Segundo o ex-ministro, a Faria Lima foi fiadora dessa falta, com Campos Neto no BC se orientando por visão de mercado autorregulado e redução da supervisão efetiva
O caso Master, envolvendo liquidações do Banco Master e Will Bank, expõe falhas regulatórias no sistema financeiro brasileiro. José Dirceu critica a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central por flexibilização excessiva, esvaziamento da CVM e uso perverso do FGC. Fraudes de R$ 12,2 bi e prejuízos de até R$ 47 bi destacam riscos sistêmicos, com propostas de reforma para maior supervisão e proteção a investidores.
Brasília (DF) · 27 de janeiro de 2026
Em meio a um turbilhão de liquidações e investigações, o caso Master emerge como um alerta contundente para as vulnerabilidades do sistema financeiro nacional. Inicialmente ligado ao Banco de Brasília (BRB), o escândalo agora engloba o Will Bank, também liquidado, destacando um padrão de opacidade e riscos excessivos que transcendem instituições isoladas.
Em análise publicada nesta terça-feira (27/jan), na Folha de S.Paulo, o ex-ministro José Dirceu argumenta que o episódio reflete uma arquitetura regulatória falha, marcada por baixa supervisão e incentivos à irresponsabilidade.
“É produto direto de uma arquitetura do sistema financeiro alicerçada em baixa regulação, alta opacidade e incentivos permanentes à irresponsabilidade”, escreveu Dirceu, apontando para a flexibilização imprudente durante a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central.
Essa visão ideologicamente orientada, segundo ele, priorizou um mercado autorregulado, reduzindo a fiscalização substantiva.
O Banco Master, presidido por Daniel Vorcaro, enfrentou liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, sob suspeita de fraudes estimadas em R$ 12,2 bilhões, conforme reportado peloValor Econômico.
Investigadores identificaram estruturas societárias opacas, alavancagem excessiva e captação agressiva via CDBs com taxas acima da média, explorando o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como selo de segurança fictícia.
A Polícia Federal prendeu Vorcaro, e ofícios ao Tribunal de Contas da União (TCU) e ao Ministério Público Federal (MPF) revelaram cumplicidade do BRB em operações fraudulentas, detalhadas em reportagem exclusiva do ICL Notícias.
A extensão do problema atingiu o Will Bank, cuja liquidação, anunciada na quarta-feira (21/jan), elevou o prejuízo coberto pelo FGC para cerca de R$ 4,8 bilhões, podendo aproximar-se de R$ 47 bilhões, segundo análise do Estadão.
Plataformas digitais de investimento, atuando como canais de distribuição de risco, promoveram produtos de alto risco como seguros, beneficiando intermediários enquanto socializavam prejuízos. Dirceu critica o esvaziamento da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que perdeu autonomia e recursos, permitindo a fragmentação institucional que favorece esquemas de arbitragem regulatória.
Fontes como a Bloomberg revelam que o Banco Central recebeu alertas sobre riscos no Banco Master ainda em 2025, mas demorou a agir, negligenciando indicadores sistêmicos.
O atual presidente, Gabriel Galípolo, herdou o problema, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, propõe transferir a fiscalização de fundos de investimento da CVM para o Banco Central, ampliando seu poder de supervisão, conforme noticiado pelo Correio Braziliense em 19 de janeiro.
Essa medida visa mitigar brechas exploradas por grupos econômicos. A Faria Lima, epicentro financeiro de São Paulo, é apontada como fiadora desse modelo, propagando narrativas contra regulação mais rígida como ameaça à inovação.
Auditores e entidades autorreguladoras, cientes dos riscos, optaram pelo silêncio, configurando uma escolha política que prioriza lucros de poucos.
Dirceu defende uma reforma profunda do FGC, com contribuições proporcionais ao risco e proibição de seu uso como ferramenta de marketing, para evitar incentivos perversos.
O debate ganhou eco no Senado Federal, onde senadores questionaram a demora do Banco Central durante audiência com Galípolo em novembro de 2025, conforme registro do site oficial do Senado.
Ademais, o Sindicato dos Bancários de São Paulo alerta que a falta de regulação coloca trabalhadores e clientes em risco, aprofundando desigualdades.
Essa financeirização descontrolada não fomentou desenvolvimento, mas gerou bolhas e fragilidades. Uma regulação integrada e robusta é imperativa para recolocar o sistema a serviço da nação, enfrentando interesses poderosos.
Atualização: Nesta terça-feira (27/jan), a Revista Fórum reportou reações ao artigo de Dirceu, com analistas prevendo debates no Congresso sobre reformas regulatórias.

SIGA NAS REDES SOCIAIS

![]()
Compartilhe via botões abaixo:

