Chanceler alemão fez a declaração antes de embarcar rumo à República Popular e destacou o peso decisivo de Pequim em conflitos como a guerra na Ucrânia e na estabilidade do Pacífico, sinalizando pragmatismo econômico diante de pressões tarifárias americanas e dependência comercial recorde
Berlim (DE) · 24 de fevereiro de 2026
O chanceler alemão Friedrich Merz fez, nesta terça-feira (24/fev), uma declaração que resume a realpolitik que agora guia a maior economia europeia: “A China subiu ao patamar das grandes potências. Ninguém pode mais contornar a China. Desafios políticos globais não podem ser geridos hoje sem Pequim. A voz da China é ouvida – inclusive em Moscou. A China tem a oportunidade de usar sua influência. Para a paz e a segurança no Pacífico, a China é um fator decisivo.”
Originário da Alemanha, o termo realpolitik refere-se a uma abordagem pragmática de política externa e relações internacionais baseada no interesse próprio, poder e circunstâncias práticas, priorizando estratégias concretas sobre ideais, moral ou ética, e foca no cálculo de interesses nacionais, frequentemente utilizando coerção para alcançar objetivos, sendo associado a líderes como Otto von Bismarck e Henry Kissinger.
A fala, proferida no aeroporto de Berlim momentos antes de embarcar no avião governamental “Deutschland” rumo à sua primeira visita oficial como chanceler, foi captada pelo portal Clash Report e confirmada por múltiplas agências internacionais.
Friedrich Merz, que assumiu o cargo em maio de 2025 à frente de uma coalizão conservadora, parte nesta quarta-feira (25/fev) para Pequim acompanhado de uma delegação de peso: presidentes da Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz, além de executivos da Siemens Energy.
O programa inclui reuniões com o presidente Xi Jinping e o primeiro-ministro Li Qiang, assinatura de acordos econômicos e visitas a uma fábrica de veículos elétricos da Mercedes e a instalações da Unitree Robotics em Hangzhou, conforme reportou a agência de notícias Reuters.
Por que Merz fala assim agora?
O motivo da fala de Merz é duplamente pragmático e urgente. Economicamente, a Alemanha registrou em 2025 um déficit comercial recorde com a China de cerca de €90 bilhões – um aumento de €30 bilhões em relação a 2024.
A China superou os Estados Unidos como principal parceiro comercial alemão, com volume superior a €250 bilhões.
A indústria automobilística germânica, outrora dominante, sofre com a concorrência avassaladora de veículos elétricos chineses mais baratos, enquanto depende criticamente de terras raras chinesas – insumos cuja restrição de exportação já paralisou linhas de produção em 2025.
Geopoliticamente, Friedrich Merz sabe que, com Donald Trump impondo tarifas globais e questionando o apoio americano à Europa, a Alemanha não pode se dar ao luxo de um confronto com seu maior mercado externo.
Daí a fórmula repetida: de-risking, não decoupling. “Desacoplar seria um erro que prejudicaria nossas próprias oportunidades econômicas”, afirmou o chanceler.
Ele defende reduzir dependências unilaterais em cadeias de suprimentos, tecnologias e matérias-primas, mas mantendo diálogo “entre iguais, com firmeza, autoconfiança e respeito mútuo”.
A menção explícita à influência chinesa em Moscou revela outra camada: Merz espera que Pequim pressione Vladimir Putin por um cessar-fogo na Ucrânia – tema que dominará as conversas com Xi Jinping.
Ao mesmo tempo, reconhece o papel de Pequim na segurança do Indo-Pacífico, região onde a China expande bases navais e cerca Taiwan.
A ascensão meteórica da China: do isolamento à superpotência em quatro décadas. Em 19 de dezembro de 1978, durante o terceiro plenário do 11º Comitê Central do Partido Comunista Chinês, Deng Xiaoping lançou as “quatro modernizações” e abriu a economia ao capital estrangeiro.
Zonas econômicas especiais como Shenzhen transformaram vilarejos pesqueiros em metrópoles de milhões de habitantes em poucos anos.
A adesão à Organização Mundial do Comércio em 11 de dezembro de 2001 acelerou o processo: a China tornou-se a “fábrica do mundo”.
Entre 1980 e 2010, o PIB cresceu em média 9,5% ao ano – o maior surto sustentado da história moderna. Em 2010, a China ultrapassou o Japão como segunda maior economia.
Hoje, lidera em 5G, veículos elétricos, painéis solares, baterias e inteligência artificial, com reservas cambiais superiores a US$ 3 trilhões e uma classe média de mais de 400 milhões de pessoas.
Esse milagre, no entanto, gerou dependências globais que Friedrich Merz agora busca equilibrar sem romper.

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