Pesquisa analisa saída de jovens beneficiários e aponta fatores como emprego formal e escolaridade como chaves para emancipação e sustentabilidade do programa de transferência de renda
Brasília, 08 de dezembro 2025
Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgada na sexta-feira (5/dez) e detalhada em reportagem da Folha de S. Paulo revela um dado significativo sobre a trajetória de jovens beneficiários do Bolsa Família: 7 em cada 10 adolescentes que integravam o programa em dezembro de 2014 já o haviam deixado até outubro de 2025.

O estudo “Filhos do Bolsa Família: Uma Análise da Última Década do Programa” vai além do número e desvenda os perfis e condições que mais contribuem para essa saída, apontando para a sustentabilidade e os efeitos emancipatórios da política social.
Os percentuais são precisos: 68,8% dos que tinham entre 11 e 14 anos em 2014 (4,05 milhões de 5,8 milhões) e 71,25% dos que estavam na faixa de 15 a 17 anos (3 milhões de 4,2 milhões) não estavam mais no cadastro uma década depois.
A taxa geral de saída, sem recorte de idade, foi de 60,68%, indicando que o fenômeno é ainda mais forte entre os que eram adolescentes à época.
O Perfil da Saída:
Emprego Formal e Escolaridade Como Motor
O estudo, que cruzou dados do Cadastro Único com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), identifica fatores cruciais associados à maior probabilidade de os jovens deixarem o programa.
A presença de um emprego formal com carteira assinada na pessoa de referência da família (pais, mães, avós) aparece como um diferencial poderoso: 79,40% dos que saíram tinham essa característica no domicílio.
O nível de instrução do responsável também é decisivo. Crianças e adolescentes sob tutela de alguém com ensino médio completo tiveram taxa de saída de 69,94%, contra 57,59% daquelas com responsáveis sem o ensino fundamental completo.
“Quanto maior a qualidade do emprego da pessoa de referência, maior a emancipação dos seus filhos em relação ao programa”, explicou o pesquisador e economista Valdemar Pinho Neto, coordenador do estudo, durante apresentação na sede da FGV, no Rio de Janeiro.
Desigualdades Persistentes no Caminho da Saída
A pesquisa também expõe disparidades. A taxa de saída foi significativamente maior em áreas urbanas (67,01%) do que rurais (55,46%), e menor entre famílias ligadas à agricultura (53,73%). No recorte de gênero e raça, as taxas foram mais altas entre homens (71,46%) do que mulheres (55,86%), e entre brancos (71,78%) na comparação com pretos (63,78%), pardos (61%) e indígenas (44%).
Para o ministro Wellington Dias, do Desenvolvimento Social, que participou do evento, os dados reforçam o propósito do programa.
“O objetivo desses programas de transferência de renda é tirar da fome, e tirar da fome é o começo. Depois que tira da fome, há uma condição melhor para que as pessoas possam estudar, trabalhar, empreender e, com isso, superar a pobreza”, afirmou.
Sustentabilidade e a Próxima Geração
Para Valdemar Pinho Neto, a alta rotatividade entre os jovens é um sinal positivo para a sustentabilidade do Bolsa Família.
“Saber que os filhos do Bolsa Família não necessariamente estarão presentes no Bolsa Família do futuro diz um pouco sobre a sustentabilidade do programa”, ponderou.
Os pesquisadores projetam que a segunda geração (os netos dos beneficiários originais) pode ter ainda mais chances de mobilidade social, desde que haja acesso a empregos de qualidade.
O contexto macro reforça a análise. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados nesta semana mostram queda consecutiva da pobreza e extrema pobreza em 2024, atribuída justamente à recuperação do mercado de trabalho e à manutenção de benefícios sociais como o Bolsa Família.
A Visão do Governo
Nesta segunda-feira (8/dez), o presidente Lula comentou os resultados do estudo. Em suas palavras, o dado “representa a essência do programa: Garantir suporte para as famílias mais necessitadas, para que possam seguir seu caminho com mais segurança. Conseguir um emprego, abrir um negócio, melhorar de vida. Garantir um futuro digno para seus filhos. É este o objetivo do Bolsa Família. Dar sustentação a quem mais precisa.”
A pesquisa da FGV assim desenha um mapa complexo: o Bolsa Família atua não apenas como alívio imediato, mas como uma plataforma potencial de emancipação, cujo sucesso final, no entanto, está intrinsecamente ligado a outras conquistas sociais – emprego formal, educação e redução das desigualdades estruturais de raça, gênero e território.

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