Minerais críticos, IA e exportação de carnes brasileiras no centro de pacto que economistas avaliam como saldo positivo a longo prazo; mídias asiáticas celebram aliança com gigante sul-americano
Brasília (DF) · 24 de fevereiro de 2026
Na segunda-feira (23/fev), na Casa Azul de Seul, o Presidente da República Federativa do Brasil, Excelentíssimo Senhor Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, elevaram as relações bilaterais ao nível de Parceria Estratégica — o mais alto patamar diplomático — e rubricaram dez memorandos de entendimento que marcam o fim de um hiato de 21 anos sem visita de Estado de um mandatário brasileiro ao país asiático.
A agenda, encerrada com o Fórum Empresarial Brasil-Coreia, sinaliza uma guinada pragmática: do comércio tradicional para cadeias de valor de alta tecnologia e minerais estratégicos.
♦ Arranjo sobre Comércio e Integração Produtiva entre os governos — facilita comércio bilateral, harmoniza normas regulatórias e oferece segurança jurídica a investidores.
♦ Memorando de Entendimento entre o Ministério da Fazenda (Brasil) e o Ministério de Finanças e Economia (Coreia) sobre diálogo econômico e financeiro.
♦ Memorando de Entendimento entre o Ministério da Agricultura e Pecuária e o Ministério da Agricultura, Alimentos e Assuntos Rurais sobre cooperação agrícola.
♦ Memorando envolvendo MAPA, Anvisa, Ibama e a Administração de Desenvolvimento Rural coreana para ações conjuntas em vigilância sanitária e meio ambiente.
♦ Memorando de Entendimento sobre cooperação em saúde entre os ministérios da Saúde dos dois países, abrangendo produção de medicamentos, vacinas, genômica avançada e saúde digital.
♦ Memorando entre o Ministério do Empreendedorismo, Micro e Pequenas Empresas (Brasil) e o Ministério das Pequenas e Médias Empresas e Startups (Coreia) para cooperação em PMEs e empreendedorismo.
♦ Memorando entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (Brasil) e o Ministério da Ciência e Tecnologia da Informação e Comunicação (Coreia) sobre ciência e tecnologia, com ênfase em semicondutores e inteligência artificial.
♦ Memorando entre a Anvisa e o Ministério da Segurança de Alimentos e Medicamentos (Coreia) para cooperação regulatória em produtos de saúde — abre caminho para maior acesso de cosméticos K-beauty no mercado brasileiro.
♦ Memorando entre a Embrapa e a Administração de Desenvolvimento Rural (Coreia) para pesquisa agropecuária.
♦ Memorando entre a Polícia Federal (Brasil) e a Agência Nacional de Polícia (Coreia) para fortalecimento da cooperação policial no combate ao crime organizado transnacional.
Além dos dez, os líderes adotaram o Plano de Ação 2026-2029 e concordaram em retomar imediatamente as negociações de um acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a Coreia do Sul, interrompidas desde 2021.
Lula anunciou ainda convite para que empresas coreanas participem do Fundo Amazônia e de projetos de transição energética.
A curto prazo, os acordos devem destravar exportações brasileiras de carne bovina, pois a Coreia é mercado premium exigente, além de acelerar aprovações regulatórias para cosméticos e medicamentos coreanos no Brasil e gerar primeiros investimentos em PMEs.
Analistas classificam o pacote como “bom para o Brasil, mas não um grande avanço comercial imediato”, pois não se trata de um FTA bilateral pleno.
Já a longo prazo — horizonte do Plano Quadrienal —, especialistas apontam sinergia estrutural: o Brasil oferece reservas de terras raras (segunda maior do mundo) e níquel, enquanto a Coreia aporta tecnologia de baterias, semicondutores e automação.
Economistas veem saldo nitidamente positivo: diversificação de parceiros asiáticos em meio a tensões globais, atração de capital coreano (já o maior investidor asiático na América Latina) e potencial de elevar o comércio bilateral dos atuais US$ 11 bilhões para patamares muito superiores com a integração produtiva.
As mídias coreanas tratam a visita como marco geopolítico e econômico. O The Korea Herald afirma que “a parceria criará novas oportunidades em setores que vão da indústria de beleza ao conteúdo audiovisual” e destaca que o memorando de saúde “facilitará que produtos de beleza coreanos alcancem ainda mais consumidores brasileiros”.
O jornal enfatiza a resiliência de cadeias de suprimentos e a inovação em energia limpa como eixos centrais. Já o Hankyoreh registra o abraço caloroso de Lee Jae-myung a Lula — a quem chamou de “eterno camarada” nas redes — e celebra a “solidariedade entre povos” e a confiança mútua como base para estabilidade internacional.
Ambas as publicações veem o Brasil como aliado estratégico para garantir suprimentos de minerais críticos à indústria high-tech sul-coreana, reduzindo dependência de outras fontes em contexto de fragmentação global.
COREIA DO SUL
A economia da Coreia do Sul é paradigma de desenvolvimento acelerado: 13ª maior do mundo em PIB nominal, líder absoluta em semicondutores (Samsung e SK Hynix respondem por mais de 60% da memória DRAM global), automóveis (Hyundai-Kia), construção naval e eletrônicos de consumo.
Exporta mais de 40% do PIB; investe 4,9% do PIB em P&D — uma das maiores taxas mundiais.
Seu modelo baseia-se nos chaebol (conglomerados familiares), forte intervenção estatal inicial e ênfase obsessiva em educação e inovação.
Desafios atuais incluem envelhecimento populacional acelerado, baixa natalidade e necessidade de diversificar fontes de matérias-primas.
Principais costumes refletem herança confucionista: hierarquia rígida (termos sunbae para sênior e hoobae para júnior permeiam empresas e relações sociais), valorização do esforço coletivo (nunchi — capacidade de ler o ambiente), cultura de trabalho intensa (embora reformas recentes combatam o karoshi), respeito cerimonial (reverências, troca de cartões com as duas mãos) e vida social regada a soju e kimchi.
O K-pop, K-drama e gastronomia (bibimbap, churrasco coreano) projetam soft power global; a hospitalidade com visitantes estrangeiros é legendária, especialmente quando se trata de parcerias de longo prazo.

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