Ex-governador paranaense critica dependência do agronegócio e ausência de projeto industrial para elevar renda da população
Brasília, 27 de dezembro 2025
Em entrevista concedida ao jornalista Marcelo Campos, na TV Senado, o ex-governador e ex-senador Roberto Requião apresentou uma visão crítica e contundente sobre as negociações do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia.
Embora o bloco possa representar um mercado de 718 milhões de pessoas e um PIB de 22 trilhões de dólares, Requião alerta que, nos moldes atuais, o tratado compromete a soberania nacional.
Para ele, “este acordo é um acordo que transforma o Brasil em colônia” e os interesses do país são ignorados pela falta de um projeto de desenvolvimento industrial.
O Agro e o Vazio Industrial
Apesar de ter sido governador do Paraná por três vezes e ter aberto mercados para o setor na China, Requião afirma que não é inimigo do campo, mas ressalta que o agronegócio sozinho não sustenta a economia social.
Segundo ele, “o agronegócio que é interessante que nos dá receita que nos melhora a balança ele não dá emprego” e promove uma concentração brutal de renda.
O ex-senador destaca que, enquanto o Brasil cresce extraordinariamente na agricultura, isso não se reflete no bem-estar da população, já que 90% dos brasileiros ganham menos de três salários mínimos.
O Entrave da França e a Geopolítica
Um dos principais obstáculos para a assinatura, discutida há 25 anos, é a resistência da França. Requião explica que a agricultura francesa é baseada em pequenos produtores e subsídios governamentais, o que os torna menos competitivos que a escala brasileira.
“Este pessoal na França esses agricultores tem um peso político muito grande”, pontua, afirmando que eles temem a dependência absoluta de produtos externos em caso de conflitos geopolíticos.
Por outro lado, ele critica o fato de as negociações terem ocorrido de forma pouco transparente. Como ex-presidente do Parlamento Europeu Latino-Americano (Eurolat), do Parlasul e do Parlatino, ele revelou que os parlamentares raramente tinham acesso aos detalhes do processo, conduzido pelo Itamaraty sob interesses específicos.
Críticas ao Modelo Econômico e ao “Arcabouço”
Roberto Requião não poupou críticas à atual política econômica do governo Lula, citando especificamente o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Para o entrevistado, o atual “arcabouço do meu amigo Hadad” impede investimentos produtivos e submete o país ao rentismo do Banco Central independente.
Ele compara a situação atual ao “peronismo” da Argentina, onde políticas compensatórias — como o que chamou de “bolsa picanha” — substituem o crescimento estrutural.
O ex-senador mencionou que, em 18 de dezembro, data da gravação da entrevista, havia expectativa de assinatura para o dia 20 de dezembro, mas reforçou que as salvaguardas exigidas pela União Europeia para proteger setores franceses e italianos acabam por “eliminar a possibilidade do Brasil se desenvolver”.
Soberania e o Futuro da Nação
Para Requião, a cidadania está ligada ao domínio de um projeto de desenvolvimento nacional e ao nacionalismo.
Ele criticou a continuidade de leilões da Petrobras e a entrega de pesquisas na margem do Amazonas a multinacionais, comparando a postura defensiva de Donald Trump nos Estados Unidos com a abertura brasileira.
“O Brasil vai se transformar numa colônia de exportação de commodities agrícolas e minerais”, vaticinou, caso não haja uma mudança de rumo que priorize a ciência, tecnologia e educação.
Para ele, o embate político entre Lula e Bolsonaro é secundário diante da necessidade de o país se confirmar como nação soberana.
O que o ex-governador do Paraná quis dizer é algo como um país comparado a uma grande fazenda que decide vender toda a sua colheita para comprar ferramentas prontas de fora, em vez de construir sua própria oficina.
Nessa reflexão, no curto prazo, há dinheiro no caixa, mas, com o tempo, a fazenda perde a habilidade de consertar seus próprios problemas e fica totalmente dependente do preço e da vontade de quem fabrica as ferramentas.
Para Requião, o Brasil está correndo o risco de esquecer como se constrói a “oficina” industrial para viver apenas do que planta.

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