“Estão tentando um golpe de Estado via Senado: O PL da Dosimetria é carta-branca para mais tentativas de golpe. O crime será institucionalizado. Reagir é urgente”, diz texto que o teólogo “endossou”; Leandro Demori diz que tudo está se confirmando
Brasília, 17 de dezembro 2025
Em meio à polêmica aprovação do Projeto de Lei da Dosimetria Penal na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, nesta quarta-feira (17dez), o teólogo Leonardo Boff republicou um post no X da ativista digital Kriska Carvalho (@KriskaCarvalho), que fez um chamado urgente à militância de esquerda, convocando a trending da hashtag #CongressoInimigoDoPovo.
Na mensagem, Kriska afirma: “Estão tentando um golpe de estado via Senado! O PL da Dosimetria é carta-branca para mais tentativas de golpe! O crime será institucionalizado. Reagir é urgente”.
A publicação reflete a indignação de setores progressistas que veem o projeto — que altera o cálculo de penas e pode beneficiar condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 — como uma forma disfarçada de anistia ou redução de punições para envolvidos em ataques às instituições democráticas.
Assim, o religioso Boff, referência da teologia da libertação e crítico contumaz de medidas que considera ameaças à democracia, endossa a mobilização proposta por Kriska neste momento de divisão na base governista.
Em meio à resposta ao apelo de reação de uns, outros expressaram frustração com o que percebem como conivência de senadores aliados ao Planalto na aceleração da votação.
Críticas ao líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA), e à condução da pauta pela CCJ ecoam nos comentários, com usuários acusando traição após manifestações recentes contra qualquer forma de impunidade aos golpistas.
O que aconteceu?
Na sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal realizada nesta quarta-feira (17/dez), o senador Renan Calheiros (MDB-AL) protagonizou um momento de tensão ao criticar duramente o que descreveu como um acordo político para acelerar a votação do Projeto de Lei da Dosimetria Penal.
O PL, aprovado anteriormente na Câmara dos Deputados, altera as regras de cálculo das penas e é visto por críticos como uma tentativa velada de reduzir condenações relacionadas aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
Durante o debate na CCJ, Renan Calheiros afirmou que o líder do governo no Senado, senador Jaques Wagner (PT-BA), teria solicitado que a matéria fosse colocada em votação rapidamente.
Em troca, haveria facilidades para a aprovação de outro projeto de interesse do governo, relacionado a benefícios fiscais ou regulamentação de alíquotas para apostas online (bets) e fintechs.
“Há pouco veio aqui o líder do governo e pediu que deixasse votar essa matéria porque tem um acordo”, declarou o senador alagoano, visivelmente irritado. Ele completou: “Eu não vou participar dessa farsa”.
A fala gerou repercussão imediata. A ministra das Relações Institucionais, deputada Gleisi Hoffmann (PT), negou categoricamente a existência de qualquer negociação ou acordo envolvendo o PL da dosimetria, reafirmando a posição do governo contra qualquer redução de penas para condenados por atos antidemocráticos.
Não há nenhuma negociação ou acordo no Senado envolvendo o projeto de lei da redução de penas para os golpistas condenados pelo STF. O governo é contra essa proposta e orienta sua base a votar contra, por razões já conhecidas: quem atentou contra a democracia tem de pagar por…
— Gleisi Hoffmann (@gleisi) December 17, 2025
Por outro lado, Jaques Wagner admitiu ter havido conversas para desobstruir a pauta da CCJ, mas garantiu que, caso o projeto avance, o presidente Lula vetaria trechos problemáticos.
Em um vídeo compartilhado pelo cientista geopolítico Vinicios Betiol, ele afirma que “o senador Jaques Wagner confessou que fez acordo pela dosimetria, sem conversar com o Lula e com a Gleisi”.
Betiol acrescentou: “Eu não passo pano pra isso, em 2026 precisamos dar uma resposta a todos eles, inclusive os nomes da esquerda que ajudaram nessa patifaria”.
O senador Jaques Wagner confessou que fez acordo pela dosimetria, sem conversar com o Lula e com a Gleisi. Eu não passo pano pra isso, em 2026 precisamos dar uma resposta a todos eles, inclusive os nomes da esquerda que ajudaram nessa patifaria.pic.twitter.com/mxGV2QXc48
— Vinicios Betiol (@vinicios_betiol) December 17, 2025
O vídeo do pronunciamento de Renan Calheiros circulou amplamente nas redes sociais, sendo compartilhado com questionamentos sobre a conduta do governo na articulação legislativa.
Calheiros afirmou que Jaques Wagner disse a ele que aceitaria a aprovação do PL da Dosimetria, que reduz penas de condenados por atos golpistas e beneficia Jair Bolsonaro, em troca do apoio da oposição ao projeto que eleva a tributação de bets e fintechs.
“Eu não vou participar aqui de farsa nenhuma para possibilitar a votação dessa matéria para que o governo aprecie outra matéria logo mais à tarde”, declarou.
