Teich entrega Bolsonaro na CPI da Covid: depoimento é prova de crime, diz Kennedy Alencar

05/05/2021 0 Por Redação Urbs Magna
O ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, presta depoimento na CPI da Pandemia | Imagem reprodução

Ex-ministro da Saúde “de fachada” decidiu sair do governo por não aceitar ter que recomendar cloroquina como queria o presidente

O ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, confirmou que o presidente Jair Bolsonaro, ao receitar a cloroquina, comete um crime previsto no artigo 132 do Código Penal (“expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente”).

Apesar de todas as evidências científicas apontare que a droga usada para a malária é ineficaz contra o coronavírus e tem efeitos colaterais que podem levar à morte ou a complicações cardíacas, Bolsonaro reitera o crime nos dias de hoje, continuando a recomendar o uso do remédio.

A fala de Teich é prova do crime presidencial”, diz o jornalista Kennedy Alencar, no UOL. No depoimento, ficou claro que o médico foi escolhido por Bolsonaro para ser um ministro da Saúde de fachada, mas não topou a farsa. Ele repetiu diversas vezes que decidiu sair quando foi pressionado por Bolsonaro a recomendar a cloroquina para combater a covid-19.

Teich foi ministro por um curto período, entre 17 de abril e 15 de maio de 2020. Ele revelou que, nessa época, não sabia que o Exército ampliara sua produção de cloroquina nem que o medicamento estava sendo distribuído a populações indígenas. Ou seja, havia medidas que eram tomadas sem que fosse consultado e informado.

Teich confirmou que o general Eduardo Pazuello foi indicado por Bolsonaro para secretário-executivo do Ministério da Saúde, o número dois da pasta. Disse que esperava que Pazuello cumprisse suas orientações depois de reunião na qual achou que a experiência prévia do militar o ajudaria e que foi dele a decisão de aceitar a indicação presidencial.

Sem nenhum jogo de cintura político, Teich foi um “técnico”, como ressaltou diversas vezes, que não apitava e do qual era esperada concordância com a recomendação da cloroquina contra a covid-19. Mas o plano de Bolsonaro deu errado.

Indagado pelo relator Renan Calheiros (PMDB-AL) por que deixou o ministério após 29 dias, respondeu que se deveu ao “pedido específico [de Bolsonaro] pela ampliação do uso da cloroquina”. Segundo Teich, ele percebeu que “não teria autonomia necessária para conduzir da forma mais correta”. Na fala de introdução, Teich já havia afirmado: “Sem a liberdade para conduzir o ministério conforme as minhas convicções, optei por deixar o cargo”.

A breve passagem de Teich pelo Ministério da Saúde é uma prova da forte intervenção política de Bolsonaro sobre a pasta durante toda a pandemia.

O ex-ministro relatou que Bolsonaro, após reunião com empresários e uma live no Facebook, disse que o uso da cloroquina seria expandido pelo Ministério da Saúde. Segundo Teich, ele pediu exoneração no dia seguinte.

Em resumo, o médico não topou continuar ministro diante de um presidente que não lhe dava autonomia, negava a ciência e recomendava um medicamento ineficaz e perigoso para ser usado no combate à covid-19. Há diversas falas do presidente dizendo para as pessoas tomarem cloroquina. Ou seja, é fato notório que ele se comporta como médico e expõe a população a risco ao agir assim.

Na mesma linha do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que prestou depoimento na terça, a fala de Teich é mais uma prova dos crimes comuns e de responsabilidade ao longo da pandemia. Mandetta e Teich ajudaram a Comissão Parlamentar de Inquérito a documentar as condutas de Bolsonaro ao implementar uma estratégia negligentemente homicida na pandemia e que resultou na morte de mais de 400 mil pessoas.

A CPI tem a missão de formalizar as responsabilidades penais e políticas de Bolsonaro diante da omissão de autoridades que já poderiam ter feito isso. Essas autoridades são o procurador-geral da República, Augusto Aras, e os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).


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