“O Chile não quer outro governo de direita”, diz a presidenta do Senado do país sobre a eleição de independentes para mudar a Constituição

17/05/2021 0 Por Redação Urbs Magna
Yasna Provoste Campillay (Partido Democrata Cristão do Chile), presidente do Senado | FOTO: LEONARDO RUBILAR CHANDIA / AGENCIAUNO

Ativistas não políticos ligados a causas sociais farão parte dos 155 assentos da convenção que encerrará a Era Pinochet por meio da elaboração de um novo texto para as leis fundamentais e supremas do país: “Vejo isso com grande esperança de construir uma sociedade mais igualitária e com mais participação“, afirmou Yasna Provoste

A presidente do Senado do Chile, Yasna Provoste, afirmou no fim da noite deste domingo (16), após resultados parciais das eleições, que o “o Chile não quer outro governo de direita, e isso ficou evidente em todo o país, em todas as cédulas“. Ela lembrou que, em outubro de 2020, “80% dos chilenos foram a favor da aprovação e [agora] esperam pela convenção com a escrita de forma diferente” disse referindo-se ao novo texto para a Constituição do país, que terá, como completou, “alta presença do mundo independente e movimentos de fora dos partidos tradicionais“.

Ao procurar um elemento comum a todos os territórios, há uma opção clara de deixar para trás um modelo de desenvolvimento que tem sido mantido por meio de subsídios permanentes, como cargos indicados e manutenção do binômio; e quando essas barreiras são eliminadas, surgem novas forças e movimentos, que não vejo com medo, mas com grande esperança de construir uma sociedade mais igualitária e com mais participação”, disse Provoste de acordo com publicação no jornal chileno La Tercera.

Os cidadãos deram uma importante vitória à centro-esquerda, em todo o país. O presidente teve que se manifestar para reconhecer que foi a pior derrota depois do plebiscito que permitiu o fim da ditadura, e deve ser uma voz de advertência para trabalhar com unidade. Temos bons candidatos na oposição e espero que cheguemos a uma primária unitária para concretizar o projeto que dá sentido ao que o país exige”, afirmou a presidente do Senado do Chile mencionando, no contexto, uma declaração feita horas antes pelo mandatário do país.

Sebastián Piñera – Presidente da República do Chile

O Presidente da República do Chile, Sebastián Piñera, disse que “o público enviou-nos uma mensagem clara e forte ao governo, e a todas as forças políticas tradicionais, de que não estamos devidamente sintonizados com as demandas e desejos dos cidadãos. Estamos sendo desafiados por novas expressões e novas lideranças. É nosso dever como governo ouvir com humildade e atenção a mensagem do povo”.

A fala de Piñera foi feita após a projeção oficial indicativa de que o Chile Vamos – coalizão política de centro-direita composta por 4 partidos políticos – obteve apenas 38 dos 155 assentos (cerca de 25%) para a convenção constituinte, enquanto os independentes prevaleceram nas eleições com 48 assentos. 

Sebastián Piñera concluiu afirmando que todos têm que se “empenhar e fazer o que for necessário para melhor interpretar e responder às necessidades e desejos dos chilenos”.

Os independentes são cidadãos ligados a causas sociais diversas, desde o feminismo ao ambientalismo, educação, justiça social ou saúde, que apresentaram suas candidaturas pela primeira vez em toda a história chilena em que foi permitida a nomeação de pessoas de fora das estruturas partidárias.

O sucesso dos ativistas independentes está vinculado diretamente, neste processo constituinte, com os violentos protestos sociais ocorridos em outubro de 2019, que motivaram os cidadãos chilenos a participarem diretamente da construção do novo modelo de país ao qual reclamavam nas ruas.

Os partidos políticos tradicionais foram os grandes derrotados nos dois dias de eleição (sábado e domingo), pois obtiveram representação muito inferior à esperada, sobretudo a da direita governante, ficando abaixo de um terço das cadeiras desejadas.

A partir de agora, os partidos políticos, em descrédito geral das instituições, terão que convergir em grandes acordos com os independentes para redigir a nova Carta Magna, que substituirá a atual, promulgada em 1980, durante a ditadura de Augusto Pinochet ( 1973-1990).

Estão reunidas todas as condições para promover processos de mudança muito mais substantivos, é o que se espera e é viável”, disse Octavio Avendaño, acadêmico da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade do Chile, à agencia de notícias EFE.

O ex-chanceler e candidato à presidência Heraldo Muñoz, do Partido Social-democrata para a Democracia (PPD), disse que o resultado das eleições representa “um triunfo categórico da mudança, do desejo do país de se transformar para ter um mundo mais digno, justo e próspero, no Chile”.

As regras da convenção foram feitas e pensadas para a construção de acordos. Os resultados que estamos vendo hoje tornam esses acordos essenciais”, disse a jornalistas a ex-ministra da Educação Marcela Cubillos, da direita União Democrática Independente (UDI).

A composição da convenção, que ainda terá que passar por uma correção de paridade para acomodar o mesmo número de homens e mulheres, também conta com 17 integrantes de povos indígenas, que representam 12,8% da população total e buscam ser reconhecidos constitucionalmente.

Sete cotas são para os mapuches, duas para os aimarás e uma para cada etnia remanescente: diaguita, quechua, atacameño, colla, yagán, kawésqar, chango e rapa nui.

A heterogeneidade de interesses encontra um grau mais profundo dentro dos próprios blocos de direita e esquerda, com posições divergentes sobre diferentes questões, bem como dentro dos próprios constituintes indígenas.

Representantes dos partidos políticos assumiram a derrota e se depararam com uma mudança que não previam: “Não há dúvida de que vivemos uma derrota transversal. Uma derrota que deve nos fazer refletir. Não conseguimos interpretar a maioria dos cidadãos“, disse aos jornalistas Mario Desbordes, candidato à presidência da direita Renovação Nacional.

Desde a sua formação, a assembleia constituinte, a primeira assembleia paritária no mundo e composta exclusivamente por membros eleitos, terá até um ano para redigir o texto. O processo culminará em 2022 com um plebiscito de saída para finalmente aprovar ou rejeitar a nova Carta Magna.

Com La Tercera e EFE

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