Emenda apresentada pelo parlamentar em agosto de 2024 na PEC do Banco Central é apontada como primeira “digital” da Bancada do Master no Congresso
Brasília (DF) · 02 de fevereiro de 2026
Um grupo de parlamentares conhecido como Bancada do Master tem sido acusado de orquestrar ações no Congresso Nacional para beneficiar o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, enquanto blindam aliados políticos e pressionam instituições como a Polícia Federal (PF) e o Banco Central (BC).
As revelações, publicadas nesta segunda-feira (02/fev) peloEstadão, detalham uma série de propostas legislativas que coincidem com o cronograma de fraudes estimadas em R$ 12,2 bilhões.
O epicentro das manobras remonta a 13 de agosto de 2024, quando o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do PP, apresentou uma emenda à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da autonomia financeira do BC visando elevar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF.
Essa alteração, identificada como uma das primeiras “digitais” da bancada, favoreceria diretamente o modelo de negócios do Master, baseado em CDBs com rentabilidades acima da média, como admitido por Vorcaro em depoimento à PF: “O modelo de negócio era 100% baseado no FGC”.
A emenda não prosperou, rejeitada pelo relator Plínio Valério (PSDB-AM), mas foi replicada em novembro de 2024 por um projeto de lei do deputado Filipe Barros (PL-PR), que permanece engavetado na Câmara sob o presidente Hugo Motta (Republicanos-PB).
Investigações da PF, sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF) e supervisionadas pelo ministro Dias Toffoli, revelam que o BRB (Banco de Brasília), controlado pelo governo do Distrito Federal, adquiriu carteiras de crédito consignado falsas do Master entre janeiro e junho de 2025, totalizando R$ 6,7 bilhões em carteiras e R$ 5,5 bilhões em prêmios.
A tentativa de compra do Master pelo BRB foi vetada pelo BC em setembro de 2025, culminando na prisão de Vorcaro em novembro e na liquidação do banco.
Em depoimento à PF em 30 de dezembro de 2025, Vorcaro negou relações próximas com políticos, afirmando: “Se tivesse influência política, não estaria de tornozeleira. Não teria sido preso”, conforme relatório BBC.
Paralelamente, líderes da Câmara tentaram empoderar o Congresso para destituir diretores do BC. Em 2 de setembro de 2025, o deputado Claudio Cajado (PP-BA), aliado de Nogueira, apresentou requerimento de urgência para um projeto de 2021, apoiado por líderes como Isnaldo Bulhões (MDB-AL) e Doutor Luizinho (PP-RJ).
A iniciativa foi criticada por ex-diretores do BC, como Henrique Meirelles, e pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, por ameaçar a independência da autarquia durante as apurações sobre o Master.
A proposta foi retirada após objeções internas do PSB, com o líder Pedro Campos (PSB-PE) destacando denúncias prévias contra o banco.
Em 16 de setembro de 2025, a Câmara aprovou a PEC da Blindagem, relatada por Cajado, concedendo foro privilegiado a dirigentes partidários no STF.
Patrocinada por Motta e apoiada por Nogueira e Antonio Rueda, presidente do União Brasil, a medida coincidiu com o veto à compra do Master e investigações em curso.
O União Brasil controla o RioPrevidência, que investiu R$ 1 bilhão no Master, alvo de operação da PF.
Rueda é apontado como “lobista” do Master no Congresso, segundo parlamentares ouvidos reservadamente pelo O Globo, que revelou a agenda de contatos de Vorcaro incluindo ministros do STF e cúpula legislativa.
No front antifacção, o relator Guilherme Derrite (PP-SP) alterou o PL enviado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em novembro de 2025, limitando a atuação da PF a casos interestaduais ou transnacionais, com divisão de recursos.
As mudanças, revertidas no Senado, ocorreram um dia após a prisão de Vorcaro e foram vistas como tentativa de obstruir investigações, conforme líderes da Câmara.
Atualmente, Motta e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), resistem à instalação de uma CPI do Master, com Rueda atuando para barrar assinaturas.
O governo Lula também se opõe, com o líder na Câmara, José Guimarães (PT-CE), contra o colegiado, apesar de apoio de Randolfe Rodrigues (PT-PA).
O Centrão articula para esvaziar a comissão, temendo exposição de laços com Vorcaro. Ademais, a bancada apoiou o ministro Jhonatan de Jesus do Tribunal de Contas da União (TCU) em questionar a liquidação do Master, com pressões relatadas por auditores.
O senador Renan Calheiros (MDB-AL) acusou Arthur Lira (PP-AL) e Motta de influenciar o TCU para anular a decisão do BC.
Por fim, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), confirmou indicar Ricardo Lewandowski, ex-ministro do STF, como consultor do Master por intermédio de Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. Wagner negou envolvimento na “confusão”, mas não assinou a CPI.
Segundo a Folha de S. Paulo, laços de Vorcaro com o STF reforçam percepções de imparcialidade questionável. Essas articulações ilustram uma teia de influência que transcende ideologias, priorizando proteção mútua em detrimento da transparência, em um ano eleitoral crucial.

SIGA NAS REDES SOCIAIS

![]()
Compartilhe via botões abaixo:

