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“O morador é a principal vítima”: Xande de Pilares debate ausência do Estado e nova realidade das favelas

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    Xande de Pilares no Roda Viva |01.12.2025| Imagem reprodução/TV Cultura


    No Roda Viva, sambista utilizou vivência para traçar diagnóstico duro sobre segurança pública, desigualdade racial e o papel social das escolas de samba



    Brasília, 02 de dezembro 2025

    Xande de Pilares esteve nesta segunda-feira (1/dez) entre os jornalistas entrevistadores e a apresentadora Vera Magalhães, do programa Roda Viva, da TV Cultura. Um dos momentos altos foi o posicionamento quanto às questões políticas, sociais, de segurança pública e desigualdade.

    A trajetória do cantor, compositor e ator famoso por participar do Grupo Revelação tem locais onde ele viveu que foram fundamentais para sua formação como sambista.

    Morador do bairro em 1981, fato que deu origem ao seu nome artístico, após viver em diversos bairros durante a infância, Xande também morou na comunidade do Jacarezinho, o que pesou na sua decisão de aceitar ser enredo da escola de samba Acadêmicos do Jacarezinho para 2026.

    Mas também foram moradas o Morro do Turano, assim como o Engenho da Rainha, sendo o primeiro o local onde o artista gravou um clipe com o rapper Edi Rock, do Racionais MC’s, e o segundo endereço para seus econtros de samba e compositores.

    Xande diz que continua frequentando essas periferias para atuar como um exemplo positivo para as novas gerações.

    O músico, conhecido pelas letras que exaltam o amor e a superação, mostrou uma faceta analítica e politizada.

    Embora tenha evitado polarizações partidárias, Xande foi contundente ao responder ao questionamento do autor da coluna Sons da Perifa na Folha de S.Paulo e curador do Museu das Favelas, Jairo Malta.

    O jornalista citou o atual cenário das comunidades cariocas e quis saber como o cantor enxergava o ambiente de terror vivido pelos jovens negros hoje, comparando com a máxima de Xande de que, no passado, “o bem e o mal andavam de mãos dadas“. O sambista traçou uma linha divisória clara entre o crime de sua infância e a violência contemporânea:

    No morro que eu morava já existia a criminalidade… mas não era do jeito que tá hoje. Porque o cara proibia; às vezes passava uma senhora, o cara escondia a arma porque ele tinha um certo respeito“, explicou Xande.

    Segundo ele, a realidade atual é marcada pela falta de referências e pelo sofrimento de quem vive no território: “Hoje morando na favela é complicado. Porque o morador, ele é a principal vítima“.

    A segurança pública e o papel do Estado

    A apresentadora Vera Magalhães aprofundou o tema, questionando como o Estado poderia retomar esses territórios dominados por barricadas e organizações criminosas para oferecer oportunidades às crianças. Xande foi enfático ao rejeitar a força bruta como solução única.

    A gente tem que atuar agora não é com violência… a gente tem que atuar dentro da nossa possibilidade“, afirmou. Ele relatou experiências pessoais traumáticas decorrentes de operações policiais e conflitos: “Eu já passei por isso, de não poder voltar para casa porque tinha conflito, tinha operação, tinha guerra. Muitas das vezes dormia na rua“.

    Para o cantor, diante da “incapacidade de propor uma outra política de cidadania” — ponto levantado por Jeferson Barbosa (jornalista e autor do livro A Mãe do Mundo) —, as instituições comunitárias preenchem o vácuo estatal. Xande destacou o papel vital das escolas de samba, terreiros e igrejas.

    A escola de samba também tem um papel primordial… Eu digo porque para mim foi muito bom“, disse ele, citando escolas mirins como a Império do Futuro e a Aprendiz do Salgueiro como centros de formação de cidadania.

    Desigualdade racial e o mercado de trabalho

    O aspecto econômico do racismo foi trazido à roda pelo crítico musical e colunista de O Estado de S. Paulo, Sérgio Martins. Diante de dados apresentados pelo Jornal da Cultura sobre a disparidade salarial de mulheres negras, o jornalista perguntou se Xande sentia essa desigualdade em termos de cachê e status.

    A desigualdade no Brasil é uma coisa assim que parece que a gente não vai superar isso“, desabafou o cantor. Ele reconheceu que a valorização financeira de artistas negros muitas vezes depende de um esforço redobrado para provar excelência e seriedade, citando a evolução dos cachês do Grupo Revelação como exemplo de uma luta constante por dignidade profissional.

