‘Lula renasceu para descongelar a oposição em 2020’, diz mídia de Portugal

02/01/2020 0 Por Redação Urbs Magna

‘A esquerda passou boa parte do ano paralisada, perdida em lutas internas. As alianças para as eleições municipais de 2020 serão fundamentais para testar efeito Lula’, acrestentou o jornal português ‘Público’. Leia a transcrição:

Há um antes e um depois para a oposição no primeiro ano do Governo de Jair Bolsonaro. A 8 de Novembro, o ex-Presidente Lula da Silva saiu do edifício da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde tinha entrado mais de um ano antes.

Apesar de não estar ilibado e de continuar a pender sobre ele a possibilidade de regressar à prisão, com Lula nas ruas o jogo político no Brasil mudou.

Durante meses os principais problemas para o Governo tinham origem no próprio executivo, nos seus aliados ou no Congresso. Na oposição à esquerda o cenário era de paralisia, agitada por lutas internas e com uma dificuldade permanente em entender-se.

Esta situação ficou patente com a crise aberta no Partido Democrático Trabalhista (PDT), quando a deputada Tabata Amaral votou a favor da reforma do sistema de pensões, contrariando a linha do partido.

O líder do PDT, Ciro Gomes, acusou a deputada de traição e pediu a sua expulsão. Tabata, que era considerada uma estrela em ascensão na esquerda brasileira, entrou com um pedido junto do Supremo Tribunal Federal para poder sair do partido sem perder o mandato como deputada.

“Um dos perigos da esquerda é cair no jogo fácil, porque é fácil fazer oposição ao Bolsonaro. Todos os dias ele diz uma besteira”, diz ao PÚBLICO a investigadora do Centro Brasileiro de Análise e Planeamento (Cebrap), Maria Hermínia Tavares. É crucial apresentar visões e propostas alternativas.

Hermínia Tavares diz que há dois desafios para a esquerda. “O primeiro é reconhecer que há limites fiscais para qualquer política económica. O outro é a corrupção”, explica, acrescentando que “não é por acaso que [o ministro da Justiça, Sergio] Moro é a personalidade com mais apoio no país”.

O Partido dos Trabalhadores (PT), com a bancada mais numerosa da Câmara dos Deputados e uma implantação nacional extensa, tem uma responsabilidade acrescida pelo rumo da oposição.

Mas a sua história recente continua a criar muitos anticorpos, não só à direita, mas também à esquerda. Ciro Gomes, por exemplo, continua a rejeitar qualquer entendimento com os “petistas”.

Apesar da aparente ausência de uma frente unida, há sinais de um esforço concertado para superar essas barreiras. Segundo a imprensa brasileira, os presidentes dos principais partidos de esquerda têm-se reunido quinzenalmente.

O próprio PT parece estar ainda à procura de uma definição de rumo. Maria Hermínia antecipa um ano de “muitas discussões internas” no partido, especialmente no que respeita às eleições municipais, em Outubro. A política de alianças que for seguida irá mostrar em que estado está a esquerda.

O discurso que Lula proferiu um dia depois de sair da prisão, em São Bernardo do Campo, serviu para marcar o ritmo do que aí vem e que será uma espécie de campanha eleitoral antecipada – ou a campanha de que o ex-Presidente se viu privado em 2018.

Lula atacou o Governo de Bolsonaro, insistindo no agravamento das desigualdades, mostrando que quer trazer o debate político para um terreno que lhe é tradicionalmente favorável.

“Neste momento Lula está a jogar esse jogo de ser oposição a Bolsonaro, o pólo oposto. E, para além disso, ele acaba de sair da cadeia, portanto sai com um discurso de confronto”, observa a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Esther Solano.

Mas mais do que confrontar, o que interessa neste momento ao PT é somar. Se por um lado o discurso de Lula vai no sentido da polarização, no interior do partido trava-se uma discussão sobre a política de alianças.

Uma das vozes críticas da estratégia de confronto aberto é a do influente governador da Bahia, Rui Costa, que numa entrevista recente à Folha de São Paulo pediu a “pacificação do país”.

Nas ruas também se tem feito oposição a Bolsonaro. O investigador da Universidade de São Paulo (USP), Pablo Ortellado, diz ao PÚBLICO que aproximadamente 15% da população brasileira participou em alguma manifestação em 2019, o que vem em linha com a mobilização social dos últimos anos.

Apesar de ter havido acções a favor do Governo, como marchas de apoio a Moro, a maioria foram mobilizações sectoriais contra políticas específicas, como os cortes na educação, que em Maio trouxe centenas de milhares de pessoas à rua.

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