“Torço para que Bolsonaro morra”, diz colunista da Folha, Mendonça manda PF investigá-lo e nova matéria diz que o presidente deveria responder pela morte de 65 mil

07/07/2020 0 Por Redação Urbs Magna

UM Brasil – Após dizer que torce para que o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, morra de covid-19, o jornalista da Folha de São Paulo, Hélio Schwartsman, deverá ser investigado pela Polícia Federal a pedido do Ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça. O jornal, então, se antecipando ao que estaria por vir, publicou um artido de Thiago Amparo, advogado e professor de políticas de diversidade na FGV Direito SP, em que diz que “torcer para que Bolsonaro morra é nos igualar a ele” e que “em vez disso, o presidente deveria responder legal e politicamente pela morte de 65 mil pessoas“.

André Mendonça, Ministro da Justiça e Segurança Pública, Hélio Schwartsman, jornalista da Folha de São Paulo, e Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil

O colunista publicou: “Por que torço para que Bolsonaro morra – o presidente prestaria, na morte, o erviço que foi incapaz de ofertar em vida“. No texto, Schwartsman diz que “a morte do presidente torna-se filosoficamente defensável, se estivermos seguros de que acarretará um número maior de vidas preservadas”, dentre outras justificativas (leia a íntegra no final desta matéria).

Mas o título da publicação do colunista por si só bastou para que André Mendonça acionasse a Polícia Federal. O ministro rechaçou-a via seu perfil oficial no microblog Twitter elencando princípios básicos do Estado democrático de Direito, entre eles o da liberdade de imprensam, mas destacou que a Constituição limita essas liberdades acrescentando que “quem defende a democracia deve repudiar o artigo”.

Veja:

Leia os motivos que levaram o jornalista ao seu desejo infeliz e, a seguir, o artigo de Tiago Amparo:

Hélio Schwartsman
Jair Bolsonaro está com Covid-19. Torço para que o quadro se agrave e ele morra. Nada pessoal.

Como já escrevi aqui a propósito desse mesmo tema, embora ensinamentos religiosos e éticas deontológicas preconizem que não devemos desejar mal ao próximo, aqueles que abraçam éticas consequencialistas não estão tão amarrados pela moral tradicional. É que, no consequencialismo, ações são valoradas pelos resultados que produzem. O sacrifício de um indivíduo pode ser válido, se dele advier um bem maior.

A vida de Bolsonaro, como a de qualquer indivíduo, tem valor e sua perda seria lamentável. Mas, como no consequencialismo todas as vidas valem rigorosamente o mesmo, a morte do presidente torna-se filosoficamente defensável, se estivermos seguros de que acarretará um número maior de vidas preservadas. Estamos?

No plano mais imediato, a ausência de Bolsonaro significaria que já não teríamos um governante minimizando a epidemia nem sabotando medidas para mitigá-la. Isso salvaria vidas? A crer num estudo de pesquisadores da UFABC, da FGV e da USP, cada fala negacionista do presidente se faz seguir de quedas nas taxas de isolamento e de aumentos nos óbitos. Detalhe irônico: são justamente os eleitores do presidente a população mais afetada.

Bônus políticos não contabilizáveis em cadáveres incluem o fim (ou ao menos a redução) das tensões institucionais e de tentativas de esvaziamento de políticas ambientais, culturais, científicas etc.

Numa chave um pouco mais especulativa, dá para argumentar que a morte, por Covid-19, do mais destacado líder mundial a negar a gravidade da pandemia serviria como um “cautionary tale” de alcance global. Ficaria muito mais difícil para outros governantes irresponsáveis imitarem seu discurso e atitudes, o que presumivelmente pouparia vidas em todo o planeta. Bolsonaro prestaria na morte o serviço que foi incapaz de ofertar em vida“.

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Tiago Amparo
Torcer para que Bolsonaro morra é nos igualar a ele – Em vez disso, presidente deveria responder legal e politicamente pela morte de 65 mil pessoas.

Tecer um argumento é como lapidar um diamante. Exige cuidado e critério. Requer, acima de tudo, separar, de um lado, o que é um argumento de razão pública aplicável à toda a coletividade, e o que é uma reação que vem das vísceras de quem a profere, de outro.

Ao torcer para que Bolsonaro morra de Covid-19, Hélio Schwartsman joga diamantes falsos aos porcos. E os porcos, neste caso, somos nós. Transveste violência de argumento. Ao apelar para as nossas entranhas raivosas, Schwartsman inflige a todos nós a mesma doença que queremos combater na figura de Bolsonaro: o culto à morte.

Que fique claro: todos os que não pactuam com a necropolítica instaurada pelo próprio Bolsonaro, dele sentem raiva. Deveriam, ao menos. É o que nos faz humanos.

Para o psicólogo Paul Ekman, raiva é uma das emoções basilares da condição humana. Para a feminista Audre Lorde, raiva é o que se deve sentir diante de um sistema opressivo. Acontece que apelar à raiva justiceira num país endemicamente violento é reeditar o mundo que queremos destruir.

No argumento consequencialista que Schwartsman apresenta, a consequência é reeditar o ideal bolsonarista onde a vida humana não tenha qualquer valor. Torcer para que Bolsonaro morra é nos igualar a ele. Se vísceras produzissem bons argumentos, o sistema pré-iluminista de linchamento público teria sido um ótimo lugar para se viver. Não foi. E a violência reeditada todos os dias em nossas ruas revive este lugar onde humanidade não tem espaço.

Que a raiva contra Bolsonaro mostre o diamante que nela se esconde: sede por justiça. E isto não será feito dilacerando-o na praça pública que é este jornal. Derramamos muitos séculos de sangue contra o fascismo para que hoje reencarnemos sua lógica.

Lembro aqui de Judith Butler em “The Force of Non-Violence”: que tipo de mundo estamos construindo quando apelamos para a violência? Tampouco estamos falando aqui da violência, defendida por Fanon, como libertação diante da opressão colonial. Schwartsman, em seu argumento, instrumentaliza a morte para que nossas vísceras sintam o gosto da própria morte.

Que nossa raiva contra Bolsonaro se reverta não em culto à morte, mas em justiça: que ele responda legal e politicamente pela morte de 65 mil pessoas que hoje poderiam, deveriam estar vivas”.​

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