Virada posiciona Brasil como protagonista do reordenamento econômico mundial, priorizando multilateralismo e autonomia; Índia reduziu exposição aos títulos americanos, mas Brasil foi mais agressivo
Brasil vendeu US$ 61,1 bi em títulos do Tesouro dos EUA de out/2024 a out/2025, reduzindo 27% de suas reservas, e acumulou 43 toneladas de ouro, elevando total para 172 t. Com China, liquida comércio de soja em moedas locais, acelerando desdolarização no BRICS. Movimentos estratégicos mitigam riscos e fortalecem soberania, contrastando com compras europeias de títulos americanos.
Brasília (DF) · 25 de janeiro de 2026
O Brasil executou uma das mais significativas reduções em suas reservas de títulos do Tesouro dos Estados Unidos, marcando um pivô deliberado em direção à diversificação econômica e ao fortalecimento de alianças dentro do bloco BRICS, em um movimento que ecoa através dos mercados internacionais.
A estratégia recalibra as finanças e sublinha tensões geopolíticas crescentes em um mundo multipolar.
A operação, detalhada em relatórios recentes, como as reportadas pela Watcher.Guru, envolveu a venda de US$ 61,1 bilhões em títulos do Tesouro americano entre outubro/2024 e outubro/2025, representando quase 27% das participações totais do país, a maior redução percentual global.
O Brasil acumulou 43 toneladas em suas reservas de ouro nos últimos três meses de 2025, elevando o total para cerca de 172 toneladas, segundo a Gold.org.
Quanto ao comércio de soja, Brasil e China têm usado moedas locais em transações bilaterais, incluindo soja, como parte de acordos para reduzir a dependência do dólar, com swaps cambiais operacionais desde 2023 e ampliados em 2025, conforme a Evrimagaci.org.
Essas ações refletem uma política ativa de desdolarização nos BRICS.
As recentes reduções das reservas de títulos do Tesouro dos Estados Unidos pelo Brasil é a maior em percentual observada globalmente nesse período, superando até mesmo ações semelhantes de Índia (cerca de 21%) e China (menos de 10%), conforme análise da ING Think.
Diferentemente de decisões puramente financeiras, o timing coincide com yields (rendimentos) elevados nos títulos americanos – um momento tipicamente atrativo para investidores institucionais –, o que reforça o caráter estratégico da manobra.
Paralelamente, o Banco Central do Brasil redirecionou recursos para ativos mais tangíveis, acumulando 43 toneladas de ouro em apenas três meses (setembro a novembro/2025). Essa aquisição elevou as reservas totais para 172 toneladas, equivalendo a cerca de 6% das reservas internacionais do país, de acordo com dados da World Gold Council.
O aumento de 33% nas reservas de ouro após uma pausa de quatro anos destaca uma estratégia de hedge contra volatilidades, espelhando táticas adotadas por Índia e China.
No front comercial, Brasil e China avançaram na desdolarização de transações bilaterais, com foco no comércio de soja – commodity na qual o Brasil é o maior produtor e exportador mundial, e a China, o principal importador, respondendo por 60% a 66% das importações globais.
Acordos firmados desde 2023, mas operacionalizados recentemente, permitem liquidações em real e yuan, contornando o dólar americano.
Essa prática, confirmada pela Fundación Andrés Bello, prova a viabilidade de sistemas de pagamento alternativos e swaps cambiais, acelerando a agenda de desdolarização no bloco BRICS.
Essas ações ocorrem em meio a alertas repetidos do ex-presidente Donald Trump sobre os riscos da desdolarização para a economia americana. No entanto, como observado em análises da AgWeb, nações BRICS – incluindo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – transformaram retórica em política ativa, com novas instituições financeiras e trocas em moedas locais apontando para uma erosão gradual da dominância do dólar.
O impacto vai além das finanças: ao reduzir a exposição a títulos americanos, Brasil mitiga riscos associados a crises nos Estados Unidos, enquanto o acúmulo de ouro fortalece a soberania monetária. No comércio, a desdolarização de soja não só economiza custos de conversão cambial, mas também isola transações de sanções unilaterais.
Especialistas consultados pela South China Morning Post – em reportagem sobre o avanço do yuan no Brasil – enfatizam que “a desdolarização reflete rachaduras no sistema de liquidações em dólar americano“.
Enquanto Europa aumentou suas compras de títulos americanos em 80% entre abril e novembro/2025, conforme dados da Yahoo Finance, o contraste com ações de nações emergentes ilustra uma bifurcação global.
O relatório do Fundo Monetário Internacional sobre a consulta Artigo IV de 2025 para o Brasil nota uma queda de US$ 25 bilhões nas reservas cambiais totais em 2024, mas afirma que elas permanecem adequadas, sublinhando a resiliência da estratégia.
Essa virada posiciona Brasil como protagonista em um reordenamento econômico mundial, priorizando multilateralismo e autonomia. No entanto, desafios persistem, incluindo volatilidade cambial e pressões inflacionárias, demandando vigilância contínua.
Desdolarização do comércio de soja
Ha um processo real e em andamento de desdolarização (ou redução do uso do dólar) no comércio bilateral entre Brasil e China, incluindo transações envolvendo soja — principal produto de exportação brasileira para o país asiático.
Desde 2023, Brasil e China firmaram acordos para permitir liquidações comerciais em real e yuan, evitando o dólar como moeda intermediária. Esses mecanismos foram testados, ajustados e operacionalizados progressivamente nos anos seguintes.
Em 2025, o uso de moedas locais avançou significativamente: fontes indicam que cerca de 40% das transações bilaterais totais (incluindo soja, minério de ferro, petróleo e outros) foram liquidadas em yuan ou real, um salto expressivo em relação a anos anteriores.
Pela primeira vez, alguns contratos de exportação de soja (e também de carne) para a China foram liquidados diretamente em yuan, contornando o dólar.
A China importa cerca de 60–70% da soja brasileira e o Brasil responde por grande parte das importações chinesas de soja. Qualquer mudança no mecanismo de pagamento afeta diretamente esse fluxo.
O movimento faz parte da estratégia mais ampla do BRICS – e especialmente da China – para reduzir dependência do dólar, com infraestrutura de pagamentos alternativos (como swaps cambiais e sistemas de clearing) já em uso.
O yuan já se tornou a segunda moeda mais importante nas reservas internacionais do Brasil – superando o euro em alguns trimestres -, e acordos como o swap cambial ampliado (R$ 157 bilhões) facilitam o acesso direto ao yuan sem passar pelo dólar.
Não é 100% desdolarizado — a maioria das transações ainda usa dólar, especialmente em contratos mais antigos ou com intermediários internacionais. O processo é gradual e seletivo. Em 2026, o foco continua:
O uso de moedas locais segue crescendo, mas o volume total de soja para China pode cair ligeiramente devido a acordos EUA-China e maior competição americana, não necessariamente por desdolarização. O impacto é mais visível em custos – menos taxas de conversão, proteção contra flutuações do dólar – e soberania financeira, mas ainda não domina o mercado inteiro de soja.
Mas uma desdolarização parcial é crescente no comércio de soja Brasil-China, com contratos em yuan já ocorrendo em 2025 e tendência de expansão em 2026, como parte da agenda BRICS e da estratégia chinesa de internacionalização do yuan.

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