Prefeito de Campinas ‘puxa orelha’ de Bolsonaro e pede para não demitir Mandetta

06/04/2020 0 Por Redação Urbs Magna

Jonas Donizette, prefeito da cidade de Campinas, SP, publica ‘Carta aberta ao presidente Jair Bolsonaro‘ dizendo que “não é hora de desvalorizar quem está na frente da batalha“, em referência ao Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta que sofre perseguição do chefe do Executivo por puro ciúmes.

Mandetta / Bolsonaro / O prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB-SP), presidente da Frente Nacional de Prefeitos – Keiny Andrade – 20.mar.18/Folhapress

Ontem, Bolsonaro apareceu em vídeo dizendo que “a hora dele vai chegar e minha caneta funciona“. O ministro segue as recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) que orienta as nações do mundo ao isolamento social como melhor medida para combater o surto pandêmido do coronavírus, mas o presidente quer a volta do país à normalidade temendo pela quebra da economia, o que inevitavelmente trará o fim de seu governo.

A publicação foi veiculada pelo jornal Folha de São Paulo na tarde desta segunda-feira (6) após um dia tenso em que o presidente da República foi desaconselhado por generais do Planalto sobre a decisão pela exoneração de Mandetta. O Ministro segue à frente da luta contra o sars-cov-2 orientando o Brasil pela manutenção da quarentena. Leia Carta Aberta a seguir:

Senhor presidente, é evidente e notável sua capacidade de reunir, estimular a população e também seguidores nas redes sociais. No entanto, especialmente neste momento em que atravessamos muitas dificuldades, suas atitudes têm dificultado o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus. Suas mudanças de humor e de comportamento nos deixam estarrecidos.

Preocupar-se com a economia e com empregos não é uma exclusividade sua. Pelo contrário, todos nós, prefeitos e governadores, temos isso também como prioridade, tanto pelo sustento das pessoas como também porque é a atividade econômica que gera impostos e possibilita executar os serviços públicos. Na verdade, como o senhor bem sabe, e já reconheceu várias vezes, as demandas da população recaem sobre prefeitas e prefeitos.

É hora de construir uma coesão de atitudes, de ouvir as pessoas corretas. Sempre haverá vozes dissonantes, mas agora é momento de apelar ao bom senso e seguir as orientações científicas. E sobre isso, permita-me fazer uma reprimenda: não se critica um soldado no meio da guerra. Ele precisa de incentivo, e não de crítica. A sua fala para o ministro Mandetta foi extemporânea e, usando uma linguagem militar, para que compreenda melhor, enfatizo: quando o comandante não tem o respeito da tropa, ele já começa a ter o seu cargo ameaçado.

Tenho convicção de que essa não é a hora de desvalorizar quem está na frente da batalha. O ministro é um técnico, um médico habilitado e que está fazendo o melhor possível, com os insumos que dispõe.

A hora é de ter uma atitude em prol da união: parar com essa variação de humor e, principalmente, parar de apontar culpados. Siga o que disse em seu pronunciamento na televisão no dia 31 de março, pois o momento é de união.

É importante ressaltar que não o estou culpando pela situação. Estamos atravessando uma pandemia, com um vírus que está contaminando o mundo todo e demandará atitudes centradas e coordenadas no seu enfrentamento. Por isso, essas variações de humor e de sinalizações ambíguas só confundem a população.

Cabe ressaltar que a demora que estamos verificando nas tomadas de decisões também atrapalham fortemente o processo. Com a experiência de estar há quase oito anos administrando uma grande cidade e também há quase quatro anos dirigindo a Frente Nacional de Prefeitos, afirmo que conheço a morosidade do serviço público. Mas, neste momento, um instante, um dia, significarão vidas perdidas. Por isso, precisamos de decisões e atitudes tempestivas.

Muitos dos compromissos firmados com os municípios, principalmente os populosos, que são os que mais estão fazendo o atendimento aos doentes, ainda não foram cumpridos; recursos, equipamentos e testes não estão chegando para atender ao tamanho da necessidade. Precisamos de agilidade neste momento.

Presidente, como esta minha carta é uma atitude pensada para construir e para o bem do país, quero, como já disse na reunião que tivemos na teleconferência, oferecer o apoio dos prefeitos. Sabemos que sua responsabilidade é muito grande.

Por isso, pedimos uma postura uníssona. Pedimos que mantenha a mesma postura diante das câmeras, nas conversas na porta do Palácio e também nas redes sociais. Mesmo que para agradar a um público específico, não faz sentido atacar as pessoas que estão trabalhando honestamente e com muito afinco. O senhor não precisa disso. O Brasil não merece isso, pelo contrário.

Atenciosamente, e com o desejo de que o Brasil possa ter essa união, deixo aqui os meus cumprimentos em nome de prefeitas e prefeitos brasileiros.

Jonas Donizette

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