    A arte como manifesto político

    A cantora e pesquisadora Fabiana Cozza, uma das convidadas para o debate, conduziu o tema para o campo da liberdade de expressão. Citando a interpretação de Xande para a música “Muito Romântico“, de Caetano Veloso, ela perguntou o que “não pode mais calar” nas composições do sambista.

    Em uma defesa apaixonada da liberdade artística, Xande posicionou a música como um último reduto da verdade, livre de censuras ou policiamento de vocabulário. “O que não pode calar é a realidade… E a gente não pode ter regra para falar“, declarou.

    Para ele, a função política da música é justamente narrar a superação e a verdade das periferias sem filtros: “Eu canto somente o que não pode mais se calar“.

    Ao final, a mensagem de Xande no Roda Viva foi a de que, na ausência de um “telhado” estatal que proteja a todos, a cultura e a solidariedade comunitária continuam sendo as vigas que sustentam a esperança nas favelas.

    Transcrições em alta:


    Segurança Pública, Violência e o “Bem e o Mal” nas Favelas

    Jairo Malta (Folha de S.Paulo):O Rio de Janeiro hoje vive talvez um dos momentos muito ruins da sua história. Em especial quando a gente pensa em favela: os altos índices de morte, operações e tudo mais. Você que fez do amor um eixo da sua vida no samba, que acredita que talvez a música seja o caminho para uma mudança de narrativa desses jovens negros, você acha que a cultura nesse sentido te ajudou? Como que você enxerga tudo isso pensando no momento do Rio de Janeiro hoje?

    Xande de Pilares:Bom, primeiro que a minha época era um pouco diferente, né? Eu nasci em 1969 para 70, né, praticamente no final do ano. […] No morro que eu morava já existia a criminalidade, sempre vai existir. Já existia, mas não era do jeito que tá hoje. Porque o cara proibia; às vezes passava uma senhora, o cara escondia a arma porque ele tinha um certo respeito pela aquela senhora, ele não deixava uma criança perto. Então o meu ambiente era esse, mas tava ali. Só que a gente tinha a figura de pai, mãe, de tio, de avô, de padrinho… Às vezes no olhar deles a gente já sabia o que que estava acontecendo. Mas não é só isso, você precisa ter uma referência. A minha referência foi a música. A música para mim foi um caminho positivo pra caramba.

    “Eu continuo frequentando mesmo correndo risco às vezes de, sabe, dos julgamentos ou os pré-julgamentos. Eu continuo frequentando para que eu possa atuar através do exemplo que eu tenho de vida, que eu possa atuar de forma positiva para essas crianças e para esses jovens também. O que eu posso fazer eu faço dentro das minhas possibilidades.”

    Desigualdade Racial e Social

    Sérgio Martins (O Estado de S. Paulo): “Uma matéria no Jornal da Cultura fala que o salário médio de uma mulher preta chega, se tanto, a R$ 20.000 por ano. Você sente essa desigualdade na tua profissão também em termos de cachê, em termos de tratamento e em termos de status? E como é que você pode fazer para melhorar essa situação?”

    Xande de Pilares:Tem desigualdade. Quando a gente consegue atingir um patamar de cachê… Eu, no meu caso, né, quando eu lembro quando o cachê do Revelação era R$ 800, quando chegou a 80 a gente: ‘Caramba, a gente tá legal’. Tipo assim, a gente tá sendo visto, as pessoas estão valorizando um pouco. Mas aí tem a questão da classe A, classe B, classe C, classe D. Então quando você começa a valorizar o seu trabalho, pô, isso é gratificante pra caramba. Mas isso depende do nosso comportamento. […] Porque tem, tem a desigualdade sim. O nosso país é uma… A desigualdade no Brasil é uma coisa assim que parece que a gente não vai superar isso. Mas se a gente fizer um bom trabalho a gente consegue atingir o que a gente acha difícil, né? […] É difícil para quem não acredita e é impossível para quem não acredita também. Agora quem acredita e confia no trabalho que faz e faz com seriedade, faz com dignidade, a gente consegue melhorar assim.”

