Com 400 manifestantes de 14 povos ocupando embarcação de grãos em Santarém, a resistência de quase um mês ganha novo capítulo fluvial e pressiona o governo por revogação imediata do decreto federal
Brasília (DF) · 19 de fevereiro de 2026
Cerca de 400 indígenas de 14 povos do Baixo Tapajós, entre eles Munduruku, Arapiuns, Kayapó e Panará, interceptaram, nesta quinta-feira (19/fev), uma balsa carregada de grãos da Cargill enquanto fazia travessia no rio Tapajós, em Santarém (PA).
🚨 Povos indígenas ocuparam hoje uma balsa de grãos da Cargill, no Rio Tapajós. Todo apoio à luta dos povos indígenas! Pela revogação imediata do decreto 12.600/25! pic.twitter.com/7kF4CUPdy0
— Mariana Conti (@mariana_psol) February 19, 2026
Distribuídos em quatro embarcações comunitárias, os manifestantes se aproximaram da barcaça no trecho urbano, próximo ao terminal da multinacional.
Alguns pularam no rio, nadaram até a balsa e içaram faixas de protesto, ocupando simbolicamente a embarcação em um ato pacífico acompanhado pela Polícia Federal e pela Marinha.
A ação marca o 29º dia da ocupação do acesso terrestre ao porto da Cargill, iniciada em 22 de janeiro, quando lideranças bloquearam a rodovia BR-163 e impediram o escoamento de soja e milho pelo Arco Norte.
O protesto ganhou reforço com a chegada de grupos do Alto Xingu e agora se estende ao leito do rio, denunciando a transformação de cursos d’água ancestrais em “corredores de exportação”.
“Esse rio é nossa rua. É nossa fonte de alimento, é morada de nossos peixes e é essencial para o equilíbrio da floresta e do clima. Como transformar essa riqueza em corredor para soja?”, afirmou Auricélia Arapiuns, liderança do Baixo Tapajós, em declaração à Reporter Brasil.
Maria Leusa Munduruku, ativista de renome internacional, complementou: “O rio tem seu tempo, sua cheia, sua vazante. Quando aprofundam, alargam e forçam a navegação o ano todo, rompem esse ciclo. Nosso povo sempre ensinou que é preciso respeitar o limite do rio”.
O alvo central é o Decreto nº 12.600/2025, que incluiu as hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND).
Os povos indígenas veem na medida o caminho para concessão privada de serviços de dragagem e manutenção, sem a consulta livre, prévia e informada exigida pela Convenção 169 da OIT e pela Constituição Federal.
Documentos da Semas (Pará), ICMBio e Ibama apontam riscos graves: alteração da qualidade da água, assoreamento, colapso da pesca, insegurança alimentar e impacto na reprodução da tartaruga-da-amazônia.
O governo federal suspendeu, em 6 de fevereiro, o pregão eletrônico de dragagem (R$ 61,8 milhões para o trecho Santarém-Itaituba), criou grupo de trabalho interministerial e reafirmou que o decreto “trata exclusivamente de estudos técnicos”.
Nota do Ministério dos Povos Indígenas reconhece a legitimidade das demandas e garante que nenhuma obra avançará sem consentimento.
A Cargill informou respeitar o direito de manifestação e não ter ingerência sobre a pauta. No campo judicial, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) manteve, em decisão de 18 de fevereiro assinada pelo juiz Shamyl Cipriano, a ordem de desocupação das vias de acesso ao porto em 48 horas — revogando liminar anterior do MPF e da Defensoria Pública da União.
A mobilização, contudo, segue firme. A escalada fluvial desta quinta-feira (19/fev) reforça o recado dos povos originários: o rio Tapajós não está à venda.
Com projeções de carga saltando de 14,6 milhões de toneladas em 2024 para 66 milhões até 2035, o modelo de hidrovias privatizadas ameaça não só o Baixo Tapajós, mas toda a Amazônia.

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