O ‘texto de despedida’ de Bolsonaro para quando ele for ‘afastado por genocídio’

08/03/2021 0 Por Redação Urbs Magna

Advogado compõe um ‘discurso decente’ para o presidente ler em cadeia nacional, caso ele tivesse decência, para ser discursado quando ele for afastado por genocídio e impedido de exercer seu cargo por permitir e ser responsabilizado pelas milhares de mortes decorrentes de sua má administração da pandemia no Brasil

Antes de apresentar aos leitores o texto mea-culpa que seria lido por Bolsonaro, Thiago Amparo, advogado e professor de direito internacional e direitos humanos na FGV, diz que “falta ao presidente da república decência política, eis um discurso que faria se a tivesse”.

O fictício pronunciamento em cadeia nacional se dará quando Bolsonaro for “suspenso de suas funções como presidente após ter sido recebida denúncia de genocídio pelo Supremo Tribunal Federal e por dois terços da Câmara dos Deputados, como determina a Constituição Federal”, diz o advogado.

Assim, realizando o sonho de mais de 70% dos brasileiros, o advogado também afirma que “nos próximos 180 dias a nação respirará sem aparelhos ao julgamento em cadeia nacional. Bolsonaro sairá da presidência e entrará para os livros de história como o presidente que sonhou que o país só iria “mudar matando uns 30 mil”. “Outros 320 mil morreram”.

Ao propor o texto, o advogado enumera os erros presidenciais que geraram o caos na Saúde durante a pandemia, conforme escreveu para a Folha de S. Paulo nesta segunda (8). Leia o discurso proposto abaixo:

“Brasileiros e brasileiras. Primeiro, quero agradecer a Deus por estar vivo, repetindo o que eu disse à nação em 1º janeiro de 2019. Não posso afirmar o mesmo sobre outros 350 mil brasileiros e brasileiras. “E daí? Lamento”, eu disse em abril de 2020 sobre a “gripezinha”. Confesso que errei. Errei como Epitácio Pessoa, quando no auge da gripe espanhola em 1919, discursou pregando o nacionalismo e austeridade fiscal (“Todos os brasileiros devem fazer do bom nome do Brasil uma questão de honra nacional”, disse). Hoje, afastado da presidência, confesso que errei.

Meus colegas cidadãos, as mortes por Covid-19 estão sob os meus ombros. Eu menti, quando em 10 de junho, eu disse à Nação “que, por decisão do STF, as ações de combate à pandemia (fechamento do comércio e quarentena, p.ex.) ficaram sob total responsabilidade dos governadores e dos prefeitos”. A Constituição Federal, no seu artigo 23, estabelece que “é competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios cuidar da saúde e assistência pública.” Eu menti e sabia que estava mentindo. Sei que minha omissão deliberada matou milhares.

Quando eu disse, perante o mundo todo nas Nações Unidas em 22 de setembro de 2020, que “parcela da imprensa brasileira politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população”, eu estava me referindo a mim mesmo. Politizei o vírus por omissão, pisoteei com meus próprios pés cada um dos mortos pelo vírus que poderiam estar vivos hoje. Quando eu disse, neste mesmo dia, que “sob o lema ‘fique em casa’ e ‘a economia a gente vê depois’, quase trouxeram o caos social ao país”, eu menti e sabia que estava mentindo. Sei que a economia só será retomada com vacinação em massa.

Brasileiros e brasileiras, quando eu disse em 24 de outubro de 2020 que vacina obrigatória só em cachorro, eu quis esconder o meu próprio fracasso. Como nenhum outro presidente no mundo, eu lutei ativamente contra a vacina, porque é no caos que eu floresço. Se eu não tivesse rejeitado a oferta da Pfizer de 70 milhões de doses lá em agosto de 2020, como eu conseguiria manter o caos no país para depois galvanizá-lo em benefício próprio? Sou relevante porque quero destruir o país para depois dizer que vim para por ordem no lugar. Hoje, afastado da presidência, confesso que errei.

Sei que estão irritados. Quando, à luz do que aconteceu primeiro no Paraguai, um tsunami de protestos inundou a matança em curso por aqui, percebi que a maré havia virado. A vacina acabou, o apoio popular apagou, o auxílio sumiu, a economia esfriou, os militares ficaram sem discurso, o dólar não baixou, o mercado mofou. Não teve spray mágico de Israel, não deu tempo de ganhar o Congresso como Orban na Hungria ou “fuzilar a petralhada” como Duterte nas Filipinas.

Cá estou eu, sozinho no escuro, sem cavalo que fuja a galope, o que fazer senão renunciar?

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