    Densura e Política na Arte

    Fabiana Cozza (Cantora e pesquisadora): “Eu queria retomar um pouquinho o que o Jairo falou desse legado, Xande, pros jovens, sobretudo jovens de periferia. E na canção, através da canção ‘Muito Romântico’ do Caetano Veloso que você gravou lindamente, num dos últimos versos você canta: ‘Canto somente o que não pode mais calar’. O que que não pode calar nas suas composições pensando nesse legado para esses jovens da periferia?”

    Xande de Pilares: “O que não pode calar é a realidade. O que não pode calar é a forma que a gente busca de superar às vezes alguma dificuldade. E a gente não pode ter regra para falar, não pode ter o ‘Ah, não pode falar isso, essa palavra não pode usar’. Sabe? Porque a música, ela ainda dá liberdade pra gente poder passar a mensagem que a gente quer passar. Porque a música, ela ainda tem um poder muito grande, graças a Deus ela nos dá essa oportunidade. Então eu canto somente o que não pode mais se calar e eu não vou deixar de ser romântico nunca.”

    Papel do Estado e Operações Policiais

    Vera Magalhães (Apresentadora): “Xande, você falou que ‘o bem e o mal andavam de mãos dadas’. Depois você lembrou com muita propriedade que eram outros tempos, até a maneira como o crime se portava nos territórios era diferente. E que hoje em dia tudo é muito difícil, tem as barricadas, tem o julgo que essas organizações impõem a quem mora lá. E tem uma situação em que a maioria das pessoas, em pesquisas, apoia operações como a que aconteceu nos complexos em outubro. Como que a gente sai desse nó? Como que o Estado chega e consegue retomar esses territórios e dar para crianças, como a criança que você foi, oportunidades?”

    Xande de Pilares: “Bom, eu costumo dizer que quanto mais dificuldade a gente encontra, mais a gente sente vontade de ver melhorar. Só que a gente tem que atuar agora não é com violência, não é com nada disso. A gente tem que atuar dentro da nossa possibilidade, porque não adianta a gente fugir da realidade. […] Na minha época eu sou do tempo da boca de fumo, só tinha maconha, pó… às vezes um cheirinho da loló e tal. Mas tipo assim, é igual… pô, o 38 era a arma mais poderosa que tinha na favela. […] Eu acho que a música ainda é um bom caminho. Mas só que, só que às vezes a gente tem que esperar melhorar um pouquinho pra gente poder entrar. Porque na minha época morar na favela era muito divertido; hoje morando na favela é complicado. Porque o morador, ele é a principal vítima. Infelizmente os cara deixa de trabalhar… Eu já passei por isso, de não poder voltar para casa porque tinha conflito, tinha operação, tinha guerra. Muitas das vezes dormia na rua.”

    Pusência do Estado e as Instituições Comunitárias

    Jeferson Barbosa (Jornalista e autor): “Diante às vezes da ausência do Estado, da ignorância, da incapacidade de propor uma outra política de cidadania e de dignidade para as pessoas que moram nesses territórios. Então queria que você falasse um pouco disso […] pensando o papel que as escolas de samba, que outros, enfim, os terreiros, as igrejas, enfim, cumprem para além do momento do carnaval, né? Cumprem pra comunidade.”

    Xande de Pilares:A escola do samba me ajudou muito. […] Você tem Império do Futuro, você tem Mangueira do Amanhã, você tem Aprendiz do Salgueiro, entre outras escolas mirins. […] Então a escola de samba também tem um papel primordial nesse sentido aí. Eu digo porque para mim foi muito bom e eu continuo vendo que elas continuam atuando e de forma positiva, sim, que tem ajudado muito. […] Mestre Louro para mim foi muito importante, como o Calça Larga também foi muito importante, porque quando a gente começa a sentir que tá difícil, a gente começa a escutar alguém falar ‘que não vem pro lado de cá’. Só que esses caras não deixaram ir pro lado de lá. E eles me ensinaram isso, eles me ensinaram a ter paciência, eles me ensinaram a agir de forma natural, a ir para cima do que a gente quer de forma natural. Então eu acho que a maneira que a gente tem de resolver esse problema, a gente tem que usar o que a gente tem. Não adianta a gente querer inventar uma coisa. É tudo feito com calma porque não tá fácil.”

    Retrato de Alexandr Wang discutindo o futuro da colaboração homem-IA, capturado por Ethan Pines para Forbes.



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