venezuela – leia justificativa do comitê norueguês”

    1. Guaidó, Edmundo González e agora essa Maria Machado como futura autoproclamada presidente venezuelana para ceder aos EUA as riquezas da Venezuela. Mais um pau mandado a serviço do imperialismo decadente e ainda mais sedento das riquezas alheias.

    Os comentários estão fechados.

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