Imagens de “obra prima do humor político moderno” mostram o filho do condenado na rodoviária chegando ao estado para assumir cargo de senador, mas é devolvido à origem por Jean Volpato devido à supostos crimes investigados, sob o tema de fundo da proposta da direita de controlar a imigração
Brasília, 09 de novembro 2025
Segundo o vereador de Blumenau (SC), presidente do PT local, professor, jornalista e especialista em Políticas Públicas, Jean Volpato, “já que a extrema-direita quer controlar a entrada dos migrantes em Santa Catarina“, ele diz que foi “receber pessoalmente receber o “turista” Carlos Bolsonaro na rodoviária“.
Em um vídeo postado em seu Instagram sob o título “Fiscalizando as fronteiras!“, o petista chama a atenção com seu “conteúdo meramente humorístico” ao argumentar sobre a tentativa do governo de SC em restringir acesso ao estado.
Volpato simula ser um “agente de controle de imigração” confrontando um personagem que representa Carluxo, o filho do ex-presidente condenado, Jair Bolsonaro, que chega ao estado buscando um cargo político de senador.
Na encenação, Volpato assume o papel de um agente que implementa uma “nova política da extrema direita de identificação dos usuários que chegam até a nossa cidade“. O personagem que representa Carluxo é abordado logo ao chegar na rodoviária de SC.
O diálogo se inicia com o personagem Carluxo explicando o motivo de sua viagem: “Meu pai disse que o governador tem um emprego para mim aqui“. Quando questionado sobre a vaga, ele revela que se trata de uma “vaga de senador“.
O agente Volpato então questiona se o visitante sabe em qual cidade se encontra, ao que o personagem demonstra total desconhecimento, perguntando se “não é onde tem aquela festa. Sei se é alemão ou italiano aqui?“.
O agente enfatiza a crítica ao visitante por buscar um cargo eletivo sem conhecimento da realidade local, dizendo: “Você não conhece Santa Catarina, não conhece a nossa realidade“. A única razão percebida para a visita seria “talvez só para tomar chope“.
Durante a “fiscalização“, o agente simula a verificação da ficha do visitante. Ao perguntar se o cidadão possui “alguma passagem pela polícia,” o personagem tenta minimizar, dizendo: “Não, isso aí não é nada demais. É um mal entendido“.
No entanto, a ficha lida pelo agente revela uma série de investigações graves, incluindo: “lavagem de dinheiro, rachadinha, sigilo quebrado na CPMI dos atos golpista, investigado no inquérito das fake news do STF“. O personagem defende-se, atribuindo as acusações ao espectro político oposto: “Não é bem assim. Isso aí é coisa do PT“.
A sátira também ataca o histórico legislativo do personagem. O agente aponta que, apesar de ter sido vereador por 25 anos, a ficha indica que o cidadão apresentou “só três projetos por ano“.
Diante das acusações, do histórico ineficaz e do desconhecimento de Santa Catarina, o agente conclui que a busca por uma “boquinha” (cargo) se torna “realmente está ficando difícil“.
A cena culmina com o agente “barrando” a entrada do personagem na cidade e emitindo uma passagem de volta para o estado de origem. “Vou ter que retirar de volta essa passagem aqui, nós vamos emitir uma outra passagem,” garante o agente, afirmando que “a gente paga tudo“.
Rejeitado, “Carluxo” finaliza o vídeo apelando ao pai: “Ô papai, liga pro governador aqui. O pessoal tá sendo mau comigo“.
O vídeo viral foi classificado por usuários das redes sociais como uma “obra prima do humor político moderno”.
Pano de fundo no vídeo de Volpato:
SC superou SP se tornando o estado preferido para migração dos brasileiros
“Se a gente não barrar essa migração, Santa Catarina vai virar um grande favelão” afirmou o outro vereador, Mateus Batista (União Brasil), de Joinville, aplificando o debate que expõe a contradição central do estado mais dinâmico do Brasil.
De um lado, uma realidade socioeconômica robusta que o consagra como o principal polo de atração de migrantes no país. De outro, a ascensão de uma retórica política que enxerga esse mesmo fluxo populacional como uma ameaça à segurança, aos serviços públicos e à identidade cultural local.
