Candidato de direita vence o segundo turno neste domingo (14), em giro inesperado nas urnas de Santiago que revela frustração popular e promete mudanças radicais no poder executivo do Chile – Leia a análise do Urbs Magna
Santiago do Chile/Brasilia, 15 de dezembro 2025
O Chile testemunhou um terremoto político neste domingo (14/dez), quando José Antonio Kast, o líder ultraconservador do Partido Republicano, emergiu vitorioso no segundo turno das eleições presidenciais, derrotando a candidata do governo progressista de esquerda do ex-líder estudantil Gabriel Boric.
Jeannette Jara foi vencida por uma margem impressionante de 58,2% contra 41,8% dos votos, conforme resultados preliminares do Servel (Serviço Eleitoral do Chile) com 99% das mesas escrutinadas.
No primeiro turno, ocorrido em 16 de novembro, largou na frente a candidata de Boric, Jeannette Jara (Unidad por Chile, apoiada pelo Partido Comunista e outras forças de esquerda),com 26,85% dos votos válidos contra. Em segundo ficou José Antonio Kast (Partido Republicano, com apoio de setores conservadores): 23,93%.
Os demais foram Franco Parisi (Partido de la Gente): 19,71%; Johannes Kaiser (Partido Nacional Libertario): 13,94%; e Evelyn Matthei (Chile Grande y Unido, apoiada por partidos de centro-direita): 12,47%. Outros obteram menos de 2% cada.
Essa configuração reflete uma fragmentação no campo conservador e uma liderança apertada da esquerda na primeira fase, invertida no segundo turno devido a preocupações com segurança e economia.
A conquista de Kast, que é advogado de ascendência alemã – filho de um oficial da SS que se exilou no Chile pós-Segunda Guerra, não é mero acidente das urnas: representa o ápice de uma trajetória marcada por derrotas anteriores e um descontentamento generalizado com o governo de esquerda, pavimentando um caminho de “ordem e segurança” que Kast prometeu em seu primeiro discurso como presidente eleito.
A aprovação de Gabriel Boric despencou para cerca de 30% devido a inflação persistente, aumento da criminalidade e reformas estagnadas – um balanço amargo revelado em análises como a do El Mostrador, que destacou a “retórica final” de Boric em março de 2025.
Para compreender o peso dessa virada, é essencial revisitar as raízes do fenômeno Kast. Em 2017, em sua estreia nacional, o presidente eleito do Chile obteve apenas 8% dos votos, posicionando-se como outsider conservador contra o establishment de centro-direita.
Quatro anos depois, em 2021, Kast surpreendeu ao alcançar 28% no primeiro turno, forçando um segundo turno contra o então jovem Gabriel Boric, do Frente Amplio, que venceu por estreita margem em uma eleição polarizada pelo estalo social de 2019.
Essa campanha de 2021, documentada no programa de governo de Kast disponível no site oficial da campanha, já delineava temas centrais como “retorno à grandeza” via endurecimento penal e estímulo ao empreendedorismo, elementos que ecoam agora com força renovada.
Do outro lado, Jeannette Jara, militante do Partido Comunista de Chile e ex-ministra do Trabalho no governo Boric, emergiu como uma surpresa nas primarias de junho de 2025.
Sua vitória inesperada no pleito interno da coalizão progressista, analisada pela BBC, representava uma esquerda institucional, focada em direitos laborais e equidade social – legados de sua gestão que reformulou pensões e salários mínimos.
No entanto, Jara enfrentou um eleitorado fatigado: pesquisas pré-eleitorais do BioBioChile revelavam sua preparação para cenários variados, mas a onda de rejeição ao oficialismo prevaleceu.
Em seu reconhecimento da derrota via redes sociais, Jara conclamou: “Agora somos todos oposcção”, um chamado à vigilância democrática que sublinha a transição pacífica, mas tensa, em um país ainda marcado pelas cicatrizes da ditadura de Augusto Pinochet.
Essa eleição não ocorre em vácuo. O descontentamento com Boric, eleito em 2021 como símbolo de renovação pós-estalo, foi alimentado por uma escalada na delinquência – com homicídios dobrando desde 2022 – e uma economia estagnada, como reportado pela CNN Espanhol em sua cobertura exclusiva da noite eleitoral.
Kast capitalizou isso com uma narrativa de “primeiro os chilenos”, prometendo deportações em massa de imigrantes irregulares e alianças com forças de segurança, ecoando vitórias regionais da direita em Argentina (com Javier Milei) e El Salvador (com Nayib Bukele).
Líderes internacionais, de Donald Trump nos Estados Unidos a Daniel Noboa no Equador, já enviaram felicitações, sinalizando uma redefinição geopolítica na América Latina.
O Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), também o fez, tendo seu post no X sido destacado por mídias chilenas, como o La Tercera. Lula escreveu:
Cumprimento @joseantoniokast por sua eleição à Presidência do Chile e o povo chileno pela sua participação em um processo eleitoral democrático, transparente e ordenado. Faço votos de pleno êxito ao presidente eleito no desempenho de seu futuro mandato. Seguiremos trabalhando com o novo governo chileno em favor do fortalecimento das excelentes relações bilaterais, dos sólidos laços econômico-comerciais que unem Brasil e Chile, pela integração regional e a manutenção da América do Sul como zona de paz.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA (Presidente do Brasil)
Enquanto Kast assume em março de 2026, o Chile – berço de revoluções econômicas nos anos 70 e sociais nos 2010 – entra em era de contrastes.
Seus apoiadores veem renascimento; críticos, risco de retrocessos em direitos humanos. Os posts da La Tercera não apenas registram o fato, mas inauguram o debate: o país da “grandeza recuperada” ou de novas divisões? A resposta, como sempre nas urnas sul-americanas, virá com o tempo.

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