Prevent Senior ocultou óbitos em estudo sobre cloroquina, com resultados manipulados, apoiado por Bolsonaro

16/09/2021 0 Por Redação Urbs Magna
Prevent Senior ocultou óbitos em estudo sobre cloroquina, com resultados manipulados, apoiado por Bolsonaro

Em julho de 2020, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, foi fotografado ao exibir uma caixa de cloroquina a emas no terreno ao lado do Palácio do Alvorada, em clara manifestação para divulgação da droga não comprovada cientificamente para o combate ao novo coronavírus / Fachada da Prevent Senior/divulgação | sobreposição de imagens


PROGRESSISTAS POR UM BRASIL SOBERANO

Nove pacientes morreram durante a pesquisa do plano de saúde Prevent Senior sobre a droga sem eficácia comprovada. Operadora é alvo de investigações da CPI

Um dossiê mostrou que o plano de saúde Prevent Senior ocultou nove mortes ocorridas entre os participantes de um estudo, apoiado por Jair Bolsonaro para justificar a prescrição do medicamento, para testagem da hidroxicloroquina associada à azitromicina – ambas de eficácia não comprovada, mas os autores mencionaram somente duas mortes. A informação foi publicada na GloboNews e reproduzida no G1. Um médico que manteve contato frequente com os diretores da operadora, que apresentava resultados dos estudos bem antes da conclusão, mostrou toda a manipulação para demonstrar a eficácia da cloroquina.

A empresa é investigada pela CPI da Covid e o seu diretor-executivo, o médico Pedro Benedito Batista Júnior, não compareceu ao depoimento previsto para esta quinta-feira (16), sob alegação da Prevent Senior de que não conseguiu encontrá-lo. 

Dos 636 participantes, apenas 266 fizeram o exame de eletrocardiograma, recomendado para pacientes tratados com cloroquina por conta do risco de problemas cardíacos, além de somente 93 pessoas que realizaram teste de Covid. Deste total, 62 testaram positivo, o que representa menos de 10%.

A Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) aprovou o estudo, mas depois acabou suspendendo-o por constatar que a investigação começou a ser feita antes da aprovação legal.

A pesquisa começou a ser feita em 25 de março. Em mensagem em grupos de aplicativos de mensagem, o diretor da Prevent, Fernando Oikawa, orientou subordinados a não avisar os pacientes e familiares sobre a medicação. “Iremos iniciar o protocolo de HIDROXICLOROQUINA + AZITROMICINA. Por favor, NÃO INFORMAR O PACIENTE ou FAMILIAR, (sic) sobre a medicação e nem sobre o programa”, dizia a mensagem.

Dos nove pacientes que morreram, seis estavam no grupo que tomou hidroxicloroquina e azitromicina. Dois estavam no grupo que não consumiu as medicações. Há um paciente cuja tabela não informou se ingeriu ou não a medicação.

Outro diretor da Prevent determinou aos coordenadores das unidades a alteração do código de diagnóstico (CID) dos pacientes que deram entrada com Covid-19 após algumas semanas de internação.

“Após 14 dias do início dos sintomas (pacientes de enfermaria/apto) ou 21 dias (pacientes com passagem em UTI/Leito híbrido), o CID deve ser modificado para qualquer outro exceto o B34.2 (código da Covid-19) para que possamos identificar os pacientes que já não tem mais necessidade de isolamento. Início imediato”.

Orientação dada a pesquisadores O cardiologista Rodrigo Esper postou uma mensagem de áudio no grupo de pesquisadores do estudo para orientá-los quanto à revisão dos dados dos pacientes após quatro dias da publicação do artigo científico com os resultados, sem que estivessem revisados. No áudio, Esper cita a mensagem do presidente sobre o estudo, acrescenta que os dados precisam ser “assertivos”, “perfeitos”, para que não haja contestação e finaliza argumentando que esse estudo vai “mudar o curso da medicina”:

Oi pessoal, tudo bem? É o Esper falando, tá, eu tô aqui com o (Fernando) Oikawa. Seguinte, a gente precisa revisar esses dados no máximo até amanhã, de todos os pacientes, então botei mais força aqui no grupo. Esses dados, são os dados… a gente tá revisando todos os 636 pacientes do estudo. Já tem mais ou menos uns 140 revisados, mas a gente precisa fazer a força-tarefa pra acabar isso amanhã. Só que a gente precisa olhar tudo. Se teve eletro (eletrocardiograma) ou não, se teve alteração no intervalo QT ou não, se fez swab pra Covid sim ou não. Então vamos programar uma live hoje, às 17h, com todos aqui desse grupo… O Fernandão (Oikawa) vai mandar o link aqui e aí a gente vai estabelecer os critérios e a gente vai pensar na tabela, estabelecer os critérios, e todos vão coletar os dados, e aí com umas seis pessoas, aí dá tipo 100 pacientes pra cada um, nem que a gente coloque mais gente aqui. O Fernando vai recrutar pelo menos mais dois colegas para colocar, pode ser essa colega aí do pronto-socorro, mas o dado precisa ser assertivo e perfeito porque o mundo tá olhando pra gente, tá? Esses dados vão mudar a trajetória da medicina nos próximos meses aí no mundo, tá bom? O (microbiologista francês) Didier Raoult, eu entrei em contato com ele ontem, ele citou o nosso trabalho no Twitter, eu respondi ele, e então a gente precisa ser perfeito, o dado, tá? Até o presidente da República citou a gente. Esse áudio tem que ficar aqui, não pode sair. Então, vamos reunir às cinco horas hoje, numa videoconferência, todos, pra gente ajustar os parafusos e todo mundo falar a mesma língua e ter um levantamento perfeito do dado. Obrigado.”

Em nota, a operadora negou e repudiou as denúncias, e disse que está tomando medidas para investigar quem, segundo a empresa, “está tentando desgastar a imagem da Prevent Senior”. Disse ainda que os médicos sempre tiveram a autonomia respeitada, e que atuam com afinco para salvar milhares de vidas. A empresa reiterou que os números à disposição da CPI demonstram que a taxa de mortalidade entre pacientes de Covid-19 atendidos por seus profissionais de saúde é inferior as demais.

Comente