Enquanto os números do Censo 2022 do IBGE coroam Santa Catarina como o destino preferido dos brasileiros, vozes proeminentes na política estadual e municipal, alinhadas ao campo conservador, promovem propostas de controle e restrição.
Uma crescente narrativa anti-migração tem sido expressa em propostas de “controle de fronteiras” e “devolução” de pessoas, e se choca com os dados demográficos e econômicos que definem o sucesso catarinense.
A articulação de um discurso contra a migração em Santa Catarina não é um evento isolado, mas uma resposta direta a um fenômeno demográfico real. Lideranças políticas têm capitalizado as pressões geradas pelo rápido crescimento populacional para construir narrativas que associam os novos moradores a uma série de problemas sociais.
As principais linhas de argumentação se concentram em três eixos: a suposta sobrecarga dos serviços públicos, a ameaça aos valores conservadores e a necessidade de políticas de ordem e controle.
Uma das manifestações mais contundentes dessa retórica veio do vereador Mateus Batista, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL). Sua afirmação de que, se o fluxo migratório vindo do Norte e Nordeste não for “barrado“, “Santa Catarina vai virar um grande favelão“, gerou forte polêmica.
O argumento central do vereador se baseia em uma crítica ao pacto federativo, alegando que Santa Catarina “paga a conta duas vezes” ao contribuir para o orçamento da União e, simultaneamente, ter de arcar com os custos da migração de estados que ele classifica como “mal geridos“.
Ele expressa preocupação com a sobrecarga dos serviços públicos e o aumento da população de rua, citando não apenas a migração interna, mas também a chegada de imigrantes de países como Venezuela e Haiti.
Para dar concretude à sua visão, Batista entregou um projeto de lei ao deputado federal Kim Kataguiri (União-SP) com o objetivo de conceder aos municípios autonomia para gerir o fluxo migratório.
A proposta, inspirada em um modelo adotado na Alemanha, exigiria que novos moradores comprovassem residência em até 14 dias. A iniciativa foi prontamente rebatida pela vereadora Vanessa da Rosa (PT), que classificou o discurso de Batista como “racista, que ataca uma comunidade que tem a pele mais escura“.
Outra vertente do discurso anti-migração foca na dimensão cultural e eleitoral, representada pela deputada federal Júlia Zanatta (PL), aliada do condenado à 27 anos de prisão por tentativa de golpe de estado, Jair Bolsonaro.
Em uma transmissão ao vivo, Zanatta expressou preocupação com o fato de que os imigrantes “nem sempre compartilham os mesmos valores, calcados nas raízes e tradições catarinenses“. Sua apreensão é explicitamente política: não adianta virem para o estado para “votar na esquerda“.
A deputada argumenta que, apesar de a esquerda tentar “denegrir” o estado, chamando seus habitantes de “fascistas, nazistas”, a realidade é que “é pra cá que o povo quer vir”. Zanatta também ecoa as preocupações com a pressão sobre os serviços públicos, o aumento de moradores de rua e a “ocupação geográfica desordenada“.
A retórica encontrou eco em políticas públicas concretas, como a medida adotada pelo prefeito de Florianópolis, Topázio Neto (PSD). Sua administração instituiu a prática de “devolver” pessoas em situação de rua que chegam à capital sem emprego ou moradia, oferecendo-lhes a passagem de volta ao local de origem. A justificativa, segundo o prefeito, é evitar que a cidade se torne um “depósito de pessoas em situação de rua“.
Essa política recebeu o apoio explícito e enfático do governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL). Em um vídeo, Mello declarou: “Onde está o erro nisso? Topázio, concordo 100%“. O governador reforçou sua posição com outras declarações contundentes, sugerindo ironicamente a possibilidade de “pedir visto para entrada em Santa Catarina” e afirmando que “está todo mundo cansado de vagabundo que se disfarça de morador de rua para incomodar“.
A medida, no entanto, enfrenta questionamentos legais. A Defensoria Pública do Estado de Santa Catarina instaurou um procedimento para apurar a conduta, ressaltando que a Constituição Federal não autoriza o controle de fronteiras entre municípios. Este embate prepara o terreno para a análise que contrasta o discurso político com os dados demográficos reais do estado.