O senador Renan Calheiros (MDB-AL) afirmou que o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), disse a ele que aceitaria a aprovação do PL da Dosimetria, que reduz penas de condenados por atos golpistas e beneficia Jair Bolsonaro, em troca do apoio da oposição ao projeto que… pic.twitter.com/l4NJN8ev7f
— GloboNews (@GloboNews) December 17, 2025
A aprovação do PL na CCJ ocorreu em meio a críticas de senadores da base aliada e da oposição quanto à pressa na análise, em um contexto de fim de ano legislativo marcado por negociações intensas para avançar a agenda econômica do Planalto.
O episódio expõe divisões internas no Congresso e reacende o debate sobre impunidade em relação aos eventos de janeiro de 2023, com o projeto agora seguindo para análise no plenário do Senado.
Leandro Demori
O jornalista Leandro Demori, ex-diretor executivo do Intercept Brasil e hoje produtor de conteúdo independente, publicou na mesma plataforma, paralelamente aos fatos, que reacendeu a polêmica em torno do Projeto de Lei da Dosimetria Penal, aprovado horas antes na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.
No texto, Demori escreveu:
“’Dosimetria’ passou na CCJ no Senado de lavada. Era teoria da conspiração? Era exagero? Onde estão os analistas de plantão que são incapazes de ler os sinais óbvios? Agora é esperar que algo se dê no meio do caminho pra desfazer isso. Não é impossível. Mas improvável. Apuração do ICL se confirmando”.

LEANDRO DEMORI (Jornalista independente)
A publicação cita diretamente um thread anterior do próprio Demori, datado de 11 de dezembro, no qual ele divulgou com exclusividade uma reportagem do site ICL Notícias, assinada pelo colunista Lula Costa Pinto.
Essa matéria, ilustrada por uma captura de tela do título “Redução de pena de Bolsonaro foi um acordo ‘com o Supremo, com tudo’”, alega a existência de um “grande acordo nacional” para aprovar o PL de forma a reduzir indiretamente as penas aplicadas a Jair Bolsonaro e outros condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, sem caracterizar explicitamente uma anistia.
De acordo com a reportagem detalhada no thread:
• As negociações teriam durado cerca de 40 dias, envolvendo Brasília, São Paulo, Buenos Aires e Lisboa.
• O deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), relator do projeto na Câmara, foi o centro das articulações, apelidado nos bastidores como “Paulinho da Farsa”.
• O ex-presidente Michel Temer atuou como intermediário (“aplainador”), facilitando contatos entre Paulinho e os ministros do STF Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Os magistrados teriam orientado que o texto não pudesse ser interpretado como anistia explícita.
• A estratégia central foi remover do cálculo das penas o crime de “abolição violenta do Estado Democrático de Direito”, que representa a maior parte da condenação de Bolsonaro (reduzindo potencialmente sua pena de regime fechado de cerca de 6 anos para pouco mais de 3 anos).
• Outros ministros do STF, como Edson Fachin, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia, não teriam participado das conversas; Kassio Nunes Marques poderia ter atuado indiretamente, enquanto André Mendonça e Luís Roberto Barroso foram vistos como “não problemas”.
• Do lado bolsonarista, figuras como Ciro Nogueira (PP), Sóstenes Cavalcante (PL) e Antônio Rueda (União Brasil) teriam sido informadas e apoiado a votação rápida.
• A reportagem sugere ainda que a “pré-candidatura” de Flávio Bolsonaro à Presidência foi uma distração orquestrada, e que decisões recentes de Gilmar Mendes (como sobre quórum para impeachment de ministros do STF) serviram como sinais para o acordo.
A matéria conclui que o PL, aprovado na Câmara na madrugada de 10 de dezembro e agora avançando no Senado (com relatoria de Esperidião Amin, aliado bolsonarista), representa uma “anistia branca” costurada entre Congresso, STF e lideranças políticas, evocando a famosa frase de Romero Jucá em 2016 sobre um “grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”.
Demori, ao repostar essa apuração após a votação na CCJ, defende que os fatos estão confirmando as revelações do ICL Notícias, rebatendo críticos que classificaram a história como “teoria da conspiração”.
As denúncias do ICL ecoaram em outros veículos, como BBC Brasil e sites de oposição, que mencionam reuniões envolvendo Paulinho, Temer e Moraes, mas sem confirmação oficial das partes citadas.
O PL é visto por críticos como mecanismo de impunidade e, por defensores, como mera correção técnica na legislação penal.
O texto segue agora para o plenário do Senado, em um dos capítulos mais tensos do fim do ano legislativo.

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Calheiros sempre mostrando sua essência, não consegue disfarçar por muito tempo!!
Se for isso, é vergonhoso!!!
Veta Lula!!!
E agora,Bahia!!que a vergonha compareça!!
Eu não acredito que Jaques Vagner tenha a cara de pau a fazer acordo a este nível onde o povo brasileiro não concorda e até foi às ruas protestar fora às hashtags nas redes sociais!!!
Vamos levantar uma hashtag contra este acordo!!!
#naoaoacordocomstfetudo