Realidade vs. Retórica:
O Perfil da Migração em Santa Catarina
Para compreender a profundidade do debate, é crucial confrontar a retórica política com os dados oficiais sobre a migração para Santa Catarina. Os números do Censo 2022, divulgados pelo IBGE, pintam um quadro complexo, onde a inegável atratividade econômica e a qualidade de vida do estado funcionam como os principais motores de um fluxo populacional intenso e diversificado.

Os dados são inequívocos: Santa Catarina se tornou o principal destino de migrantes no Brasil. Entre 2017 e 2022, o estado registrou um saldo migratório positivo de 354,3 mil novos moradores, o maior do país tanto em números absolutos quanto proporcionais. A origem desses novos residentes revela um fluxo predominantemente regional e nacional.
Os dez principais estados de origem dos migrantes que chegaram a Santa Catarina foram:
1. Rio Grande do Sul: 134.854
2. Paraná: 96.110
3. São Paulo: 62.414
4. Pará: 44.901
5. Bahia: 20.285
6. Rio de Janeiro: 17.027
7. Maranhão: 16.085
8. Minas Gerais: 12.424
9. Pernambuco: 11.199
10. Amazonas: 9.851
Adicionalmente, o estado viu um crescimento expressivo na proporção de estrangeiros em sua população, que saltou de 0,3% em 2010 para 1,1% em 2022.
O que explica essa intensa atração? Segundo Elson Pereira, professor do departamento de geociências da UFSC, o fenômeno é multifatorial, mas fortemente ancorado em indicadores socioeconômicos positivos. A imagem de um “estado seguro“, consolidada por décadas de marketing territorial, combina-se com uma economia dinâmica e um mercado de trabalho aquecido.
Os principais indicadores que posicionam Santa Catarina como um polo de atração incluem:
• Desemprego: A menor taxa entre todas as unidades federativas (3% no 1º trimestre de 2025).
• PIB per Capita: O 5º maior do país, com R$ 61.274.
• Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): O 3º maior do Brasil.
• Taxa de homicídios: A 3ª menor do país.
• Indústria Forte: O setor industrial é o que mais emprega no estado, contrariando a tendência de desindustrialização nacional.
Esse intenso fluxo migratório não ocorre sem consequências. Um dos impactos mais visíveis é a explosão de preços no mercado imobiliário. Cidades como Balneário Camboriú e Itapema registram hoje o metro quadrado mais caro do país, impulsionadas por investimentos massivos e pela crescente demanda.
O professor Elson Pereira adverte que a própria migração, a longo prazo, pode gerar as condições para sua desaceleração. O aumento populacional cria demandas significativas por habitação, saúde e saneamento, exigindo grandes investimentos públicos. Além disso, o aumento da oferta de mão de obra pode, eventualmente, levar a uma diminuição dos salários, reduzindo parte da atratividade econômica que impulsionou o crescimento inicial.
A análise do cenário político e demográfico de Santa Catarina revela uma contradição profunda e instrutiva. De um lado, há um estado cujo sucesso econômico, baixa taxa de desemprego e alta qualidade de vida o transformaram no principal destino para brasileiros em busca de oportunidades. Esse dinamismo é a força motriz de seu crescimento e prosperidade.
Do outro lado, emerge uma facção política proeminente que retrata esses mesmos migrantes — a força de trabalho e a população que alimentam esse crescimento — como uma ameaça existencial. O discurso que evoca o “favelão”, a perda de valores e a desordem social se choca diretamente com a realidade de um estado que se beneficia enormemente da chegada de novos moradores.
Este episódio ilustra de forma vívida a polarização política no Brasil contemporâneo. O debate sobre migração em Santa Catarina transcendeu a esfera da gestão pública e se tornou mais um campo de batalha ideológico, onde narrativas de medo e exclusão são mobilizadas para fins políticos. A tensão entre a realidade dos dados e a força da retórica definirá não apenas o futuro demográfico do estado, mas também seu caráter social e político nos próximos anos.
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